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Correio Braziliense

Vinicius Moraes e Tom Jobim criaram juntos poema sinfônico sobre Brasília

Eles foram convidados pelo presidente Juscelino Kubitschek

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postado em 04/10/2013 18:36 / atualizado em 09/10/2013 18:46

Diego Ponce de Leon - Enviado especial

Paulo H Carvalho/CB/REPRODUÇAO/D.A Press
Em setembro de 1960, Vinicius de Moraes e Tom Jobim protagonizaram uma aventura. Deixaram para trás o Rio de Janeiro e os bares de Copacabana, como o Au Bon Gourmet e Sacha’s, que costumavam frequentar, e, a bordo de um Fusquinha do compositor, enfrentaram uma exaustiva viagem até a futura nova capital. Aqui, tiveram como anfitrião ninguém menos que o presidente Juscelino Kubitschek, hospedeiro dos dois no Catetinho.

Vinicius e Tom vieram para cá cumprir uma missão recebida de JK, a criação de Brasília — Sinfonia da Alvorada. Durante 10 dias, entre um uisquinho e outro, empenharam-se na construção do poema sinfônico, mas fizeram mais: compuseram Água de beber, que viria a se tornar um clássico da bossa nova. A primeira audição da música foi no piano-bar do Brasília Palace Hotel.

Quem se recorda dessa história é o engenheiro Kleber Farias Pinto, que a relatou para o Correio, em reportagem publicada em 13 de novembro de 2005. Pioneiro e responsável pela implantação do revolucionário sistema de iluminação pública da cidade, ele conhecera Vinicius anos antes, no hotel Pouso do Chico Rei, em Ouro Preto (MG). Ao reencontrá-lo, ao lado de Tom, no Brasília Palace, perguntou: “Que diabo vocês estão fazendo aqui?”. O poeta respondeu: “O Juscelino nos encomendou uma sinfonia para Brasília e estamos lá no Catetinho, trabalhando”.

Naquela mesma noite, Kleber, na companhia de Ari Cunha, colunista e vice-presidente institucional do Correio Braziliense, ouviu acordes da sinfonia e também, em primeira audição, um samba feito por Vinicius e Tom, no dia anterior, ao qual foi dado o título de Água de beber. O primeiro verso diz: “Água de beber/ Água de beber camará”. O Poetinha revelou, ainda, como ele e o parceiro tiveram a inspiração para criar a música.
“Vinicius contou que, na noite anterior, depois do jantar, ele e Tom saíram para caminhar em torno do Catetinho e o barulho de uma queda d’água lhes chamou a atenção. Ao procurarem saber de onde vinha o barulho, tiveram a resposta de um vigia: ‘Isso é água de beber, camará’. Em seguida os levou até uma fonte de água límpida próxima ao palácio de madeira. A fonte, hoje, deságua no Country Club, onde os sócios e convidados se deliciam com o banho de bica”. Lembrava Kleber.
Coleção
O engenheiro voltou à história na semana passada e afirmou que Água de beber faz parte de sua memória afetiva. “Tenho a Sinfonia da Alvorada gravada num LP, mas ela não pegou, não fez sucesso, talvez pelo seu caráter sofisticado. Por outro lado, Água de beber, de beleza singela, caiu no gosto das pessoas e virou um clássico. Isso, graças às muitas gravações que recebeu, inclusive na voz de Frank Sinatra, um dos maiores cantores de todos os tempos, que sob o título Drinking water, está registrada no álbum Sinatra — Jobim, de 1979, parte da minha coleção de discos”, conta Kleber.

Sinfonia da Alvorada foi encomendada em fevereiro de 1958, mas o trabalho da dupla teve de ser adiado por causa dos protestos contra a construção da capital, originados principalmente da oposição ao governo, liderada por Carlos Lacerda. Brasília, porém, foi inaugurada sem a sinfonia, que só veio a ser gravada em novembro de 1960, no estúdio da Columbia, no Rio de Janeiro, por uma orquestra sob a regência de Tom Jobim. Vinicius recitou o poema e houve a participação do coro Dante Martinez, regido por Roberto de Regina, do grupo vocal Os Cariocas, da cantora Elizeth Cardoso e do pianista Radamés Gnattali. A capa do disco foi criada por Oscar Niemeyer.

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