Cozinheira de Vinicius conta detalhes sobre a convivência com o patrão

A baiana Maria Dolores Scher, apelidada de Minha Dô, preparava os doces para o compositor com adoçante

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 09/10/2013 15:19 / atualizado em 09/10/2013 15:25

Arquivo pessoal/Gessy Gesse
Amante da culinária de seu estado de origem, a baiana Gessy Gesse acabou recrutando uma cozinheira conterrânea para o apartamento carioca que dividia com o companheiro Vinicius de Moraes, na virada dos anos 1960 para 1970. O Poetinha, diabético, tinha outra pessoa que lhe preparava as refeições. Mas, de vez em quando, acabava se rendendo às iguarias de Maria Dolores Scher, a quem chamava de “Minha Dô”. Quando o casal se mudou para a Bahia, Dolores foi junto, e atuou como governanta deles. Primeiro, na casa que alugaram. Posteriormente, na residência construída na Praia de Itapuã.

Nascida em Cruz das Almas (BA), e hoje moradora de Feira de Santana, no mesmo estado, Dolores tem 84 anos e está aposentada. Em Itapuã, tornou-se integralmente responsável pelo cardápio do Poetinha, e recorda-se dos pratos preferidos dele. “Era um picadinho de carne com purê de abóbora”, conta. Os doces, adorados por Vinicius, eram cuidadosamente preparados com adoçante, como os de banana e de milho. “Ele dizia que eu fazia tantas coisas gostosas para ele que nem parecia que ele era diabético.”

Dolores guarda em seu baú um cartão enviado pelo poeta em uma das idas ao exterior. Segundo ela, as viagens eram constantes, e a casa baiana servia como um refúgio. Às vezes, acomodado em sua enorme banheira com vista para o mar, chamava a criada para lhe acompanhar em rodadas de uísque. Ela não bebia, apenas o assistia, sentada num banquinho. Dolores conta que o patrão também adorava ler e passava horas escrevendo.

“A relação não era de chefe, ele me tratava como amiga”, observa. “Seu Vinicius adorava usar as palavras no diminutivo. Dizia que ia me dar meu ‘dinheirinho’, nos dias de pagamento, e pedia a ‘merendinha’ quando estava com fome.” Dolores continuou a trabalhar com Gessy mesmo após a separação. “Ela é apaixonada até hoje ‘com’ Seu Vinicius”, conta Gessy.
Arquivo pessoal

Antes de lançar o livro Minha vida com o poeta (Editora Solisluna), Gessy Gesse cedeu com exclusividade ao Correio algumas imagens e itens raros de seu acervo pessoal. Além dos reproduzidos na capa desta edição, é possível ver nesta página o convite feito por ela e Vinicius para que os amigos fossem inaugurar a casa construída na Praia de Itapuã, em 1974. A residência, com projeto de Jamison Pedra e Sílvio Robatto, está, hoje em dia, incorporada a um hotel da região. A passagem do Poetinha pela capital baiana está imortalizada também em uma praça que leva seu nome no bairro de Itapuã, onde uma estátua do artista repousa, serena, mirando o mar.
Tags: