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Sétima mulher de Vinicius de Moraes lança livro sobre a vida do compositor

Aos 74 anos, a atriz Gessy Gesse conversou com o Correio sobre os detalhes do livro e o relacionamento com o poeta

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postado em 04/10/2013 18:58 / atualizado em 09/10/2013 18:46

google.com.br/reproduçao
Quando criaram os afrossambas, em meados dos anos 1960, Vinicius de Moraes e Baden Powell mergulharam em um universo rodeado de candomblé e capoeira. O poeta, que se dizia o “branco mais preto do Brasil”, apesar de ter na árvore genealógica antepassados suecos e alemães, trazia no sangue, também, um bocado de azeite de dendê: o avô materno, um doceiro, era baiano de Feira de Santana. Tal herança foi aflorada quando Vinicius se apaixonou pela atriz do cinema novo Gessy Gesse, com quem foi casado por sete anos, a partir de 1969, e que o carregou para um refúgio construído às margens da Praia de Itapuã, em Salvador.

Hoje, aos 74 anos, a “baianíssima” Gessy, sétima mulher de Vinicius, prepara os últimos detalhes do livro que escreveu sobre a vida ao lado do Poetinha, com previsão de lançamento para o próximo dia 20, um dia depois do centenário de Vinicius. De seu apartamento no bairro de Pituba, em Salvador, Gessy conversou com o Correio. Simpática e faladeira, mostrou-se, por vezes, armada, como se tivesse que se defender a cada resposta. É que nem tudo foram flores no casamento com o poeta. Ela teve que lidar com diversos comentários preconceituosos e acusações de amigos e familiares do artista e agora quer dar sua versão sobre os fatos.

Descendente de indígenas, três filhos do casamento anterior a Vinicius e cinco netos, Gessy era amiga de Maria Bethânia quando o poeta a conheceu e se apaixonou por ela, em uma pizzaria no Rio de Janeiro de 1969. A jovem tinha 30 anos, e ele já passara dos 55. Ficaram juntos até 1976. “A verdade é que a gente se casou desde a hora que se viu, meu filho”, conta. “E continuamos casados, queiram ou não. Foi o grande amor da minha vida, como eu fui o da dele.” A cerimônia de matrimônio, em 1973, fugiu do convencional. “Foi um casamento cigano. Disseram que era candomblé, mas não procuraram saber. Cortamos os pulsos e cruzamos nossos sangues.”

De tão baiana, Gessy mantinha no apartamento do Rio, na Gávea, um copo com areia da praia de Itapuã. Ela havia largado a carreira para cuidar dos trabalhos do marido, viajando com ele para baixo e para cima e ajudando na produção dos shows. Foram para a Bahia, onde, em 1974, inauguraram uma casa de dois andares feita sob medida para o casal, em Itapuã. “Mandamos construir uma banheira para ele ficar deitado vendo o mar da janela, como se estivesse dentro de um transatlântico”, detalha a mulher.

Fora do Itamaraty desde 1969, exonerado do cargo de diplomata, Vinicius agora tinha um jipe e vestia-se de forma despojada. Conservou-se notívago. Acordava por volta das 17h e gostava de frequentar um barzinho que ficava atrás da casa. No lar, costumava andar descalço e criava bichos. “Ele foi o que queria nessa época, teve liberdade”, diz Gessy. Vinicius e sua turma continuavam a percorrer o mundo, mas conservava seu refúgio baiano. “Fui pra casa dele com minha então esposa, Kate, que era uma protestante norte-americana, e o Vinicius a batizou no mar de Itapuã”, conta o parceiro Carlos Lyra.

Quando o poeta exagerava na bebida, Gessy fechava a cara. Era nessas ocasiões que a mulher o chamava de “Vinicius”, em vez do usual e carinhoso “filhinho”. Mas o poeta, sedutor que só, contava com várias artimanhas para reverter o jogo. “Às vezes, ele corria para o meu armário, pegava minhas calcinhas e blusas e escrevia poema nelas”, relembra. “Cada uma que eu pegava tinha uma coisa escrita. Ah, se todos os homens fossem iguais a ele…”
Papos de anjo

Romântico, Vinicius gostava de cozinhar para Gessy e de comer doces e comida baiana escondido, já que era diabético. De vez em quando, enchia de guloseimas o paletó de camurça preto. Quando a mulher as encontrava, ele abria um sorriso deslavado e dizia que tinha trazido para ela. Pura balela. Gessy conta que o marido tinha muito medo de envelhecer e morrer, e um dia prometeu que, caso ela se fosse antes dele, se entupiria de papos de anjo e entraria na água quente da banheira para que um coma diabético o levasse suavemente.

São da fase baiana várias das parcerias com o amigo Toquinho, que passou longas temporadas com o casal na residência soteropolitana. “Era uma casa sempre cheia de amigos, portas abertas o dia todo, comida na mesa de manhã até a noite. Uma festa constante. Nossas primeiras canções nasceram nesse ambiente tipicamente baiano, descontraído e mágico”, conta o instrumentista ao Correio. “Gessy tornou Vinicius muito mais solto”, opina.
arquivo fundação casa de jorge amado/zelia gata/divulgação

Tarde em Itapuã, cuja letra Vinicius pretendia dar para Dorival Caymmi musicar, foi roubada por Toquinho da máquina de escrever do poeta. Ele a levou para São Paulo e retornou a Salvador com a melodia pronta. “Não mudei uma vírgula. Foi com essa que ganhei a confiança de Vinicius”, relembra o coautor. A tonga da mironga do kabuletê surgiu a partir de um xingamento em nagô que Gessy ouviu e contou aos dois. A esposa de Vinicius foi presenteada com Morena flor e Samba de Gesse. Arretada, ela garante, às gargalhadas, que a coisa mais interessante que Vinicius fez na Bahia foi amá-la.

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