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Correio Braziliense

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Poeta da crônica

Na passagem do centenário de Rubem Braga, a ser comemorado no sábado, a Editora José Olympio lança Retratos parienses, reunindo entrevistas e perfis de Picasso, Jean-Paul Sartre e Matisse, entre outros

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postado em 17/01/2013 11:57 / atualizado em 17/01/2013 12:03

Severino Francisco

Rubem Braga conquistou a fama de mal humorado e hostil a jornalistas e a fãs invasivos. Ele mesmo cultivou, esmeradamente, a lenda. Parecia que em sua testa havia uma placa com o seguinte aviso: “Cuidado, cronista feroz, não chegue perto. Ele morde principalmente jornalistas curiosos e intelectuais pernósticos”.No entanto, era um delicado, um cacto por for a e uma flor por dentro,como definiu um dos amigos. Por isso, não surpreende que em Retratos parisienses: 31 crônicas (1949-1952), Braga recuse o tempo inteiro a identidade convencional do jornalista de gravador ou caderninho em punho a taquigrafar cada suspiro do entrevistado: “Sou o pior jornalista do mundo”, anota Braga durante a entrevista com o pintor Pablo Picasso:“Ser jornalista é, sobretudo, fazer perguntas e, na verdade, eu não tinha nenhuma pergunta que lhe pudesse fazer.”

Como nota, agudamente, Augusto Massi na apresentação do livro, Braga dissimula esse pudor em ser um jornalista com o pretexto de fazer uma“visita” informal, despretensiosa e gratuita aos entrevistados. Mas a força desses retratos parisienses e mana precisamente da liberdade com que Braga compõe os seus textos em uma mixagem de diário de viagem,  conversa, informações, impressões e divagações pessoais. Com isso, manda às favas as regras da chamada objetividade jornalística. Nem por isso menos reveladoras dos personagens perfilados.

Cena modernista
Ele entrevistou alguns dos nomes mais importantes da cena cultural modernista do século 20: o filósofo Jean-Paul Sartre, os pintoresPablo Picasso,Henri Matisse e Chagal, os poetas Jean Cocteau e André Breton, o diretor Jean- Louis Barrault e a atriz Juliette Gréco. Os melhores momentos são precisamente aqueles em que o cronista assume o primeiro plano da cena,comdescrições precisas, impressões e agudos retratos. Nocaso da visita a Picasso, em determinado momento, Braga se detémem detalhes como a observação da cabeça do pintor: “É um pouco mais baixo do que eu esperava, retaco, musculoso e belo, com sua grande cabeça bronzeada. Sei que vai fazer neste verão 69 anos—e eu não lhe daria mais de 54. Conheço bem e tenho prazer emver pessoalmente essa bela cabeça de homem à qual todas as marcas da passagem do tempo só fizeram ajuntar energia e firmeza: suas rugas, a calvície que lhe aumenta a pureza do vulto”.

E um dos instantes de mais intenso alumbramento ocorre com o espanto de Braga diante as obras do pintor francês Henri Matisse em uma exposição apresentada em Paris: “Mas entre outros quadros feitos com recortes de papel de cores colados há um que me encantou. Tem dois metros e tanto de altura por um de largura, e apresenta uma mulher de pé, cada mão apoiada a uma mesinha. Está datado de 1950. É espantoso tenha produzido esta obra-prima de esplendor juvenil. Umou outro traço de desenho, leves e raros retoques a pincel— e essa figura em cores vivas se planta em nossa frente com uma indescritível e luminosa sensualidade”. De maneira semelhante à suas Crônicas da Segunda Guerra, esses retratos parisienses são desiguais, mas alguns deles sobreviveram como sentido de permanência que só um artista da palavra pode imprimir aos textos.

 

Trechos

 

Visita a Jean Cocteau
“Conta que outro dia estava com Picasso, e Picasso perguntou a um rapaz, restaurador de quadros, o que achava de certa pintura. O rapaz confessou que não podia dizer nada porque não compreendia aquele quadro. E o espanhol: ‘Você compreende chinês?’ O rapaz disse que não.’Pois chinês se aprende; isso também’”.

Visita a Pablo Picasso
“Quanto à moça morena, eu acreditaria se Picasso me dissesse que era sua filha, ou mesmo neta; mas julguei logo, com razão, reconhecer Françoise Gilot, sua esposa. Está com um vestido leve, de verão, e embora também tenha queimado a pele, parece clara ao lado do marido. Os cabelos castanhos estão soltos sobre as costas, os olhos são verdes. Sua mocidade não fica de jeito nenhum mal ao lado desse homem que poderia ser seu avô. Há alguma coisa que combina nos dois, uma certa vitalidade rústica”.

Visita a Pablo Picasso
“Quanto à moça morena, eu acreditaria se Picasso me dissesse que era sua filha, ou mesmo neta; mas julguei logo, com razão, reconhecer Françoise Gilot, sua esposa. Está com um vestido leve, de verão, e embora também tenha queimado a pele, parece clara ao lado do marido. Os cabelos castanhos estão soltos sobre as costas, os olhos são verdes. Sua mocidade não fica de jeito nenhum mal ao lado desse avô. Há alguma coisa que combina nos dois, uma certa vitalidade rústica”.

Oscar Wilde

“Elas as merecia. Em outros tempos tivera outro nome, um nome que a morte lhe devolveu—e que apesar de todas as tristezas e infâmias, tem hoje uma cintilação pura, alta, serena de estrela azul:
Oscar Wilde”.

Roma
“A água—este é um dos encantos de Roma. Não há monumento, nesta cidade cheia deles, onde a água não espadane e cante; as bicas e chafarizes espalhados por toda parte não se fecham nunca, a água está sempre caindo, num desperdício soberbo”.

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