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A febre que veio de Liverpool

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postado em 26/03/2013 19:45

Felipe Moraes

Os Beatles não gravaram uma versão de Asa branca em inglês, como anunciou-se aos quatro ventos na segunda metade da década de 1960 no Brasil. Era lenda. Mas não precisou que isso acontecesse para que o som do quarteto britânico aterrissasse com força no país. Onde quer que houvesse um jovem e um rádio naquela época (ou talvez um aparelho de tevê), a probabilidade era grande de o encontro gerar combustão. “As repercussões, profundas, tinham a ver com liberdade, comportamento e sonoridade”, opina o musicólogo Ricardo Cravo Albin.  Em terras brasileiras, essa repercussão pôde ser sentida com mais ênfase na jovem guarda de Roberto Carlos e companhia, paralelamente à febre dos Beatles em todo o mundo. Mais tarde, contudo, correntes como o tropicalismo e o Clube da Esquina também se valeram de artifícios musicais do quarteto.

 

Renato Barros orgulha-se de estar à frente, segundo seus cálculos, da “banda de rock mais antiga do mundo em atividade”. Quando os Beatles chegaram aos ouvidos dos brasileiros, em 1964, o grupo Renato e seus Blue Caps já existia desde 1959, com uma sonoridade calcada em Elvis Presley e outros crooners do rock and roll. O conjunto brasileiro chegou à música dos Beatles por Carlos Imperial, apresentador de programas de tevê no Rio de Janeiro e influente produtor.

 

“Apareceu um dia comum compacto de quatro canções. E me pediu para tirar uma música de uns caras que eu nunca tinha ouvido e tocar no dia seguinte, que ele ia abrir o programa com ela”, conta. Barros reconhece que seu inglês não era dos melhores. Varou a noite tentando traduzir os versos de I should have known better, gravada originalmente no disco A hard day’s night. Desistiu no meio do caminho e decidiu ele próprio compor uma letra, em português, chamada Menina linda. “Até hoje temos que encerrar os nossos shows com essa música”, destaca o cantor. “Os Beatles transformaram o rock no pop rock. Colocaram outras harmonias, outros acordes, vieram como lance de cantar com duas, três, quatro vozes. E isso inspirou muito meu trabalho. Usei os Beatles mais como profissional do que como fã. Eles sinalizaram um novo caminho para a música, e seguimos essa esteira estirada por eles.”

 

Integrante dos Blue Caps desde 1964, quando entrou tocando saxofone, Cid Chaves lembra que conjuntos de rock pipocavam em“cada esquina do Rio”, como Os Canibais, The Brazilian Bitles e The Sunshines. “Eram jovens querendo fazer música, recebendo informações de fora do país, e não eram vistos com bons olhos aqui. Relação bem diferente ocorreu com as bandas de rock dos anos 1980”, compara. Com suporte de nomes midiáticos de rádio e tevê, como Imperial, Jair de Taumaturgo e José Messias, as bandas tiveram alguma abertura. “Éramos minoria em relação ao que se fazia na música brasileira da época”, completa.

 

Brasil-Liverpool

 

A banda Os Mutantes começou a aparecer como um grupo de iê-iê-iê, mas logo se incorporou ao balaio tropicalista. Muito de o movimento encabeçado por Caetano Veloso e Gilberto Gil ter se impregnado de rock tem a ver com o contato que tiveram com o grupo de Arnaldo Baptista, Rita Lee e Sérgio Dias. “Os Beatles faziam uma música mais complexa e profunda do que os Rolling Stones, por exemplo, e influenciaram bastante nosso som, sobretudo nas partes harmônica e instrumental”, comenta Baptista. “O lado romântico de Paul McCartney também chegou muito forte até mim. Ringo era mais bem humorado, Harrison entrou demais nas religiões e John tentou abranger o mundo com as mãos”, destaca. Para o artista, o legado sonoro dos Beatles pode ser sentido mais em países da Europa do que no Brasil, já que, aqui, há raízes musicais muito bem definidas.

 

O artista gráfico e compositor baiano Rogério Duarte conta que, quando o movimento tropicalista começou a tomar forma, no fim da década de 1960, Beatles já era uma “coisa antiga”. “Acho que é possível ouvir a batida deles mais na turma de Roberto Carlos e nos Mutantes, que depois se incluíram

no tropicalismo”, diz. Rogério lembra que, ao criar a capa de Qualquer coisa,

disco de Caetano lançado em 1975 com três canções dos Beatles, “inspirouse”

na concepção gráfica de Let it be, colocado nas lojas pelos ingleses cinco anos antes. “É uma paródia exata, uma réplica.Meu trabalho é de metalinguagem”, explica.

 

Em Minas Gerais, já se disse que, se o pessoal do Clube da Esquina tivesse nascido na Inglaterra, poderia ter feito o mesmo sucesso mundial que os Beatles. A turma de Belo Horizonte tem o quarteto de Liverpool no sangue,

sobretudo Lô Borges e Beto Guedes, que, ainda crianças, criarama banda cover The Beavers. “Assisti ao filme Os reis do iê-iê-iê (A hard day's night, de 1964) e fiquei apaixonado. Fui ao cinema todos os dias durante um mês”, recorda

Lô. O artista acredita que, por ter se ligado muito na banda (“fiquei com vontade de ter uma carreira, ter um uma guitarra, ser compositor…”), pode

ter levado isso para o trabalho ao lado de Milton Nascimento e companhia. Mas é em alguns discos de Beto Guedes, “um grande beatlemaníaco até hoje”, que Lô percebe o legado do quarteto com mais intensidade.

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