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Guerreira

Pesquisadora brasileira encarou americanos, caçadores e a burocracia para manter a memória do país na Serra da Capivara

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postado em 07/10/2013 14:33 / atualizado em 07/10/2013 15:58

Vanessa Aquino , José Carlos Vieira

A arqueóloga brasileira mais respeitada no exterior, Niède Guidon, 80 anos, é guardiã do Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado no sudeste do estado do Piauí. Ela tem que lidar com ameaças de morte, invasões de caçadores, falta de recursos para o andamendo das pesquisas e manutenção do sítio arqueológico. Nascida em Jaú (SP), estudou em escola pública e encontrou na arqueologia o espaço para a curiosidade e a investigação, que sempre a acompanharam. Conseguiu bolsa da Embaixada da França para estudar Arqueologia na Universidade de Sorbonne, em Paris, onde fez carreira como professora universitária. Aprofundou-se em pesquisas sobre a pré-história do Brasil com descobertas revolucionárias a respeito da chegada do homem à América. Em Brasília, para abertura do evento Serra da Capivara: os brasileiros com mais de 50 mil anos, que engloba exposição e ciclo de conferências, Guidon falou ao Correio sobre a preservação da arte rupestre, arrependimentos, medos e dificuldades para o desenvolvimento do turismo na região.

Trabalho no Brasil
Começamos a pesquisa há 40 anos. Eu morava na França e vim ao Brasil em missão financiada pela governo francês. Todos os anos, eu voltava com meus alunos para fazer pesquisas aqui. Depois, a partir dos anos 1990, nós tivemos o apoio do CNPq e de universidades brasileiras, que participam das pesquisas até hoje. Desde 1978, os professores brasileiros tinham o apoio do CNPq, da Finep… Nunca houve um problema para a questão das pesquisas. No começo, era difícil porque era uma região distante sem infraestrutura, pobre, típica do Nordeste. Nos primeiros anos, tinha o problema de infraestrutura, mas as pessoas que tinham roça lá sempre nos ajudavam dando água, comida… Sempre houve colaboração da população rural.

O parque
Foi criado o Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, e, depois foi declarado Patrimônio Cultural da Humanidade. Na realidade, o governo brasileiro é responsável pela preservação disso: a parte da natureza pelo Ministério do Meio Ambiente, e parte da cultura pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O problema é a questão do financiamento, porque o ministério não tem recurso e o Iphan também não. Os guardas não são suficientes e são terceirizados. Agora, teve um corte muito grande dos recursos. Parece que os contratos dos guardas florestais não serão renovados… Não sei como ficará a proteção da área. Temos o suficiente para chegar até o fim do ano, mas, depois, eu não sei como vai ser, o que vamos fazer. Estávamos investindo na autossustentabilidade com o turismo. Nós compramos os terrenos mais bonitos para construir hotéis, buscar parcerias e obter recursos. Mas, infelizmente, o aeroporto até hoje não saiu. Já tivemos gerentes e diretores de grandes empresas hoteleiras, que foram lá, querem construir hotéis de cinco ou seis estrelas, porque todos os patrimônios da humanidade têm hotéis dessa classe para receber os turistas. Mas esses investidores condicionam as obras hoteleiras à construção do aeroporto. Estamos esperando desde 1998.

Ação de caçadores
Quem deve prender os caçadores é o governo federal, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Mas o que acontece: prende e o vereador manda soltar. A polícia obedece aos vereadores. O político não está interessado que a lei seja cumprida. Ele quer voto. Então, se ele solta o caçador, a família toda vai votar nele. É muito difícil porque a lei, na realidade, não é aplicada. A lei depende da vontade do político.

Ameaças de morte
Agora, eles desistiram das ameaças porque eu disse que tinha um dinheiro guardado e que, se eu morresse, tinha a lista das pessoas e que um amigo meu mandaria um pessoal da Rocinha, do Rio de Janeiro, ir lá e acabar com a família inteira. Aí eles desistiram. Ainda mostrei o extrato bancário.

Preservação da arte rupestre

A preservação das pinturas rupestres depende essencialmente da manutenção das condições naturais. Eles pintavam em lugares protegidos, onde não levava muito sol e chuva, mas a rocha às vezes se fragmenta, solta pedaços. Ou então, soltava um pedaço da rocha e a água começava a entrar em cima das pinturas, nós fazíamos uma estrutura para levar a água para outro lado. O cupim faz a casa dele em cima das pinturas e a gente limpa. É uma série de atividades necessárias para preservar, mas há três anos a gente não consegue realizar um bom trabalho por falta de recurso. É muito difícil.

