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Última esposa de Vinicius conta sobre os derradeiros anos da vida do poeta

Em entrevista ao Correio, Gilda Mattoso apresentou manuscrito de versos escritos para ela

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postado em 09/10/2013 15:40 / atualizado em 09/10/2013 15:50

Gilda Mattoso/Arquivo pessoal
Vinicius e Toquinho se apresentam na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ). O ano é 1972. Portando um livro de poesias e ávida por um autógrafo, a estudante de letras Gilda de Queirós Mattoso consegue adentrar o camarim do ídolo e pegar sua assinatura. “Minhas amigas tinham fotos dos Beatles. Eu, do Vinicius”, conta ela. Durante aquela década, até 1978, Gilda manteria em fogo baixo uma paixão platônica pelo poeta, até se encontrarem em Paris e tornarem-se marido e mulher.

Vinicius de Moraes apresentava Gilda, quase quatro décadas mais moça que ele, como sua última esposa. “Vocês conhecem minha viúva?”, dizia aos amigos. Ela, claro, detestava, mas acabou se tornando realmente o derradeiro amor do poeta. “Vinicius teve várias mulheres, mas só uma viúva”, observa a hoje conhecida assessora de imprensa, 61 anos, moradora do bairro do Humaitá, no Rio. O Poetinha partiu em 9 de julho de 1980.

Gilda, nos dois anos de casamento, divididos entre Paris e a capital fluminense, pegou uma fase complicada do poeta, quando a diabetes se agravara e roubava seus últimos suspiros. Mesmo assim, ao lado do parceiro Toquinho, o compositor conseguiu implementar uma turnê e um LP comemorativos e realizar uma grande viagem de carro pela Europa com o novo amor. “Saímos de Paris e fomos até Roma, parando onde dava vontade. Eu queria que ele conhecesse a Grécia também. Como um poeta ainda não tinha estado lá?”, recorda-se Gilda.

Viagens e música eram pura alegria para o Poetinha. Cuidar da saúde, nem tanto. “Ele não obedecia muito, não. Achava a vida muito chata sem poder comer aquilo, beber aquilo. Passou do uísque para o vinho branco, por exemplo, por sugestão do médico. Mas era meio que a contragosto. Não dava a mínima para a dieta alimentar”, conta.

Escrito à mão

Um dia, Gilda chegou em casa e se deparou com um fato tipicamente viniciano, com ares que oscilavam entre o trágico e o cômico. “Ele estava andando em uma bicicleta ergométrica, fazendo exercícios de fisioterapia, e chorando. Perguntei o porquê e ele: ‘Tô aqui nessa bicicleta burra, que não sai do lugar’.” Depois, contou à mulher que estava traindo um pacto feito com o amigo Antônio Maria (o compositor, a quem ele chamava de “Meu Maria”), morto havia vários anos, de que jamais em suas vidas eles fariam um movimento inútil. “Ele usou isso de desculpa pra não fazer os exercícios.”
Gilda Mattoso/Arquivo pessoal

Na noite em que morreu, Vinicius jantou seguindo a cartilha da dieta. Mas acabou burlando o regime. Toquinho estava hospedado com o casal e, quando ele chegou à residência da Gávea, o poeta e o comparsa mandaram uma pratada de macarronada na cozinha. Foi Toquinho quem musicou o poema Gilda, feito por Vinicius para a esposa e entregue a ela em seu aniversário de 1979. A viúva enviou ao Correio uma cópia dos versos escritos à mão pelo poeta, além de algumas fotos pouco conhecidas do casal. “Foi uma das últimas composições dele”, destaca.

Operário da paixão
Conheça as nove esposas de Vinicius de Moraes, com informações do livro O poeta da paixão, de José Castello, e do filme Vinicius, de Miguel Faria Jr.

» Beatriz Azevedo de Mello
Conhecida como Tati, a musa do Soneto de fidelidade (e também da personagem Narizinho, de Monteiro Lobato) casou-se com o poeta por procuração, enquanto ele estudava literatura na Inglaterra. Tiveram dois filhos (Susana e Pedro) nos 11 anos em que estiveram juntos. Ela morreu em 1995, aos 84 anos.

» Regina Pederneiras

Ainda casado com Tati, Vinicius envolveu-se com Regina, arquivista do Itamaraty, entre 1945 e 1946. Acabou se casando com ela no religioso, mas a esposa oficial perdoou a traição, e Vinicius voltou para Beatriz.

» Lila Bôscoli
Bisneta da compositora Chiquinha Gonzaga, a moça de 19 anos foi apresentada ao poeta por Rubem Braga. Casaram-se em 1952, viveram juntos por sete anos e geraram Georgiana e Luciana.

» Maria Lúcia Proença
O relacionamento de cinco anos, iniciado em 1958, teria inspirado a crônica Para viver um grande amor. Lucinha, sobrinha de um amigo de Vinicius, que a conhecera ainda adolescente, pegou a fase bossa- nova do compositor. Ela era casada, e trouxe um filho pequeno da união anterior.

» Nelita de Abreu Rocha
A moça não tinha completado nem 20 anos quando se juntou ao poeta, em 1963. Mesmo com três décadas de diferença, o casamento durou cinco anos. Nelita mora no Rio e adotou o sobrenome do atual marido, o francês Gerard Leclery.

» Christina Gurjão
O relacionamento durou menos de um ano, mas gerou a filha caçula do poeta, Maria, e a clássica Pela luz dos olhos teus. Mesmo com a esposa grávida de cinco meses, ele acabou se envolvendo com Gessy.

» Gessy Gesse
A atriz baiana, casada com Vinicius entre 1969 e 1976, foi responsável por levá-lo para viver em Salvador, o que alterou tanto o estilo de vida do poeta quanto sua produção musical.

» Marta Rodriguez Santamaria
A argentina era 40 anos mais jovem que Vinicius. O relacionamento de três anos, iniciado em 1975, foi marcado pelas várias viagens do poeta com Toquinho pelo mundo.

» Gilda Mattoso

A viúva de Vinicius, 40 anos a menos que ele, foi apaixonada pelo poeta por quase uma década até engatar o relacionamento. Gilda o acompanhou nos dois últimos anos de vida.
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