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postado em 28/08/2013 16:49 / atualizado em 28/08/2013 18:48

Paul j.richards/AFP
George Raveling, 76 anos, nunca mais se esqueceu daquele 28 de agosto de 1963. Aos 26 anos, trabalhava como segurança voluntário da Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade e permaneceu ao lado do palanque, no Lincoln Memorial, onde escutou com atenção o pronunciamento de Martin Luther King Jr. “Depois do discurso do doutor King, caminhei até ele e lhe perguntei: ‘Dr. King, eu posso ter uma cópia?’. E ele me deu o original, que estava no palanque. Foi uma conversa muito curta, porque a multidão o ovacionava. Ninguém sabia que o discurso teria tamanha importância histórica”, afirmou ao Correio, em entrevista por telefone, de Portland. As três páginas datilografadas foram emolduradas e estão guardadas como um tesouro. Diretor internacional de basquete da Nike, Raveling recorda que um trecho do discurso atraiu sua atenção. “Era uma passagem que dizia respeito ao sonho que o doutor King tinha sobre uma nova América, sob uma perspectiva racial. Acho que ainda estamos a um longo caminho de sua realização”, opinou. “Fizemos avanços, mas também demos gigantescos passos para trás. Temos uma superpopulação de negros pobres, e o sistema educacional ainda é segregacionista.”

Quando volta meio século no tempo, Cleveland Sellers, ex-diretor do programa do Comitê Não Violento de Coordenação Estudantil (SNCC, pela sigla em inglês), é tomado pela nostalgia. “O doutor King foi um companheiro, um colega e um amigo. Caminhamos por muitas estradas empoeiradas e por montanhas vermelhas do Mississippi e do Alabama, lutando pela justiça e pelo direito ao voto para os afro-americanos e os pobres”, conta à reportagem, por e-mail. “Ele era presidente da Conferência de Liderança Cristã do Sul (SCLC) e eu atuava na SNCC, a ala juvenil do Movimento dos Direitos Civis da década de 1960. Em várias ocasiões, as duas organizações trabalharam juntas em Albany (Geórgia), em Selma (Arkansas), em Memphis (Tennessee) e em Jackson (Missouri). O doutor King era um conselheiro pessoal, que me apoiou quando fui um crítico da Guerra do Vietnã. Passávamos horas discutindo táticas e estratégias para o movimento, além de desenhar modelos que pudessem ser usados por outros grupos marginalizados”, acrescenta.

Sellers estava no Lincoln Memorial naquele dia e revela que algumas imagens o marcaram. “As 4 mil crianças, entre 5 e 6 anos, que tiveram de suportar os cães policiais e os jatos d’água de mangueiras de bombeiros e que passaram o tempo em celas imundas de Birmingham (Alabama), fizeram um sacrifício tremendo para ir a Washington e gritar ‘Nós queremos nossa liberdade e a queremos agora’”, relata. “Eu gostaria de imaginar que o discurso tenha levado a questão racial a um nível mais alto.”

Esforços

Um trecho tem forte conteúdo simbólico para Sellers: “Nós viemos também para este lugar sagrado para lembrar a América da clara urgência do agora. Não é hora de se dar ao luxo de procrastinar ou de tomar o remédio tranquilizante do gradualismo”. Na opinião dele, a declaração de King simboliza os esforços dos jovens, em curso naquele momento, na luta pela liberdade, pela justiça e pela igualdade dos afro-americanos em todo o Sul. “A Marcha sobre Washington foi por trabalhos e por liberdade, o que incluía o direito ao voto, a salários decentes, a oportunidades de educação, a um bom atendimento médico, sem as consequências da segregação e da discriminação na América. “Ela tentou fazer com que os EUA estivessem à altura de seus ideais”, conclui.

Membro fundador do SNCC e um dos organizadores da Marcha, Courtland Cox imaginava que King faria um bom discurso, em sintonia com os sentimentos das mais de 250 mil pessoas presentes no ato. No entanto, ele admite ao Correio que subestimou a importância do pronunciamento, “que resistiu ao teste do tempo”. “Se estivesse vivo, o doutor King veria muitas das barreiras para o tratamento igualitário serem eliminadas. Mas ficaria bastante desanimado ao perceber que as condições econômicas da maior parte dos afro-americanos ainda são sombrias”, comenta Cox, que teve a oportunidade de conversar com King por várias vezes. “Como jovens sulistas, que enfrentavam a possibilidade da morte a cada dia, nós nos organizamos contra os terrores do Sul segregacionista.”

Também pioneiro do movimento de direitos civis, Julian Bond foi aluno de King no Morehouse College, em Atlanta (Geórgia). “No discurso, ele deu à América branca as razões fundamentais para a existência do movimento de direitos civis. Por que nós marchávamos, por que estávamos descontentes com a segregação e por que desejávamos mudanças. Eu creio que muitos brancos jamais haviam escutado um argumento como aquele”, afirmou ao Correio, por e-mail.

Depois do discurso do doutor King, caminhei até ele e lhe perguntei: Doutor King, posso ter uma cópia?’. E ele me deu”
George Raveling, ex-segurança voluntário da Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade

Eu acho
“Para mim, a parte mais importante do discurso foi quando Martin Luther King Jr. fez a declaração: ‘Eu tenho um sonho profundamente enraizado no Sonho Americano’. Essa fala fez com que os EUA sentissem que a luta afro-americana para derrubar barreiras e igualar direitos foi parte da promessa da Declaração da Independência de 1776 e da Constituição americana. Essa assertiva de King moldou a batalha dos direitos humanos e civis nas décadas de 1950 e 1960, em termos políticos e econômicos, os quais a América não poderia negar.”

» Courtland Cox, um dos organizadores da Marcha sobre Washington pelo Comitê Não Violento de Coordenação Estudantil (SNCC)

Perfil
Neto e filho de pastores da Igreja Batista Ebenezer, em Atlanta (Geórgia), Martin Luther King Jr. nasceu em 15 de janeiro de 1929, na mesma cidade. Durante a infância, frequentou escolas públicas segregadas. Formou-se em sociologia em 1948, pelo Morehouse College, instituição para afro-americanos, e prosseguiu os estudos no Seminário Teológico Crozer, na Pensilvânia. O casamento com Coretta Scott lhe deu quatro filhos. King começou a se engajar na luta pelos direitos civis no início da década de 1950, como membro do Comitê Executivo da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP). Em dezembro de 1955, aceitou a liderança da primeira manifestação antirracial não violenta dos EUA — um boicote aos ônibus de Montgomery, no Alabama, em resposta ao preconceito sofrido por Rosa Parks, afro-americana coagida a ceder seu assento a um branco. Em 1957, King foi eleito presidente da Conferência de Liderança Cristão do Sul, organização pioneira no movimento dos direitos civis. Em 1964, ganhou o Prêmio Nobel da Paz, quatro anos antes de ser assassinado em Memphis, no Tennessee.
 
 
 
 
 

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