O homem na América

As nossas pesquisas indicam que ele chegou pela desembocadura do Rio Parnaíba, no norte do Piauí, vindo da África. O que ocorreu é que na África, por volta de 130 mil anos atrás, houve uma seca muito grande e eles saíam para o mar procurando comida. Acontece que a corrente dos ventos vem da África do norte direto para o norte do Piauí e para a região de Fortaleza. Nós temos na Serra da Capivara essas datações antigas. Na Serra das Confusões, mais próximo do Rio São Francisco, as datações mais antigas que nós temos estão na base de 14 mil anos. E as pinturas também são diferentes. Tem coisas perecidas, mas o fundo é diferente. Aterramentos diferentes que encontramos indicariam que a Serra das Confusões teria sido povoada por outro grupo que veio também da África, porque têm correntes marítimas que levam até o São Francisco. Existem escavações que foram feitas por Maria Beltrão, do Rio de Janeiro, onde ela diz ter encontrado datações muito antigas na Bahia. E em Minas Gerais tem uma quantidade muito grande de pinturas. Então, existem essas duas entradas que teriam sido feitas mais ou menos na mesma época.

Reconhecimento

Na Europa, nunca houve nenhum problema. Para começar, era uma missão francesa na Serra da Capivara. Mas houve o movimento de alguns arqueólogos americanos que não consideravam nossas pesquisas, porque eles tinham uma teoria que data dos anos 1950, que diz que o homem teria vindo da Ásia para a América do Norte através do Estreito de Bering, e depois ele teria povoado a América do Sul. Mas o homem é um animal de clima quente. O homem não passaria pela América do Norte, por essas regiões, durante a última glaciação. Só poderia fazer depois de 10 mil anos, por aí. Acontece que na arqueologia tudo o que nós procuramos está enterrado. Então, o número de pesquisas nos Estados Unidos aqui no Brasil era praticamente inexistente nos anos 1950. Não se conhecia nada e fizeram uma teoria baseada nos achados que eles tinham feito lá.

Documentação
Atualmente, nós temos 940 sítios catalogados pelo Iphan. Nós entregamos todos os dados para o Iphan, porque é um patrimônio brasileiro e da humanidade. Inicialmente, copiávamos sobre plástico e fotografávamos as pinturas. Hoje, com o avanço da tecnologia, nossa especialista em pinturas rupestres é a Anne-Marie Pessis, professora da Universidade Federal de Pernambuco, mas trabalha na pesquisa desde 1989. Ela comprou um equipamento para fazer o escaneamento com raios laser. E estamos obtendo informações fantásticas, porque com a máquina ela pode ver, inclusive, se foi pintado uma vez, duas vezes, como foi pintado, se teve uma pintura e depois outra por cima. Haverá uma publicação muito interessante sobre isso. A ideia é que todos os sítios sejam documentados dessa maneira, daí a informação vai ficar completa.

A memória do Brasil
Eu acho que, infelizmente, os governantes ainda não entenderam que o turismo é uma grande fonte de recursos. O Brasil está atrás de muitos pequenos países. A Unesco tem o controle dos visitantes dos patrimônios da humanidade e o mínimo que um patrimônio da humanidade recebe por ano no mundo inteiro é 5 milhões de pessoas. Nós recebemos 20 mil. Porque não tem como chegar e não tem hotéis bons. Esse desenvolvimento turístico na região seria uma maneira de acabar com a pobreza do Piauí inteiro. Mas eles não pensam nisso. Eu tenho a impressão de que o que o político brasileiro faz é dar uma ajudazinha para o pobre não morrer de fome e para votar nele. O político não quer transformar aquele pobre numa pessoa culta, de classe média. Não quer porque o ignorante é fácil enganar. A pessoa que tem cultura é mais difícil. Infelizmente, é a escolha que foi feita.

Garantias para o futuro
O Iphan não tem dinheiro e o ICMBIO não tem dinheiro e, então, eu não sei. O problema é esse…

Alerta ao governo
Eu penso que não é possível que o Brasil perca mais. O país já perdeu muitas coisas. E a Serra da Capivara é um patrimônio único, uma coisa fantástica e tem um potencial muito grande. Se o parque estivesse na França, nos já teríamos no mínimo 30 milhões de visitantes. Mas aqui no Brasil é difícil fazer com que o governo entenda isso, principalmente no Nordeste.

Arrependimentos
Às vezes, eu não sei se tanto trabalho deu certo. Os políticos brasileiros não se interessam que o país tenha realmente uma estrutura. É tudo faz de conta. Então, é muito difícil trabalhar, porque a gente depende da infraestrutura do país, e a infraestrutura no Nordeste é zero.
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