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Correio Braziliense

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O presente de Renato

Correio teve acesso às duas páginas que faltavam da peça A verdadeira desorganização do desespero, de Renato Russo. Pela primeira vez, em três décadas, o texto está completo e pode ser encenado. O músico faria 53 anos hoje

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postado em 27/03/2013 14:42

Diego Ponce de Leon

 

 (Arquivo Pessoal) 
Acima, foto de Renato tirada por Ana Cristina. Abaixo, os dois amigos num parque da cidade (Arquivo Pessoal) 
Acima, foto de Renato tirada por Ana Cristina. Abaixo, os dois amigos num parque da cidade
Até o mês passado, poucos sabiam que Renato Russo tinha se aventurado pela dramaturgia. A peça A verdadeira desorganização do desespero, escrita pelo artista em setembro de 1982, nunca foi montada. Sequer comentada. Ficou restrita aos mais próximos. Ao longo dos anos, esvaiu-se da memória e foi considerada item perdido entre os objetos da herança. O Correio resgatou o mistério e encontrou um antigo companheiro de Renato, a quem teria sido entregue a única cópia do texto. Assim, mais de trinta anos depois, o público pôde conhecer uma faceta praticamente inédita do cantor (por meio da reportagem publicada em 19 de fevereiro). Um detalhe, porém, permaneceu incógnito: duas páginas da peça estavam desaparecidas. O material incompleto impedia uma montagem fidedigna. O paradeiro daquelas páginas segue inconcluso. Contudo, uma aparição inesperada parece resolver a questão. Uma segunda cópia foi encontrada nos Estados Unidos. A peça está, finalmente, completa (trechos da dramartugia do roqueiro foram citados no livro Renato Russo: O filho da revolução, do jornalista Carlos Marcelo). O desfecho coube a Ana Cristina Ferreira. Renato e Cris (“Ele era o único a me chamar assim”) se conheceram em 1977. Ele ainda era Manfredini. Estudaram juntos no Marista. Tornaram-se melhores amigos. Cinco anos depois, quando ele a presenteou com uma cópia integral de A verdadeira desorganização do desespero, a assinatura dizia: Renato Russo (uma das primeiras vezes que fez uso do nome artístico). No mês seguinte, Ana Cristina embarcou para solo americano, onde reside desde então. Nunca imaginou, 30 anos depois, ter que revirar o porão e reencontrar o presente do amigo. Quase sem querer, encerrou as dúvidas sobre a peça, que passa a fazer parte em definitivo do legado deixado pelo cantor. Brasília adolescente “Ela era uma das melhores amigas do meu irmão na época do Marista”, recorda Carmem Manfredini. A relação com a então estudante Ana Cristina poderia, quiçá, transcender a amizade. Pelo menos aos olhos da família dele. “A mãe do Renato, às vezes, ficava um pouco desconfiada do que a gente fazia no quarto e a irmã dele enfiava a cabeça para chamar: ‘Júnior!’”, brincou Ana, que hoje leciona cultura latino-americana na Washington and Lee University. A natureza do convívio entre eles — e o que aprontavam — permanecerá desconhecido: “Fazíamos muitas coisas. Algumas coisas muito malucas que é melhor deixar guardadas”, confessou. Entre as opções sãs de entretenimento, música e acalentadas rodas de discussão sobre literatura e, claro, astrologia. O misticismo de Renato parece inclusive ter contagiado Ana, que ensaia o próximo encontro: “Quando, e se eu puder, rever Renato algum dia, nas esferas celestiais, nós dois vamos lembrar tudo isso — as risadas e os dramas”. Fosse no apartamento dos Manfredini, na 303 Sul, ou na casa da carioca Ana Cristina, na 106 Norte, Renato e Cris estavam sempre juntos. Apesar da amizade íntima, Carmem Manfredini não imaginava que Ana pudesse ter recebido uma cópia: “Uma ótima notícia. Feliz em saber que tenha guardado por tantos anos. Fica mais fácil pensar em alguma produção agora”, comentou. A irmã de Renato e o filho Giuliano receberão uma reprodução das duas páginas. “Em dois ou três anos, é possível montarmos a peça”, previu Carmem. Graças à descoberta desse novo (e íntegro) texto, a montagem não dependerá de soluções cênicas. Não falta nada. Nem plateia. Os fãs agradecem.
