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Neta de Vinicius de Moraes relembra infância ao lado do Poetinha

Filha de Pedro de Moraes e Vera Barreto, Mariana Moraes falou ao Correio sobre a convivência com os amigos do avô e sobre sua carreira como cantora

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postado em 09/10/2013 15:50 / atualizado em 09/10/2013 16:19

Diego Ponce de Leon - Enviado especial

Diego ponce de leon/CB/D.A Press
Rio de Janeiro

Filha de Pedro de Moraes e da atriz Vera Barreto, além de neta de Vinicius, Mariana de Moraes nasceu em berço artístico, e desse reduto nunca saiu. Embora seja atualmente conhecida como cantora, iniciou a carreira como atriz e conseguiu alguns papéis de destaque, como a protagonista de Fulaninha (1986), que a lançou nacionalmente.

“Gosto do que fiz como atriz. Adoro o cinema. E hei de fazer outras coisas. Mas desde os 3 anos quero cantar.” Nos últimos anos, Mariana tem se dedicado à música. Durante a entrevista que concedeu ao Correio, na casa do namorado no Rio de Janeiro, a cantora lembrou-se do tempo ao lado do “avô famoso”, que morreu quando ela tinha apenas 11 anos.

Deu tempo de conviver bem com o Vinicius?

Na infância, convivi com Vinicius e seus amigos. Também tive a chance, até pela minha mãe, de passar muito tempo com Luiz Melodia, Jards Macalé, Jorge Mautner, Luiz Eça. Tenho uma referência musical enorme.

Alguém em especial a marcou?
Convivi muito com a Gal quando era pequena, até eu ir morar em Paris. Eu cantava, ela adorava (risos). Era apaixonada por Gal. Cantava “Índia, seus cabelos nos ombros caídos”, com a roupa dela, imitando. Ia para casa dela, para os camarins. Tive uma professora espetacular de canto. Ainda hoje, ela sempre me trata com muito carinho.

Há uma cobrança para que se dedique à obra do seu avô?
Tenho a intenção de gravar um disco em homenagem ao Vinicius, finalmente. Agora que tenho uma carreira já reconhecida, posso fazer uma celebração mais franca, sem soar oportunista. Espero começar a gravá-lo, ainda este ano. Inclusive, se tudo der certo, quero convidar a Gal para participar. Em um dos projetos atuais, canto uma composição de Vinicius e Claudio Santoro. Queria combinar de a Gisele (Santoro, viúva do maestro) assistir. Seria um privilégio.

Não se sentia à vontade para fazê-lo antes?

No começo da carreira, minha tia (Susana) me aconselhou sabiamente: “Você tem um talento próprio, mas é difícil as pessoas te desassociarem da imagem do seu avô. Se eu fosse você, não gravaria nada do Vinicius, agora no início”, ela me disse. Achei correto e fui por aí. Mesmo assim, não consegui abrir mão da canção Medo de amar. Já no primeiro show — que era resultado de uma grande pesquisa sobre sambas antigos, da década de 1940 — tinha Medo de amar. Não conseguia, não cantá-la. Meu primeiro disco acabou sendo bem reconhecido pela crítica e pelo público, o que me deixou mais à vontade. Passei a ser vista como cantora. Logo, claro, começaram a chegar encomendas e convites para homenagear Vinicius, e passei a aceitar.    

Ele chegou a perceber a sua facilidade com a música?
Vinicius era uma espécie de hippie velho (risos). Ele foi hippie, antes dos hippies. A casa sempre repleta de amigos, com as portas abertas. Nessas horas, ele pegava o violão e eu acompanhava. Ele percebeu que eu era uma criança afinada. Ficou encantado com aquilo. “Minha netinha canta, que lindo”, dizia. Quando eu chegava, ele logo convocava: “Vamos tocar, Mariana!” Fui morar em Paris nessa época, já que minha mãe achava o Brasil muito pesado por conta da ditadura, mas acabou sendo uma boa coincidência, pois convivemos muito por lá também. Justamente quando Vinicius excursionava com Miúcha, Georgiana, Tom, Toquinho. Era uma turnê atrás da outra e sempre na Europa. Enquanto eu vivi em Paris, ele foi o familiar que mais vi. Fiquei sem ver meu pai por quatro anos, enquanto Vinicius me visitava quatro vezes por ano.

Alguma lembrança especial desse período?
Eu queria muito uma (câmera) Polaroid. Certo dia, Vinicius me perguntou se eu gostaria de algum presente. Logo disse: “Uma Polaroid! Uma Polaroid!”. Coisa de criança consumista… Pois ele me levou a máquina, e também um gravador, daqueles grandes, e pediu: “Trouxe o gravador para você cantar, se escutar, quem sabe você não anima de fazer uma música…”. Algo bem carinhoso dele. (pausa). Um ano depois, ele morreu.

Como reagiu?
Essa é a parte ruim de você ter um parente famoso, que acaba de morrer. Você liga a televisão, estão falando daquilo. Eu tentava ir ao cinema, para me distrair, e o noticiário (que antecedia aos filmes na época) falava daquilo. De uma certa forma, nunca mais pararam de falar disso.

Ser neta de Vinicius nunca significou um fardo?
Não vejo a vida assim. Há fardos muito mais pesados. As heranças e nossas famílias são onde experimentamos o peso e a alegria. Há quem tenha um pai difícil e uma mãe maravilhosa, ou vice-versa. Vinicius diz que “amigos a gente não faz, a gente encontra”. A família são as primeiras pessoas que a gente encontra, local onde nascemos. Então, temos que lidar da melhor maneira com isso. E Vinicius tem tantas qualidades! E sei que nem sempre é assim. Um artista maravilhoso nem sempre é uma pessoa incrível. Aquela dádiva para um país, não necessariamente é uma gracinha na vida pessoal. O Vinicius, não. Além do caráter intacto, era um amigo, um trabalhador incansável pela cultura brasileira, generoso, nada competitivo. Sempre dando força, para todos. Pensa em alguém que Vinicius não ajudou?! Gil, Bethânia, Amelinha… De todos os estilos. Quer dizer, não era um fardo. Era um orgulho!

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