Amigos e parceiros de Vinicius comentam sobre parceria com o compositor

Em entrevista, Toquinho, Miúcha, Quarteto em Cy e Carlos Lyra falaram sobre a composição de algumas canções e influencia do Poetinha na carreira

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postado em 09/10/2013 16:31 / atualizado em 09/10/2013 18:50

Diego Ponce de Leon

Marcos Vieira/EM/D.A Press
O compositor Vinicius de Moraes considerava o ato do encontro uma arte. Se, sozinho, ele deu luz a belíssimas canções, acompanhado, então, realizou verdadeiros milagres na música popular brasileira. Com Tom Jobim, por exemplo, pavimentou a bossa nova. Ao lado de Baden Powell, construiu os afrossambas. Das cerca de 400 canções em que seu nome consta no crédito, 120 foram feitas com Toquinho, o último grande parceiro — com quem, em 11 anos de união musical, lançou 25 discos e participou de mais de mil espetáculos. Edu Lobo, Carlos Lyra e Chico Buarque foram alguns dos jovens compositores que injetaram frescor à obra do poeta sempre carinhoso e fiel com seus parceiros. Apreciador da voz feminina, Vinicius foi responsável por ajudar a impulsionar a carreira de artistas como Marília Medalha, Quarteto em Cy, Maria Creuza, Joyce e Miúcha. Nesta página, alguns amigos relembram passagens marcantes com o Poetinha.

Como foi para um então jovem músico ser escalado para acompanhar Vinicius de Moraes?

Quando comecei a trabalhar com Vinicius, em junho de 1970, ele ainda evitava viajar de avião. Então fomos para a Argentina de navio. Eu sentia uma sensação estranha, não sabia direito o que é que eu ia fazer lá. De repente, estava a bordo de um navio junto com Vinicius de Moraes, um ser humano grandioso de quem eu só conhecia o que ele tinha escrito e cantado por aí. Sei que na primeira noite no navio eu passei muito mal, no meu quarto, enjoado, com tudo a balançar por todos os lados. E Vinicius sentado a uma escrivaninha, segurando o copo para que ele não caísse, conversando naturalmente, sem se alterar. Ficou lá ao meu lado, como um pai, ou melhor, como alguém com pretensões de fazer amigos. Nossa relação começou assim, e logo de cara eu passei a vê-lo um pouco como irmão, porque ele não sabia ser velho, o que na realidade ele não era.

Como dizia o poeta foi a primeira parceria entre vocês, certo? Como ela surgiu?
Foi na Argentina, em junho de 1970, onde trabalhamos juntos pela primeira vez. Havia deixado gravado com Vinicius um tema de Albinoni que transformei em samba. Depois, em setembro, na viagem de ônibus do Rio a Salvador, onde faríamos três shows no Teatro Castro Alves, Vinicius fez a letra da música. Cantamos nos shows e foi aquele sucesso.

É verdade que a letra de Regra três foi para você?
Era uma época em que eu namorava muito. Então, ele quis me alertar com essa letra. Algo como: cuidado que um dia a casa cai e você vai chorar.

Vinicius alcançou grande popularidade na época em que se tornou seu parceiro. É possível dizer o quanto um influenciou o outro?
Acho que foi um encontro que aconteceu no momento certo para os dois. Vinicius precisava de alguém disponível para trabalhar com ele, com vigor jovem e com talento musical à altura do poeta que ele era. E eu, em busca de um letrista que pudesse valorizar minhas melodias. Ele me emprestou a juventude da experiência; e eu o estimulei com a experiência da juventude. O resto, a amizade e o entrosamento artístico resolveram.

Lembra-se de algum caso engraçado envolvendo o poeta?

Na canção Cotidiano nº 2, Vinicius desenvolveu uma ideia linda, fantástica e terrível do cotidiano. Nos dois primeiros versos, cita (Pablo) Neruda, seu grande amigo: “Hay dias que no se lo que me pasa/ Abro meu Neruda e apago o sol”. Estávamos em Paris e Vinicius resolveu mostrar a Neruda a homenagem. Cantamos a música, ressaltamos o verso, Neruda não entendeu. Vinicius enfatizou: “Esse primeiro verso: ‘Hay dias que no sé lo que me pasa’. É verso de um poema seu...”. Neruda explicou: “É muito bonito, mas jamais escrevi essas palavras. Isso é um trecho da letra de um tango argentino...” Nesse instante, pude perceber uma indisfarçável decepção na cara de tacho de Vinicius.

Com quais esposas de Vinicius você conviveu? Como ajudava ele a fazer as canções para as musas?
Convivi com as três últimas mulheres de Vinicius: Gesse, Martinha e Gilda. Vinicius não precisava de muita ajuda para exaltar suas mulheres. Eu aproveitava essa inclinação apaixonada dele e musicava o que ele escrevia.

Você está preparando algo de especial para o centenário do poeta?
Nada de muito diferente do que venho fazendo há anos. Vinicius está sempre presente em meus shows, isso é inevitável e tenho o maior prazer em conservá-lo junto a mim nessas ocasiões e em muitas outras. Foi um amigo inesquecível e continua sendo um participante de minha vida artística.

» Você e eu
Vantoen Pereira Jjunior/DIVULGAÇAO

Carlos Lyra não tem ideia de quantas melodias de sua autoria Vinicius de Moraes letrou. Mas lembra-se, perfeitamente, de como procurou o poeta para que se tornassem colaboradores. “Eu já o conhecia da poesia e da peça Orfeu da Conceição, que eu tinha visto e gostado muito. Resolvi que tinha que tê-lo como parceiro e liguei pra casa dele”, conta o violonista. Vinicius o convidou para sua casa, mostrou-lhe um gravador e pediu para Lyra registrar as músicas nele.

Depois de uma semana, o poeta telefonou de volta, já o chamando de “parceirinho”. O violonista ficou surpreso: estava tudo pronto, e eram mais de 10 canções. Daquele encontro, surgiram logo alguns clássicos bossanovistas, como Você e eu e Coisa mais linda. “Vinicius era completamente espontâneo, sem máscaras, descontraído, não tinha pedantismo, e era um dos maiores poetas do Brasil”, elogia o amigo. Tom, para o poeta, era “Tonzinho”. Baden, virou “Badeco”. Lyra acabou sendo mesmo o “parceirinho”.

Na segunda vez que Carlinhos Lyra deixou as melodias para o Poetinha preencher com versos, a demora no retorno foi de duas semanas. Vinicius acabou percebendo, naquele conjunto, uma história. Nascia ali a comédia musical Pobre menina rica, encenada como pocket show por Lyra, Vinicius e Nara Leão, em 1963, e depois transformada em peça. Maria moita, Sabe você, Samba do carioca e Primavera são dessa leva.
Cynara Faria/Acervo Quarteto EM CY/DIVULGAÇÃO

Sabe-se lá o que seria das irmãs Cybele, Cylene, Cynara e Cyva se não fosse Vinicius de Moraes. Com o apoio do poeta, o quarteto acreditou e investiu na carreira. As cinco décadas em atividade tornou o Quarteto em Cy testemunha dos principais movimentos da música brasileira — os quais o grupo, inclusive, ajudou a pautar. Depois de batizar o quarteto vocal, a contribuição do Poetinha foi além. “Vinicius foi quem realmente nos incentivou na profissão, pois nos levou para todos os lugares onde ele se apresentava e nos mostrou a todos os compositores da época”, recorda a integrante Cynara Faria. “Foi durante a gravação da trilha de Sol sobre a lama, um filme de Alex Viany, com música de Pixinguinha e letras dele.”

Depois da fundação do grupo, a relação se tornou cada vez mais próxima. “Tivemos um contato de dia a dia quando fizemos o Circuito Universitário, pelo interior de São Paulo, nos anos 1970”. Conhecido pelo charme e pela conversa ao pé de ouvido com as mulheres, Vinicius manteve a linha com as meninas. “Ele sempre foi um amigo, quase um protetor, um cara de muito respeito”, garantiu Cynara, que fez logo questão de complementar, aos risos: “Sempre com muito bom humor, relatava suas peripécias”.

O carinho entre eles permaneceu até a morte do poeta, em 1980. Quando se viram pela última vez, Cynara fez um agrado ao amigo de longa data: “Levei um pacote de mangas, a fruta de que ele mais gostava, e ele riu com aquela lembrança.”

» Pelos olhos de Miúcha

BETI NIEMEYER/DIVULGAÇÃO

A cantora Miúcha construiu a carreira transitando entre o melhor de Chico Buarque, seu irmão, Tom Jobim e Vinicius de Moraes. O nome do primeiro disco com o qual colaborou, parece defini-la bem, inclusive. The best of two worlds (O melhor de dois mundos), de 1975, trazia o americano Stan Getz acompanhado do bossanovista João Gilberto, com quem Miúcha foi casada.

Uma audição mais atenta do álbum revela a voz marcante da cantora carioca, que ajudou a imortalizar alguns clássicos. O maior deles talvez seja Pela luz dos olhos teus, a célebre composição de Vinicius que se tornou famosa com as vozes de Tom e da própria Miúcha. O melhor de dois mundos.

As histórias com o poeta começaram cedo. “Era amigo de papai antes. Sempre estava lá em casa. Ensinou-me os primeiros acordes de violão”, contou. Sobre habilidades musicais do poeta, Miúcha aproveitou para fazer uma observação: “Vinicius encontrou parceiros tão geniais que ele esqueceu um pouco o lado músico, que era impressionante. Muitos, por exemplo, pensam que algumas canções foram musicadas pelo Tom, mas, na verdade, foi Vinicius”, pontuou. Aproveitando a proximidade do centenário, Miúcha deve retomar o show que homenageia o Poetinha, ao lado de Georgiana de Moraes, percussionista e filha do compositor: “Vou seguir celebrando-o pelo resto da vida, como sempre fiz.”

Garotos de Ipanema

A composição de Garota de Ipanema seria o bastante para garantir a presença de Tom e Vinicius entre os cânones da música mundial. Segundo a gravadora que detém os direitos, a canção é a segunda mais tocada da história. Ao todo, são cerca de 1,5 mil produtos com a música, além de, pelo menos, 500 gravações. Entre elas, os registros nas vozes de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan. Não satisfeitos, os dois ainda geraram Chega de saudade, Eu sei que vou te amar e A felicidade, entre tantas outras que fazem parte do imaginário popular.

 A dupla se conheceu em 1956, quando Vinicius convidou Tom para musicar a peça Orfeu da Conceição. Nascia ali uma das mais frutíferas parcerias da música mundial, que culminou na bossa nova e tudo o que se seguiu a ela. A tal onda que se ergueu no mar e que mantém-se nas alturas.  
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