 (Arquivo Pessoal) 
Depoimento “Estou muito sensibilizado com essa descoberta conclusiva do Correio Braziliense. Aproveito para dizer que eu, por meio da Legião Urbana Produções Artísticas, em função disso, decidi entrar em contato com o Museu da Pessoa e dar tratamento especial ao acervo do meu pai, que hoje está no Rio de Janeiro. Assim, os fãs terão um acesso mais organizado ao legado de Renato Russo. Eu só tenho a agradecer!” Giuliano Manfredini, sobre a descoberta das duas páginas
 (Arquivo Pessoal) 
Dedicatória manuscrita na cópia de Ana Cristina Adorei sua peça! Você é joia! All the best up there in New Orleans — Nunca se esqueça de me lembrar. Nunca se lembre de me esquecer. Já estou morrendo de saudades de você. Sempre seu, Renato.
Canções inéditas
Aos poucos, alguns preciosos pormenores da trajetória de Renato Russo que ficaram pelo caminho começam a reencontrar os trilhos. Dois deles, em forma de música, partem do baú do instrumentista Kadu Lambach. Kadu é Carlos Eduardo Paraná, o primeiro guitarrista da Legião Urbana, que guardou por três décadas duas composições inéditas do líder da banda brasiliense. Ambas estarão no disco Legionário do som, em que ele canta, toca guitarra e revisita alguns dos principais sucessos da Legião. A previsão é de que o trabalho seja lançado em maio. Uma das faixas é Dois corações, com letra de Russo e melodia de Kadu. Nela, o vocalista e poeta relata os detalhes colhidos em uma cobertura jornalística, quando era estagiário de um programa de rádio do Ministério da Agricultura, e foi a Ceilândia acompanhar um caso de venda de carne clandestina. “Em meio a uma história de suborno e prostituição, no fim das contas, a carne ainda tinha nota fiscal”, conta Kadu. A música surgiu em 1982, ano em que a Legião foi criada e quando Renato tinha 22 anos. O guitarrista, segundo seus cálculos, participou de apenas quatro shows ao lado do vocalista e do baterista Marcelo Bonfá, todos naquele ano. A outra música é Medieval, que abre o disco e vem embalada por um caso interessante. Russo compôs a melodia e a ensinou para Kadu. Um dia, durante uma aula na Universidade de Brasília, o rapaz mostrou o tema instrumental do amigo para o professor Marco Pereira, que, impressionado, resolveu registrá-la em uma partitura. Foi este documento que ficou guardado no baú do guitarrista e que ganhou uma segunda parte dele agora. “Ela parece uma música celta. A gente chegou a tocá-las nos primórdios da banda”, recorda. Holograma Aos 48 anos, Kadu Lambach está morando em Curitiba, onde nasceu. Residiu em Brasília entre 1979 e 1998, viveu um tempo no Rio de Janeiro e retornou para sua cidade. O apelido Paraná surgiu na capital, em 1980, enquanto trabalhava na Festa dos Estados. “Eu já tocava guitarra e conhecia os punks de vista, e eles me conheciam também”, diz ele, morador do Bloco C da 111 Sul à época. Kadu tocava na banda Boca Seca. Renato percebeu o talento do então adolescente e o convidou para montar uma banda. “Ele tinha certeza de que aquilo daria muito certo”, conta, “mas não imaginava que a Legião se transformaria em um país inteiro”. Kadu gostava de punk e de rock, sim, mas também tinha a veia da música instrumental pulsando forte. “Ouvia Egberto Gismonti, por exemplo”. Pressionado por não ser um roqueiro tão radical quanto os outros da turma,  ele acabou saindo da banda para dar vazão à sua porção jazzística. Mas manteve amizade com Renato, mesmo a distância, por toda a vida. Além de Legionário do som, Kadu vai participar de um concerto sinfônico em homenagem a Russo em 29 de junho, no estádio Mané Garrincha, dentro da programação da Copa das Confederações.
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