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Cineastas de uma Brasília cotidiana

Novíssimos criadores de Brasília discutem os caminhos do mercado e se desobrigam a pôr a cidade-monumento como cenário

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postado em 03/02/2013 12:31 / atualizado em 05/02/2013 12:30

Yale Gontijo


Da esquerda para a direita, Otávio Chamorro, Gustavo Serrate, Fáuston da Silva, Rafaela Camelo, Rafael Lobo e Alex Vidigal 
Da esquerda para a direita, Otávio Chamorro, Gustavo Serrate, Fáuston da Silva, Rafaela Camelo, Rafael Lobo e Alex Vidigal



Brasília é uma cidade conhecida pela abundância de luminosidade, uma das matérias-primas do cinema. Representantes da novíssima geração de cineastas brasilienses — Alex Vidigal (O filho do vizinho/ Riscado pela memória), Fáuston da Silva (Meu amigo Nietzsche, Balãozinho azul), Gustavo Serrate (Bastar, Homicida é!), Otávio Chamorro (As fugitivas, A caroneira), Rafael Lobo (Confinado, Palhaços tristes) e Rafaela Camelo (A arte de andar pelas ruas de Brasília) — não duvidam da vocação da capital do Brasil para a arte cinematográfica. Com idade entre 20 e 30 e uns anos, eles acumularam experiência suficiente para enxergar as delícias e os problemas da produção audiovisual em Brasília. Em conversa franca, proposta pelo Correio, eles analisaram os erros e os acertos do cenário e as dificuldades de um mercado ainda em formação.


Que imagem o cinema de Brasília transmite para outros estados?

RAFAELA CAMELO — Vejo o cinema de Brasília passando por um momento de grande autoafirmação. Vejo muitos cineastas interessados em mostrar o lado cotidiano da cidade. Eu apresentei uma capital cotidiana, não mostrada nos cartões-postais. É sobre o que a gente faz de segunda a sexta-feira, sobre os espaços por onde a gente passa. Acho que isso frustra um pouco as pessoas porque não satisfaz o conceito da cidade vendida para fora.

ALEX VIDIGAL — Acontece muito com a gente. Nunca assisti a um filme paulistano e cobrei uma cena exclusivamente feita na Avenida Paulista, mas em Brasília existe essa coisa icônica, meio faraônica dos monumentos do Niemeyer, isso forma o imaginário audiovisual e televisivo exportado para fora da cidade.

E o que atrapalha o desenvolvimento do mercado brasiliense?
GUSTAVO SERRATE — Tenho pensado muito nisso nos últimos tempos. Como transformar uma coisa que fazemos por amor em um princípio de indústria cinematográfica? Nosso cenário não é como São Paulo, em que o mercado está formado, competitivo e possui empresas para desempenhar tarefas bem específicas. Acho que a cidade ainda é nova, sem muita coisa estabelecida.

ALEX VIDIGAL — Muita gente aqui é forçada a pensar em produção cinematográfica como uma raia paralela. Não vejo ninguém produzindo com intuito de ganhar muito dinheiro, as pessoas dependem de editais. No meio dos anos 2000, eu e amigos produzíamos uma websérie chamado É nóis!, que teve visibilidade nacional, teve respaldo local e a gente não soube o que fazer com isso, não encontramos maneiras de capitalizar. Eu sempre me senti como um punk do cinema, ia lá, fazia e colocava para rodar. Ninguém sequer falava em produção de conteúdo para a internet. Isso não existia aqui.

FÁUSTON DA SILVA — A estrutura econômica da cidade não favorece o estabelecimento de empresas de publicidade com uso do mercado local. A profissionalização na cidade, falando com sinceridade, é baixa ainda. Não é um “privilégio” do cinema, nosso lobby é bem maior. Artes plásticas, música e teatro sofrem com o mesmo problema: como me sustentar fazendo o que amo?

OTÁVIO CHAMORRO — Em Brasília, essas parcerias são importantes. Porém, nós ainda não conseguimos traduzir os coletivos como modelo de negócios. Muitas produções só se viabilizam quando todo mundo se junta. É uma característica do cinema, arte coletiva. Mas a tradução dessas parcerias, a abertura de uma produtora que perdure, ainda não conseguimos fazer aqui. Existiram discussões sobre a criação do Film Comission Brasília e até hoje não deu em nada. Fica muito no campo da parceria.

Grande parte dos projetos depende de editais. Vocês gostariam de produzir independente deles?
FÁUSTON DA SILVA — Não vejo problema no mecenato estatal. É tão velho quanto as pirâmides do Egito. Nós olhamos para um país rico como os Estados Unidos e achamos que o modelo de indústria deles serve para qualquer lugar. Nem sempre é assim.

OTÁVIO CHAMORRO — Com o passar do tempo, o edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) tem exigido mais profissionalização dos concorrentes. Quando eu ganhei o FAC pela primeira vez, era muito simples, três páginas preenchidas e pronto. Em Brasília, a produção executiva, geralmente, é muito ligada a quem faz a produção artística e o artista precisa gerenciar o projeto. Olha, a gente esquece o primeiro beijo, mas não esquece o primeiro FAC depois de ser ameaçado pela prestação de contas. Recentemente, mudaram as regras. É exigida a contratação de alguém para gerir o projeto e para divulgá-lo. É bom porque tira do artista a obrigação de ser o gerente. Separar as duas coisas já é um bom passo.

GUSTAVO SERRATE — Bem, além disso, existem modelos de produção feitos com a equipe menor e baixos recursos. Eu nunca participei do FAC. Sempre fiz filmes de baixíssimo orçamento.

RAFAEL LOBO — É, mas fazer filme com baixo orçamento implica em uma opção estética. Além disso, existe o problema de remunerar bem os profissionais envolvidos. Não conseguiria colocar as mesmas pessoas em um projeto (como fiz em Palhaços tristes) sem conseguir pagar corretamente.

RAFAELA CAMELO — No baixíssimo orçamento, existe o problema de grana da pós-produção também. Eu fiz um filme com dinheiro do FAC, mas não consegui me planejar em relação a isso. Na montagem, a gente depende da camaradagem do amigo que vai usar o tempo livre para editar. Depois, os festivais exigem o filme em formato “x” ou legenda em formato “y”, nada acessível para a gente. É até um pouco constrangedor produzir um filme com tão baixo orçamento.

Vocês são autênticos representantes da geração digital. O filme deve ser usado como linguagem ou é apenas um formato de produção e exibição?
RAFAELA CAMELO — Trabalhei muito pouco com película, mas me lembro de que tínhamos de enviar os negativos para São Paulo e esperar não sei quanto tempo para a revelação chegar. Daí, marcávamos um espaço na sala de cinema para assistir ao copião. Era meio contraproducente.

ALEX VIDIGAL —São coisas que me inquietam sim. Penso muito nesse novo mercado de produção de conteúdo. Acredito que o processo digital é análogo à produção musical. Muitos álbuns são feitos em digital e lançados em vinil para atender um mercado menor, o dos fetichistas por vinil.

RAFAEL LOBO — Não acredito no fim da película. É uma linguagem, uma técnica, uma estética que ainda deverá ser usada como fetiche. Tem muita câmera digital tentando reproduzir a textura do analógico. O digital está ficando mainstream por ser mais barato, por poder ser feito com baixa iluminação e tal. Mas não penso “nunca mais vou trabalhar com película”.

Vocês devem ser a quarta geração de cineastas de Brasília, que nomes das gerações anteriores influenciaram vocês?
ALEX VIDIGAL
— Eu admiro muito o trabalho do Vladimir Carvalho. Vladimir, por tudo que ele acrescentou ao cinema documentário e ao ingresso que ele fez no mundo acadêmico. Até hoje, Vladimir é um artista inquieto, acabou de lançar um documentário sobre o rock. Já o Afonso Brazza justamente por ter nos ensinado a fazer cinema com poucos recursos. Era um cara naïf, que construiu um estilo maravilhoso.

OTÁVIO CHAMORRO — Dácia Ibiapina. O último filme dela passou fora de competição do Festival de Brasília (O entorno da beleza) e foi um dos melhores do festival. Também Vladimir, Afonso e o Adirley Queirós (A cidade é uma só?).

GUSTAVO SERRATE — Todos esses já citados e mais o recém-falecido J. Pingo. Ele foi cineasta, além de ter sido ator em vários filmes brasileiros.
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