A saga de uma produção

Para conseguir viabilizar a história de João de Santo Cristo, a equipe de René Sampaio chegou a criar uma cidade cenográfica no Entorno do DF

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postado em 14/05/2013 18:00 / atualizado em 14/05/2013 13:09

Renato Alves


Storyboard do filme (Breno Fortes/CB/D.A Press - 29/3/11 ) 
Storyboard do filme
Isis Valverde em cena (Europa Filmes/Divulgação ) 
Isis Valverde em cena
Cidade cenográfica no Jardim ABC (Daniel Ferreira/CB/D.A Press ) 
Cidade cenográfica no Jardim ABC
Fabrício Boliveira interpreta o destemido João de Santo Cristo  (Europa Filmes/Divulgação ) 
Fabrício Boliveira interpreta o destemido João de Santo Cristo
Marcos Paulo (D): último papel (Hugo Santarem/Divulgação ) 
Marcos Paulo (D): último papel


Após enfrentar uma briga judicial no início do projeto — apesar da aprovação da família de Renato Russo, a editora Tapajós, detentora de direitos autorais da Legião, tentou impedir a adaptação cinematográfica; pedido negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ) —, em novembro de 2006, René Sampaio e Paulo Lins (autor do clássico livro Cidade de Deus) estiveram juntos em Brasília pela primeira vez, fazendo pesquisa de campo para o longa-metragem. Na época, a dupla conversou com traficantes, prostitutas e roqueiros, além de recolher muito documento para o primeiro tratamento do roteiro.

A saga de Santo Cristo, no entanto, começou a ser filmada somente em 2011. Quase todas as locações ocorreram no Distrito Federal. Serviram de cenário a Universidade de Brasília (UnB), o Parque da Cidade, a Esplanada dos Ministérios, a Praça dos Três Poderes, o Lago Paranoá e algumas superquadras. Como na música, em Faroeste caboclo, o filme, o interesse pela maconha leva Maria Lúcia a conhecer os inimigos Jeremias e Santo Cristo. Os traficantes se encontraram pela primeira vez em um casarão do Lago Sul. O primeiro é marcado pelas roupas de couro e um bigodão ao estilo mexicano, típico dos faroestes norte-americanos.

Para manter o clima de bangue-bangue, o diretor René Sampaio escolheu as ruas empoeiradas do Jardim ABC para rodar as cenas de Ceilândia do fim dos anos 1970. A comunidade do Entorno recebeu uma cidade cenográfica e a equipe de Faroeste por quatro semanas. Em uma rua do Jardim ABC, bairro pobre, empoeirado e violento da Cidade Ocidental (GO), os produtores ergueram casinhas e bares de madeira.

Tendo Ísis Valverde no papel de Maria Lúcia, Faroeste caboclo foi o último trabalho como ator de Marcos Paulo, morto em novembro. Ele viveu um político conservador e influente, o senador Ney, pai de Maria Lúcia. O personagem não aprova a relação da filha com Santo Cristo. Marcos Bernstein e Victor Atherino assinam o roteiro inspirado na música escrita em 1979. A primeira versão teve consultoria de Bráulio Mantovani, Cristiano Bortoni, José Eduardo Belmonte e Michel Melamed. Philippe Seabra, líder da banda brasiliense Plebe Rude, é o autor da trilha sonora de Faroeste caboclo.

Orçado em R$ 6 milhões, o filme tinha estreia prevista para outubro de 2011, depois adiada para o início de 2012. No entanto, os produtores esbarraram na falta de dinheiro para concluir o longa-metragem, que agora, finalmente, estreia em todo o país, com expectativa de grande público.

» Continuação da entrevista com René Sampaio


O que de Renato Russo você vê em João do Santo Cristo? 

Como disse, não conheci o Renato Russo. O que posso fazer é um paralelo sobre o legado do artista e o mito do herói dessa música. O João de Santo Cristo certamente tem tanta força como personagem quanto Renato Russo demonstrou ter com sua obra.

