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Esposa argentina de Vinicius revela existência de peça não finalizada

Casada com o poeta entre 1975 e 1978, Marta Santamaria mostrou ao Correio trechos da obra, mas não permitiu a divulgação

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postado em 08/10/2013 19:41 / atualizado em 09/10/2013 18:50

Arquivo pessoal/Marta santamaria
Os versos de Se todos fossem iguais inebriavam a estudante de direito argentina Marta Rodriguez Santamaria. Como seria, afinal, o tal homem capaz de escrever aquelas palavras? A jovem, então com 22 anos em 1975, acabaria por conhecer, e muito bem, o autor, Vinicius de Moraes, que compusera a faixa com Tom Jobim, em meados dos anos 1950, para a peça de teatro Orfeu da Conceição. A versão que Martita conhecia, contudo, trazia, além do poeta, Toquinho e Maria Creuza, e havia sido gravada em 1970 na casa de shows La Fusa, em Buenos Aires, transformando-se em um álbum muito apreciado pelos hermanos.

Naquele 1975, Marta e Vinicius, 61 anos, se esbarraram em Punta del Este, no Uruguai e, pouco tempo depois, engataram uma história de amor que durou os três anos seguintes, entre as viagens internacionais do poeta e o repouso da casa na Gávea, no Rio, de cujo pátio a moça observava encantada o Cristo Redentor. Entre 1976 e 1977, pulando de uma cidade para outra — Buenos Aires, Guadalajara, Salvador…—, o casal escreveu, em espanhol, o primeiro ato de um espetáculo teatral chamado pelo poeta de La plaza (“A praça”, em português). A segunda parte ficou inacabada após o fim do relacionamento, e Marta guardou em sigilo o rebento da união.

“Imagina o que é, para mim, a responsabilidade de ter comigo esse material”, disse uma emocionada Marta ao Correio, de Buenos Aires, por telefone, no bom português de quem aprendeu a língua a pedido do companheiro ilustre. Aos 61 anos, e se preparando para as homenagens pelo centenário de Vinicius, a advogada quer resgatar a história. Avisou à família sobre a existência das 30 páginas de texto, entregou uma cópia a uma das filhas do Poetinha e agora pretende finalizar o segundo ato a fim de que a obra possa ser encenada. “Fui muito bem recebida pelas filhas dele”, avisou, alegre.
Arquivo pessoal/Marta santamaria

Vinicius teve a ideia de escrever a peça após a esposa lhe contar uma passagem ocorrida na faculdade. La plaza, segundo a coautora, tem inspiração também no filme Os boas-vidas (I vitelloni, 1953), de Federico Fellini, sobre um grupo de jovens à-toa na vida. Na do casal, os personagens principais, dois desocupados, fazem uma aposta para ver quem ganha dinheiro mais rápido.

“Na cabeça de Vinicius, os detalhes da segunda parte não estavam fechados. Acho que deve dar uma hora de encenação”, diz ela. O texto foi batido em uma máquina Olivetti que o poeta carregava consigo. “Ele tinha uma linda letra, mas, em geral, não gostava de escrever à mão”, relembra a antiga companheira. O Correio teve acesso a trechos da obra, mas não obteve autorização da família para divulgá-los.

Divorciada de um segundo casamento, com um médico portenho, Marta tem um filho de 19 anos. Em parceria com a artista plástica Renata Schussheim, a advogada está erguendo uma mostra fotográfica com material inédito colhido por ela durante o casamento com o Poetinha. A exposição Vinicius…Saravá! tomará o Centro Cultural Recoleta, em Buenos Aires, a partir de novembro deste ano, até fevereiro de 2014. Algumas das fotos raras estão nesta página.

Memórias guardadas
Arquivo pessoal/Marta santamaria

A estudante Martita, com aspirações à poesia, trabalhava como secretária no Ministério da Economia da Argentina e, com seu primeiro salário, cruzou o Rio da Prata para se encontrar com amigas no Uruguai. Em Punta del Este, em pleno verão, soube que o tal Vinicius de Moraes, aquele do disco na La Fusa, fazia algumas apresentações ao lado da cantora Joyce. Ouviu dizer, também, que, após as apresentações, o poeta e sua trupe iam ao restaurante El Mejillon para jantar.

Na primeira noite, Marta e uma amiga esperaram à toa. Na segunda, o homem estava lá. Vinicius teria se encantado por Martita e pediu que ela ficasse no balneário uruguaio para assistir ao show pelo menos uma vez. Ela perdeu o voo de volta e ficou. Viu o ídolo de novo no palco em Montevidéu, desta vez com Toquinho, e o Poetinha acabou dando pistas de seu interesse pela moça.

O próximo destino foi Buenos Aires. “Ele era muito querido por lá, onde, várias vezes, aconteceu de o público não querer deixar as casas de shows após as apresentações”, relembra. No fim daquele 1975, Martita viajou com Vinicius para uma turnê europeia, já no posto de namorada. Nos anos seguintes, assistiu a todos os concertos do companheiro. À exceção de um, em Paris, quando ficou no camarim batendo papo com Baden Powell e acabou recebendo um recital exclusivo do violonista. A mãe dela não aceitava muito bem a relação com o poeta, cerca de 40 anos mais velho. Em 1978, ela resolveu voltar para Buenos Aires e retomar os estudos.
Arquivo pessoal/Marta santamaria

Eu era muito jovem, não tinha a estrutura que deveria ter para viver uma relação assim. Não era suficientemente madura”, conta. “Ao mesmo tempo, fui muito feliz com ele. Vinicius era uma pessoa maravilhosa, com uma sensibilidade que nunca vi igual. Tudo o que eu disser vai ser pouco.” Ao falar do antigo amor, algumas vezes, não consegue conter as lágrimas. Talvez pela proximidade do centenário e o retorno às memórias guardadas. Quando o poeta morreu, Martita ficou vários anos sem poder ouvir sua canções. Agora, parafraseando o nome dado por Maria Bethânia a um disco em homenagem a ele, solta um inconteste e suspiroso “que falta você me faz”.

Ouça Soneto de Marta

Depoimento


“A Argentina e o Uruguai transformaram-se numa extensão de nossa casa. Íamos constantemente a Buenos Aires, Mar del Plata, Montevidéu, Punta del Este, sempre recebidos com muito carinho e fazendo sucesso por lá. Numa longa temporada em Mar del Plata. chegamos a produzir grande parte do repertório de nosso segundo disco. Só saíamos para fazer os shows, à noite. Ficávamos curtindo as canções novas o dia todo, trabalhando com entusiasmo cada vez maior. Foi um tempo de grande produtividade.”
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