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Correio Braziliense

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A invenção do pop

Com Please please me, lançado há 50 anos, os Beatles inauguram a fase áurea da indústria fonográfica e iniciam uma carreira musical única

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postado em 26/03/2013 19:06 / atualizado em 26/03/2013 20:00

Felipe Moraes

Kleber Sales

O álbum dos debutantes que modificaram para sempre o jeito de fazer rock custou cerca de 400 libras, incluiu seis covers entre as 14 canções listadas e foi gravado em menos de 13 horas. Please please me, lançado na Inglaterra em 22 de março de 1963, há exatos 50 anos, foi o embrião criativo da banda mais escutada, tocada e imitada da história. Mas, enquanto tinham vozes e instrumentos captados nos estúdios de Abbey Road, em Londres, os garotos de Liverpool, que há dois anos tocavam freneticamente na Inglaterra e na Alemanha, não deviam saber que aquelas sessões inaugurariam a música pop.

A gravação começou às 10h de 11 de fevereiro de 1963 e se estendeu em três segmentos de três horas. Entre quatro paredes, John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr reproduziram as performances ao vivo que estavam habituados a fazer no Cavern Club, onde foram descobertos pelo empresário Brian Epstein e tocaram pela primeira vez, em 9 de fevereiro de 1961.

Como quatro das canções já haviam sido lançadas em singles, Love me do (e P.S. I love you de lado B), em outubro de 1962, e Please please me (Ask me why na outra face), em janeiro de 1963, o quarteto utilizou o tempo de estúdio para formatar mais 10 faixas, incluindo seis covers. A dupla Lennon / McCartney assina todas as oito músicas restantes.

A dançante Twist and shout, originalmente composta pelos letristas Phil Medley e Bert Russell, encerra o disco e foi de fato gravada por último—e num só take. Resfriado, Lennon chupava balinhas a fim de aliviar a garganta e tomava goles de leite para aplacar os sintomas da gripe. Mesmo com a voz arranhada, o vocalista imortalizou um hit sobre a energia da juventude, que se embrenhou na cultura pop e serviu de trilha sonora para uma das cenas icônicas de Curtindo a vida adoidado (1986),em que Ferris Bueller, durante um desfile, convoca uma multidão para cantar com ele.

Há quem prefira o Beatles cerebral e conceitual dos álbuns lançados a partir da metade daquela década—Rubber soul (1965) e Revolver (1966), prelúdios de Sgt. Pepper’s (1967)—ao Beatles imberbe e explosivo dos primeiros discos. De qualquer maneira, tudo começou em 1963, nos corações partidos e apaixonados de Please please me. A sequência demorou apenas quatro meses para sair. With The Beatles, gravado em outubro e lançado em 22 de novembro de 1963, estendeu o domínio dos Beatles no topo das paradas—51 semanas seguidas, contando os dois primeiros LPs.

Na Inglaterra, as homenagens aos 50 anos de Please foram antecipadas. Em11 de fevereiro, data da gravação original, artistas como Joss Stone e Graham Coxon se trancafiaram no estúdio 2 de Abbey Road para executar as canções do disco. A rádio BBC, no mesmo dia, transmitiu as 14 faixas sem parar, das 10h às 22h45.

The Quarrymen

Quando os adolescentes Paul McCartney e John Lennon se conheceram, este tinha uma banda chamada The Quarrymen, ao lado do então melhor amigo, Pete Shotton, e outros garotos de Liverpool. Paul assistiu auma apresentação do conjunto e foi apresentado ao líder por um conhecido em comum, em 1956. John, ao perceber o talento do colega, o convidou para integrar a trupe, mesmo relutante de que sua notável habilidade pudesse ofuscá-lo. O embrião do que viria a ser o Fab Four surgiu quando George Harrison, amigo de Paul, entrou para o time. Com Stuart Sutcliffe, amigo de Lennon, no baixo, os Quarrymen gravaram um disco de acetato. Enquanto dirigiam-se rumo ao rock and roll, mudaram de nome cinco vezes. Em 1960, acabaram optando por The Beetles. Após uma turnê na Escócia, viraramos Beatles.

A formação, além do célebre trio e o baixista Stuart, contava também com o baterista Pete Best. Stuart saiu dos Beatles em 1961, para se casar. Para Paul, foi uma boa, pois ele acabou assumindo o baixo. Naquele mesmo ano, foram vistos por Epstein no Cavern Club, em Liverpool, e ganharam o primeiro empresário. O contrato inaugural com uma gravadora, a Parlophone
Records, veio em maio do ano seguinte. Foi o produtor musical George Martin quem sugeriu que o baterista Pete fosse trocado. Aparecia, então, Ringo Starr, conterrâneo de Liverpool, e consolidava-se a formação clássica da maior banda de todos os tempos.

LADO A
I sawher standing there 2:55
A canção que abre o primeiro álbum da banda começa com a judava a criar uma impressão de ser cantada ao vivo pretendida por George Martin. Paul McCartney conta a história de um garoto que se apaixona por uma menina de 17 anos em um baile típico dos anos 1960. E o rapaz promete que nunca dançará com outra.

