Renato Russo em dose dupla

O brasiliense René Sampaio estreia na direção de longas com Faroeste caboclo, orçado em R$ 6 milhões. Mais um filme sobre o cantor da Legião Urbana começa a ser exibido em maio

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 12/04/2013 19:00 / atualizado em 12/04/2013 11:12

Renato Alves

Antônio Cunha
Milhares de jovens brasileiros dos anos 1980 sabiam de cor e salteado os 159 versos de Faroeste caboclo. René Sampaio de Honório Ferreira era um deles. Ouviu a canção, de 9 minutos, pela primeira vez aos 14 anos. Na época, morava em Brasília, terra da Legião Urbana. Quando começou a se interessar por cinema, ele sonhava ver nas telonas as desventuras de João de Santo Cristo, o “bandido destemido e temido no Distrito Federal” criado por Renato Russo em 1979, aos 18 anos.

Agora, aos 39 anos, René aguarda ansiosamente a estreia do seu primeiro longa-metragem. Faroeste caboclo, o filme, chega às salas de todo o país em 20 de maio. E, por meio dele, segundo o diretor, o Brasil conhecerá o “lado humano” e a face “verdadeira” da cidade onde o protagonista da obra desembarcou como um “rapaz trabalhador”.

Conforme o Correio antecipou, o filme será exibido primeiramente em 13 de maio em  Brasília. Os protagonistas da trama virão à pré-estreia em um shopping. Brasiliense de nascença e criação, René Sampaio espera uma recepção calorosa por parte dos conterrâneos. Por outro lado, ele tenta não pensar na reação dos fãs de Renato Russo e da Legião Urbana. “Decidi não pensar no assunto, em dar uma resposta a eles, senão o filme fica muito travado”, afirmou, em entrevista por telefone. No momento, ele está em São Paulo, dando os últimos retoques na montagem. René vive entre Brasília, onde tem família, São Paulo, Rio de Janeiro e Nova York, produzindo filmes publicitários.

Após enfrentar uma briga judicial no início do projeto — apesar da aprovação da família de Renato Russo, a Editora Tapajós, detentora de direitos autorais da Legião, tentou impedir a adaptação cinematográfica; pedido negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) —, em novembro de 2006, René e Paulo Lins (autor do clássico Cidade de Deus) estiveram juntos em Brasília pela primeira vez, fazendo pesquisa de campo para o longa. Na época, a dupla conversou com traficantes, prostitutas e roqueiros, além de recolher muito documento para o primeiro tratamento do roteiro.

A saga de João de Santo Cristo, no entanto, começou a ser filmada somente em 2011. Quase todas as locações ocorreram no Distrito Federal. Serviram de cenário a Universidade de Brasília (UnB), o Parque da Cidade, a Esplanada dos Ministérios, a Praça dos Três Poderes, o Lago Paranoá e algumas superquadras. Já Ceilândia foi retratada por meio de uma cidade cinematográfica erguida no Jardim ABC, bairro da Cidade Ocidental (GO), na divisa de Goiás com o DF. A comunidade recebeu a equipe por quatro semanas.

Escrito por Marcos Bernstein e Victor Atherino, com consultoria de Paulo Lins, o roteiro ambienta a rotina violenta de quadras do Plano Piloto e, principalmente, da periferia de Brasília entre 1979 e 1981. Para dar vida à canção nas telonas, os roteiristas criaram novos personagens. Além de João, Maria Lúcia e Pablo, há um senador (Marcos Paulo) e um policial corrupto (Antonio Calloni).

Entre os protagonistas, estão Fabrício Boliveira (minissérie Suburbia) no papel de Santo Cristo, rapaz pobre do interior da Bahia que se muda para Brasília em busca de uma vida melhor. Já Maria Lúcia, a quem Santo Cristo o coração prometeu, é vivida por Isis Valverde. Jeremias — “maconheiro sem-vergonha, que desvirginava mocinhas inocentes e se dizia que era crente, mas não sabia rezar” — é interpretado pelo ator de teatro Felipe Abib.

Biografia
Antes de Faroeste caboclo, Brasília ganhará a telona por meio de Somos tão jovens. Com estreia em circuito comercial anunciada para 3 de maio, enfoca a adolescência de Renato Manfredini Jr. e como ele se tornou Renato Russo. Dirigido por Antônio Carlos da Fontoura, conta a história de um garoto que, após se mudar do Rio para Brasília, em 1973, começou a sofrer uma doença óssea rara, a epifisiólise, fez uma cirurgia e ficou em cadeira de rodas.