Faroeste Caboclo é o retrato de uma Brasília oitentista, como você já disse outras vezes. O que você acha que mudou de lá para cá?
O céu permanece o mesmo, mas quase todo o resto mudou um pouco. Fisicamente, conseguimos preservar parte significativa do nosso patrimônio arquitetônico e cultural. Há sempre interesses políticos e empresariais que tentam adaptar o projeto original aos seus anseios mais imediatistas. Nossa sociedade precisa ficar atenta a isso para não perdermos a essência sem ficarmos parados no tempo. Socialmente, lidamos com questões de miséria e violência que continuam atuais. Acho que o Brasil mudou muito, mas o fosso que separa os ricos e os remediados dos miseráveis ainda é muito grande. Em Brasília, ainda hoje, viver no Entorno é um estigma. São pessoas cercadas de problemas, violência e, principalmente, vítimas da falta de visão dos governos que deveriam assegurar as condições mínimas para essas pessoas se desenvolverem. Por outro lado, Brasília, apesar disso tudo, continua com uma qualidade de vida boa se comparada ao resto do Brasil. Também acho que ainda somos multiculturais, com gente indo e vindo de todo o país pra morar aqui. Mas já é possível perceber uma identidade brasiliense que vem das primeiras gerações que cresceram ou se criaram na cidade da qual eu tenho o orgulho de fazer parte.

Quase todos os dias o duelo de Santo Cristo e Jeremias se repete na perifeira do DF. Em que o seu filme pode levar as pessoas a uma reflexão sobre a violência urbana?
Todo mundo sabe que os bandidos de Brasília não estão só na periferia. A maior questão levantada sobre o filme, é essa. Temos um bandido pobre e outro que é rico. Não quisemos fazer nada panfletário. As questões do filme continuam atuais.

Qual é o legado de Renato Russo para Brasília?
Ele e tantos outros artistas de Brasília fazem uma reflexão humanista sobre quem mora na cidade. Acho que isso é parte da criação de uma identidade cultural própria que nós, brasilienses, estamos colocando para fora, já que o resto do país só fala da cidade no noticiário político, e, em geral, negativo.

E o que tem do olhar de René Sampaio sobre a sua terra natal?
Acho que dirigir um filme é buscar um olhar. E fica difícil definir isso já que é uma busca muito pessoal. Mas acredito que procuro as histórias genuinamente nossas.

Você viu Somos tão jovens? Qual a impressão e as similaridades e diferenças com Faroeste caboclo?
Não vi e por isso não tenho como dar opinião.

A Universidade de Brasília (UnB), nos primeiros anos, contou com cineastas célebres em seu elenco de professores.
Recentemente, lançou para o mercado brasileiro o diretor José Eduardo Belmonte. Você tem acompanhado a produção dos alunos da Faculdade de Comunicação? Algo em especial chama sua atenção?

Vejo que o Belmonte acaba de rodar um grande filme, sobre a retomada do Morro do Alemão. Mauro Giuntini está produzindo seu segundo longa, uma deliciosa comédia que tem um roteiro bem interessante. Temos também o Denilson Félix, à frente de um excelente documentário que, em breve, estará nos cinemas. O Iberê Carvalho é outro que também passou pelos bancos da UnB e está produzindo um longa que se passa no Cine Drive-in. Além dos diretores, há diversos fotógrafos que trabalham Brasil afora como André Benigno, André Luis da Cunha e André Carvalheira, entre tantos outros profissionais em diferentes áreas do cinema que, se fosse citar aqui, ocupariam todo espaço para essa entrevista. Esses são apenas alguns dos meus colegas que estão produzindo filmes e outros trabalhos muito interessantes. Acho que a linguagem de cada um é muito particular, mas são todos saídos de um mesmo caldeirão: a UnB.

Está em cartaz na cidade um filme de Karim Aïnouz inspirado na canção Olhos nos olhos, de Chico Buarque. Recentemente, vimos o Menino da porteira. Contudo, no Brasil, este nicho não é necessariamente uma tendência. Quais são as dificuldades extra-cinematográficas para se realizar empreitadas deste tipo (liberação da música, gravadora, família…)? Como aconteceu no seu caso?
Além de diretor, sou também coprodutor do filme. Por isso acompanhei de perto todas as negociações. O primeiro passo pra quem quer adaptar uma obra oriunda de uma música é contactar o autor ou o seu representante. Ele é quem detém o poder de autorizar a adaptação da sua obra para outro formato. Depois que ele autorizar, você terá que negociar com a editora e a gravadora os direitos sobre a composição musical e sobre o fonograma. São três as autorizações mais importantes: o autor autoriza transformar sua letra numa história; a editora, os direitos de usar a partitura e letra, regravando a música ou tocando-a no filme; a gravadora, o fonograma original ou a gravação que queira usar no seu filme. Se você resolver regravar a canção, e não usar um fonograma deles, não precisa dessa liberação. No Faroeste, negociamos direto com a família do Renato, depois com a editora e por fim compramos o fonograma da gravadora para termos todos os direitos liberados. Quer saber como a música vai entrar no filme? Tem que ir ao cinema pra ver.


»Tragédia brasileira
Escrita por Renato Russo em 1979, Faroeste caboclo conta as desventuras de João de Santo Cristo, o “bandido destemido e temido no Distrito Federal”. A narrativa vai desde o nascimento numa fazenda no interior da Bahia à sua morte, num duelo com o traficante Jeremias, em Ceilândia. A letra virou febre nacional após ser gravada e lançada pela Legião Urbana em 1987 no disco Que país é este?, o terceiro da banda. A música tem 1.239 palavras, 159 versos e 9 minutos e 3 segundos de duração.

R$ 6 milhões
Custo da produção do filme

» FICHA TÉCNICA

Faroeste caboclo
Brasil, 105 min
Direção: René Sampaio

Roteiro: Marcos Bernstein e Victor Atherino, inspirado na música de Renato Russo
Elenco: Fabrício Boliveira, Isis Valverde, Felipe Abib, Antonio Calloni, César Trancoso, Marcos Paulo, Flávio Bauraqui, Lica Oliveira , Cinara Leal, Juliana Lohmann , Rodrigo Pandolfo, Leonardo Rosa, Tulio Starling, Romulo Augusto, Andrade Junior, Caco Monteiro , entre outros.
Produção executiva: Bianca de Felippes e Marcello Ludwig Maia
Produção: Gávea Filmes, Fogo Cerrado, República Pureza
Produção Associada: Fulano Filmes
Coprodução: Globo Filmes e Telecine

Os protagonistas

João de Santo Cristo

No cinema, o soteropolitano Fabrício Boliveira participou de 400 contra 1 e Tropa de elite 2. Na tevê, protagoniza a minissérie Subúrbia, da Globo.

Jeremias
Felipe Abib, jovem ator de teatro, interpreta o “traficante de renome” inimigo de Santo Cristo. Ele atuou em 180º, longa-metragem de Eduardo Vaisma.

Maria Lúcia
Ísis Valverde, a piriguete-maria-chuteira Suellen da novela Avenida Brasil, interpreta a “menina linda” por quem Santo Cristo se apaixona.

Pablo

Na fita, “o peruano que vivia na Bolívia e muitas coisas trazia de lá” é interpretado pelo uruguaio César Troncoso, o protagonista Beto, de O banheiro do papa.

Senador Ney
O personagem, pai de Maria Lúcia — ele não está na canção-título —, é interpretado pelo global Marcos Paulo, que após uma longa temporada voltou a trabalhar como ator. Ele morreu em novembro do ano passado.

Marco Aurélio
Outro personagem criado para o filme. Vivido por Antonio Calloni, trata-se do líder de um grupo de policiais corruptos que dão proteção ao traficante Jeremias.

 (Ivaldo Cavalcante/Divulgação ) 

» Morte precoce

Registrado como Renato Manfredini Júnior e nascido em 27 de março de 1960, o cantor e compositor adotou o nome artístico Renato Russo quando morava em Brasília e ainda iniciava a carreira. Primeiro, ele integrou o Aborto Elétrico, que, após o fim, deu origem à Legião Urbana e ao Capital Inicial. Renato morreu devido às complicações causadas pela Aids, aos 36 anos, em 11 de outubro de 1996.
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