Misery 1:50
Enquanto Paul McCartney exalta uma garota na primeira faixa do álbum, Lennon compôs Misery na direção contrária. Reclama de uma menina que o abandonou. Nostálgico quanto ao relacionamento, diz que “sem ela, cairá em desgraça”. No primeiro verso da canção, já é percebido como o garoto está inconsolável: “The world is treating me bad”—o mundo está me tratando mal.

Anna (Go to him) 2:57
Escrita pelo compositor norte-americano de country soul Arthur Alexander, a música tem um estilo suave e melódico. É mais uma do álbum que trata de abandono. Era uma das canções favoritas de John, que faz o vocal.

Boys 2:27
Foi a única música cantada pelo baterista Ringo Starr no álbum. Composta por Luther Dixon eWes Farrel, é um melodia de meninas para meninos. Os Beatles, porém, estavam pouco se importando com aquilo. “Você não dá a mínima. Eu amo a inocência daqueles anos”, comentou Paul McCartney à revista Rolling Stone, em 2005. O grupo tocava Boys no Cavern Club e Pete Best, antecessor de Ringo na bateria do grupo, também fazia o vocal da canção.

Chains 2:26
Assinada pelo casal de roqueiros Gerry Goffin e Carole King, fala de “correntes de amor” que servem para prender um homem a uma mulher. À época, era também uma das preferidas do repertório musical dos Beatles. Foi a primeira de duas canções do álbum em que o guitarrista George Harrison fez a função de vocal principal.

Ask me why 2:27
Por pouco Ask me why não abriu o álbum. Mas George Martin achou que a música não fosse suficiente forte para isso. Com Jonh Lennon no vocal, a banda se inspirou nos arranjos de Smokey Robinson and the Miracles. A letra da música é uma declaração de amor.

Please please me 2:03
A faixa que dá nome ao disco é cantada por John Lennon. “Era uma dessas canções pop que soavam inocentes, mas tinham conteúdo subversivo”, segundo as palavras de Steve Turner, no livro The Beatles: A história por trás de todas as canções. Para o autor, “alguns críticos a viam como pedido de igualdade no prazer sexual”.

LADO B

Love me do 2:22
Foi o primeiro single dos Beatles e era inevitável que entrasse no álbum de estreia. A letra é básica, com várias palavras de uma só sílaba e 21 repetições de “love”. A canção, porém, demonstra uma maior influência do blues, a exemplo da gaita tocada por Lennon, que também faz o vocal principal. O instrumento, aliás, foi o primeiro que o músico aprendeu a tocar.

PS I love you 2:05
Outra cogitada como a música de abertura de Please please me. Composta em forma de carta, foi a primeira de várias canções desse estilo escritas por Paul McCartney—assim como Paperback writer e When I’m 64. Paul a teria feito para uma antiga namorada Dorothy Rhone. Embora o baixista tenha negado anos mais tarde.

Baby it’s you 2:38
Apesar de não ter sido feita pelos Beatles, o tema dessa canção é recorrente no álbum. A música de Burt Bacharach, Luther Dixon e Mack David é outra que fala de um homem deixado por uma mulher. No vocal principal, Lennon dá um toque ainda mais melancólico à composição.

Do You want to know a secret? 1:59
Foi baseada emWanna know a secret?, uma música do desenho animado Branca de Neve e os sete anões, que a mãe de Lennon, Julia Stanley, cantarolava quando o músico era ainda criança, em Liverpool. John fez a canção para a sua primeira esposa, Cynthia Powell. O segredo em questão dito na composição era que o beatle estava apaixonado. Quem faz o vocal principal, entretanto, é George Harrison.

A taste of honey 2:05
Composta pelos músicos Bobby Scott e Ric Marlow, é cantada por Paul McCartney no disco. Ela teria sido inspirada em uma peça de teatro homônima. Fala de um beijo de “um gosto de mel com sabor mais doce do que vinho”. A canção deixa clara a influência que os Beatles receberam do jazz.

There’s a place 1:52
Tal como Misery, revela sentimentos de isolamento e rejeição, uma grande preocupação de Lennon ao longo da carreira. John foi abandonado pelo pai na infância e teve uma relação conturbada com a mãe, que tinha outra família e se mostrava distante do filho, que foi criado pelos tios. No futuro, o beatle volta a evidenciar esse sentimento em composições mais sofisticadas, tais como Girl, Inmy life, Rain, Strawberry fields forever e Mother, essa última em sua carreira solo.

Twist and shout 2:33
Talvez a mais emblemática canção do álbume até mesmo uma das mais populares cantadas pelos Beatles, foi escrita por Phil Medley e Bert Russell. A banda de Liverpool, contudo, deu uma batida bem mais agitada que a da música original. Foi a última canção gravada do disco, ininterruptamente. John estava completamente rouco e o produtor teria pedido para que ele cantasse gritando.
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