Somos tão jovens vai revelar como um rapaz de Brasília, no fim da ditadura, criou canções como Que país é este?, Música urbana, Geração Coca-Cola, Eduardo e Mônica e Faroeste caboclo, hinos da juventude urbana dos anos 1980 que continuam a ser cultuados por uma crescente legião de fãs. A direção musical é de Carlos Trilha, ex-integrante da banda de apoio da Legião e arranjador e produtor de dois CDs solos de Renato Russo, The Stonewall celebration concert e Equilíbrio distante.

Além de atuar no papel de Renato Russo, Thiago Mendonça interpretou todas as músicas no filme, sem dublagem. Para incorporar Renato Russo, ele, que nunca havia tocado ou cantado antes, passou meses se preparando para executar as músicas do longa em performances ao vivo. Além de aulas de canto e violão, o ator teve a oportunidade de conhecer o cantor por meio dos olhos de pessoas muito próximas a ele. Como em Faroeste Caboclo, superquadras, áreas verdes e monumentos da capital também serviram de cenário para as locações.

Adiamentos

Orçado em R$ 6 milhões, Faroeste caboclo tinha estreia prevista para outubro de 2011, depois adiada para o início de 2012. No entanto, os produtores esbarraram na falta de dinheiro para concluir o longa. Uma equipe de mais de 100 pessoas, entre atores, produtores e técnicos, participou das locações na capital, em abril e maio de 2011. O restante foi rodado em junho e julho, no Polo Cinematográfico de Paulínia (SP) e no sertão pernambucano, que serviram de cenário para as cenas da infância e da juventude de João do Santo Cristo.

Em Florianópolis

Com um orçamento de
R$ 6,4 milhões, as filmagens de Somos tão jovens começaram no fim de maio de 2011. Após quatro semanas em Brasília, em julho de 2011, a produção mudou-se para Paulínia (SP) para mais quatro semanas de gravações. A pré-estreia do filme ocorreu em Florianópolis, no 4ºEncontro de Cinema Nacional, em 8 de março.


» Ficha técnica

Somos Tão Jovens

Estreia: 3 de maio
Duração: 104 minutos
Direção: Antônio Carlos da Fontoura
Elenco: Thiago Mendonça (Renato Russo), Bruno Torres (Fê Lemos), Nicolau Villa-Lobos (Dado Villa-Lobos), Conrado Godoy (Marcelo Bonfá), Ibsem Perucci (Dinho)


Faroeste Caboclo

Estreia: 20 de maio
Duração: 100 minutos
Direção: René Sampaio
Elenco: Isis Valverde (Maria Lúcia), Fabrício Boliveira (Santo Cristo), Felipe Adib (Jeremias), Antonio Calloni (policial corrupto), César Troncoso (Pablo)

{ Entrevista } René Sampaio

René Sampaio começou a trabalhar realizando vídeos experimentais enquanto estudava comunicação social na UnB. Nos anos 1990, dirigiu e produziu curtas, videoclipes e documentários. Em 2000, lançou Sinistro, vencedor dos prêmios de melhor filme — do júri oficial, do júri popular e da crítica — no 33º Festival de Cinema de Brasília, além de mais 15 prêmios em outros festivais. Em entrevista ao Correio, René antecipa um pouco do que o espectador verá no filme.

Por que filmar Faroeste caboclo como o seu primeiro longa-metragem?
Foi um sonho. Um sonho desde moleque. Queria fazer esse filme. Quando todo mundo falava que a música dava um filme, eu já o imaginava. Tentei comprar o direito autoral duas, três vezes. Uma vez, cheguei, conversei com a Bianca (de Felippes), e ela, em dois ou três telefonemas, resolveu tudo.

É um filme para fãs da Legião, do Renato Russo?

Também. Fiz um filme para ao menos um fã, que sou eu. Mas não é só para fãs da Legião. É para quem gosta de cinema. Uma música pode ser uma experiência de nove minutos (tempo de duração de Faroeste caboclo); um livro, de dias; já um filme é uma experiência de duas horas. Cada um tem a sua característica.

Você teme a reação dos fãs da Legião?
Na verdade, não parei para pensar nisso. Mas é claro que dá um frio na barriga. Desde o início do projeto, decidi não pensar no assunto, senão o filme ficaria muito travado. E estamos falando de uma legião de fãs. Não dá para agradar a todos. Mas vamos combinar que, se metade deles gostar, já será bastante gente.

Que Brasília veremos na telona?
Uma Brasília que não é um cartão-postal nem a do estereótipo negativo, do lugar onde só tem político e ladrão. O filme mostra a Brasília de uma gente que trabalha, que rala, que tem planos, sonhos, uma cidade com suas desigualdades e com suas belezas naturais. Acima de tudo, o Brasil verá uma Brasília humana.

 

Tags: