SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Vinicius foi padrinho do casamento de Gisele Santoro com Oscar Castro Neves

Antes de Claudio Santoro, a bailarina e pianista Gisele Santoro foi casada com o arranjador e precursor da bossa nova, falecido na última sexta-feira

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 04/10/2013 18:06 / atualizado em 09/10/2013 18:44

Diego Ponce de Leon - Enviado especial

arquivo pessoal

Por crônicas do destino, Brasília reúne boas histórias sobre o Vinicius de Moraes. Para a inauguração da capital, como se sabe, foi encomendada uma composição em parceria com Tom Jobim. Assim nasceu Brasília — Sinfonia da Alvorada, que, embora não seja um dos maiores êxitos da dupla, acabou acolhida pela cidade. De qualquer forma, foi por conta da tal sinfonia que os parceiros chegaram a Brasília em um fusca. E, por aqui, compuseram Água de beber, essa sim, um hino.

Contando com todo esse enredo candango, a imagem de Vinicius acabaria atrelada a Brasília, mesmo que indiretamente. Para tal, teve a ajuda do maestro Claudio Santoro, que dá nome ao Teatro Nacional. Santoro e Vinicius são parceiros em 13 composições e prelúdios, conhecidos como “canções de amor”. A colaboração é fruto do período que ambos, coincidentemente, passaram em Paris, em 1957. A capital francesa, musa romântica desde sempre, foi o pano de fundo da valiosa contribuição.

Curiosamente, a obra foi gravada na íntegra apenas em 1980, por um músico erudito alemão. Um registro sob medida, e sob as orientações de Santoro (que faleceu antes de conferir o resultado), veio somente depois, com os vocais das meninas do Quarteto em Cy e com os arranjos de Oscar Castro Neves, um dos precursores da bossa nova. E, se o tema é curiosidade, Neves foi o primeiro marido de Gisele Santoro, viúva de Claudio. E, se ainda não fosse o bastante, Vinicius, ex-parceiro de Santoro, foi o padrinho do casamento, ao lado da então companheira Lucinha Proença. Nem Jean Paul Sartre explica. E olha que ele teve a chance, como verificaremos.

arquivo pessoal

Assim, um dos capítulos fundamentais desse ménage musical é o depoimento da própria Gisele. Embora carioca, a bailarina clássica se estabeleceu em Brasília desde a união com Santoro, em 1963, de quem se tornou viúva em 1989. Foi em Brasília (e no exílio) que Gisele criou os filhos, ampliou o trabalho e acompanhou o célebre marido.

Poucos sabem, porém, da jornada que antecede Brasília. A juventude carioca de Gisele rendeu aventuras bossanovistas no sentido mais literal possível. Muito antes de se apaixonar pelo maestro Santoro — que já havia composto as tais 13 canções com Vinicius —, Gisele viveu um longo amor de verão ao lado de Oscar Castro Neves, que, no alto dos 21 anos (Gisele é um ano mais velha), mal sabia que se tornaria um dos colaboradores do movimento que elevou Vinicius de Moraes e Tom Jobim ao posto de patrimônios mundiais. Naquele tempo, eles só queriam fazer música, aproveitar a vida e ampliar as experiências. E o fizeram, integralmente.

Garota de Copacabana

“Tudo acontecia em Copacabana e Ipanema. Estávamos sempre em um apartamento de alguém. Todos se frequentavam”, conta Gisele, que conheceu o primeiro marido, Oscar, por meio de amigos em comum, entre eles Nara Leão, Tom Jobim, o próprio Santoro e Vinicius de Moraes.

“O namoro com Oscar era coisa de jovem, uma forte paixão. Foi muito intenso”, revelou. O ditado que prega que “paixão dura pouco” reflete o enredo de Gisele e Oscar, que permaneceram juntos por apenas um ano. Ainda assim, tempo mais do que necessário para colecionarem histórias com enredo de crônica.

“Certo dia, Vinicius nos liga e nos convoca para seu apartamento: ‘Casinho (como se referia a Neves) e Gisele, deem um pulo aqui! ’ Como de praxe, logo fomos”. O casal imaginou que fosse encontrar as companhias musicais de sempre. Tiveram uma surpresa. “Estava Vinicius, na companhia de Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Fiquei fascinada. Era uma oportunidade maravilhosa para uma garota jovem como eu. A conversa foi deliciosa”, lembrou Gisele. Tudo corria bem, até o poeta resolver fazer um inusitado pedido às 3h da manhã: “Vatapá! No meio da madrugada. Foi a primeira vez que comi, inclusive”. O resultado, pelo menos para Gisele, não foi nada bom: “Tive uma disenteria tremenda. Terminei a noite passando mal”, contou Gisele, aos risos.

Convivência

O cardápio de Vinicius não era nada leve. Em outra ocasião, o compositor optou por feijoada. Mas o motivo era ótimo e Gisele, dessa vez, não teve maiores incômodos colaterais. “Ele tinha acabado de compor Samba em prelúdio, com Baden Powell. Pediu para o Oscar fazer o arranjo. Quando chegamos lá, acabei gravando uma das vozes, ao lado de Cyro Monteiro. Foi a primeira gravação da canção”, relatou Gisele, que sempre saía desses encontros e corria para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, onde era bailarina. “Uma das vezes, quem me levou foi Vinicius, nada sóbrio. E ele não gostou nem um pouco da minha cara de apavorada no carro”, divertiu-se Gisele. “Chegamos bem, isso que importou. Vinicius era uma figura divertidíssima, além de genial.”

A convivência com o poeta foi mais frequente enquanto permaneceu casada com Oscar. “Quando conheci Santoro, logo nos envolvemos emocionalmente e as coisas mudaram de rumo”. Nada que tenha atrapalhado a amizade com o primeiro companheiro. Pelo contrário.
Tina Coelho ESP/CB/D.A Press

“Oscar é uma das pessoas mais incríveis que conheci. Competente e dedicado. Tenho enorme carinho por ele. O próprio Santoro o admirava. Tanto que o convidou para o arranjo das ‘13canções de amor’, gravada pelo Quarteto em Cy. Oscar acabou levando a carreira para os Estados Unidos, onde ficou. Nosso contato diminuiu, mas sempre nos falamos com carinho e respeito. O período ao lado dele foi muito importante. Guardo belas memórias daqueles dias”, comentou Gisele, emocionada, enquanto folheava o álbum de casamento.

Gisele recebeu o Correio na última quinta-feira (27), pela manhã. Durante a tarde, a cantora Cynara, integrante do Quarteto em Cy, alertou a reportagem sobre o estado de saúde de Oscar Castro Neves. “O irmão dele informou que as coisas não andam bem. Ele está próximo ao fim”, lamentou. No dia seguinte, algumas horas depois da conversa com Gisele, Oscar Castro Neves faleceu em Los Angeles, vítima de um câncer, aos 73 anos.

Tags:

publicidade