SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Herdeiros de Vinicius revelam o ambiente familiar em torno do poeta

Em entrevista ao Correio, a filha Georgiana comentou que em determinado período tornou-se difícil conceber o fato de que era filha de Vinicius de Moraes

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 08/10/2013 19:26 / atualizado em 09/10/2013 18:47

Diego Ponce de Leon - Enviado especial

Acervo VM cultura
Foi ele mesmo quem disse: “Filhos... Filhos? / Melhor não tê-los!”. Vinicius teve cinco. E, no decorrer desse Poema enjoadinho, ele lista os argumentos para os versos pessimistas: “Chupam gilete / Bebem xampu / Ateiam fogo no quarteirão”. Ainda assim, ele acaba se rendendo. “Que coisa linda que os filhos são”, decreta no fim, sob ares mais positivos.

A filha Georgiana sabe bem que o lado rabugento era muito mais fruto de um personagem do que reflexo do próprio Vinicius. “Nunca existiu isso”, diz, logo de cara ao Correio. As alegações de que fora um pai ausente são refutadas em seguida. “Quando ele se separou da minha mãe (Lila), eu tinha apenas 5 anos. Mas sempre recebeu a mim e a minha irmã. Na casa que construiu com a nova mulher (Lucinha), tinha quarto para mim e para (a irmã) Luciana. Convivíamos muito e ele fazia questão que fosse assim”, comenta.

As oportunidades para estreitar as relações foram devidamente aproveitadas por Georgiana, que acabou se tornando percussionista. “A primeira vez que toquei com ele foi em Punta del Este, na época que ele morava na Argentina. Foi um mês inteiro, com convivência diária”, lembra. Depois da experiência, que se mostrou frutífera, Georgiana excursionou com o pai pela Europa e encarou uma temporada no saudoso Canecão, a mais badalada casa de shows carioca.

“Nunca quis me livrar da posição, mas nem sempre lidei bem. Em determinado período, tornou-se especialmente difícil conceber o fato de ser filha de Vinicius de Moraes. Não queria estar nesse lugar”, admite Georgiana, ao ser questionada sobre o peso da relação. “Foram 23 anos de análise para que eu pudesse encontrar quem eu era”, revela. Período que ela considera crucial para que, hoje, possa encarar o tema com tranquilidade: “Atualmente, olho para meu pai com gratidão e não o confundo mais com a minha própria jornada”.


O mergulho na psicologia foi tão intenso que a levou concluir estudos na área. Há 10 anos, Georgiana atende como psicanalista. Nas horas vagas, dedica-se à percussão, que ainda a mantém ocupada. “O lado musical veio de Vinicius. E acho que em toda casa seja assim. Os pais, de alguma maneira, influenciam na escolha dos filhos”, diz.
Seria especialmente difícil para Georgiana não sucumbir à música. Além do pai, a artista é sobrinha de Ronaldo Bôscoli e sobrinha-tataraneta de Chiquinha Gonzaga. “Uma família artística, de boêmios”, define.

Personalidade


A vida inquieta e inconstante de Vinicius, regada a boemia, nunca incomodou Georgiana, que chegou a acompanhá-lo em diversas viagens. O gosto pela bebida também não surpreendia a filha. “Vinicius era um cara muito solícito. Tinha uma vontade muito grande de se aproximar e, talvez, o uísque facilitasse isso. Ele sempre preferiu a informalidade no tratamento”, diz Georgiana. Além da malemolência propiciada pelo destilado, a filha acredita que o hábito “era um pouco do personagem que ele criou para si”.

Na companhia do pai, a percussionista viveu animadas noites e recorda com carinho de uma passagem pela Europa. “Eu tinha muito mais ressaca. Ele era ‘profissa’”, brinca. A temporada europeia rendeu uma lembrança especial: “Um show no Olympia, de Paris, com Baden Powell. A procura foi tamanha que tivemos que repetir, na noite seguinte. Aquilo foi memorável”.

O filho talentoso e arredio

Pedro de Moraes é o filho homem de Vinicius (com Tati), e o segundo a nascer, dois anos após Susana, a primeira das quatro filhas. Embora lide com a arte, Pedro não seguiu pelo caminho da música. Foi o próprio pai que selou a trajetória ao presenteá-lo com uma câmera Leica, aos 12 anos. O mundo da fotografia o engoliu. Para alguns, literalmente.
Munido com uma máquina fotográfica desde a adolescência, Pedro moldou o olhar com a experiência. As fotos que retratam o cotidiano do Rio e da boemia carioca se tornaram referência. Foi, porém, fotografando o pai que se consagrou. As fotos intimistas, carregadas de expressão, de Vinicius e seus amigos, preenchem um legado visual único.

Conhecido pela personalidade arredia e pelo desconforto em lidar com a imprensa, foi necessário uma longa conversa para o Correio convencê-lo a falar do pai. E ele só o aceitou se pudesse responder cada pergunta ao seu modo: de forma curtíssima, alternando entre ironias e brincadeiras. Nada de fotos. Características de um artista, cujo trabalho transcende a relação familiar. Para alguns, recluso. Para outros, irreverente. Como o pai, um gênio. Poeta das imagens.

Entrevista // Pedro de Moraes

O que daria de presente ao seu pai no aniversário de 100 anos?
Uma garrafa de uísque do bom.

Sob qual aspecto, ele mais lhe faz falta?
Como forma de testar meu “mancômetro”.

Alguma memória mais latente?
Meu pai na cama, morto e sereno, até que se abre a porta!!!!

Há algum traço da personalidade de seu pai que compartilha?
As mulheres, as mulheres, as mulheres.

Como se dá o convívio entre os irmãos?
Oscilante.

Como era o trabalho com Vinicius?
Com amizade sincera e autocrítica.

A sua fotografia é sempre pautada por influência dele?
Fomos e somos humanistas.

Ser filho de Vinicius ajudou na carreira?
Sim.

As fotos ajudam a contar o legado de seu pai?
Certamente.

Qual foto gostaria de ter feito dele?
Do Pixinguinha o abraçando no céu. 
Tags:

publicidade