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A dama dos contos

Aos 82 anos, a canadense Alice Munro recebe o reconhecimento da Real Academia de Ciências da Suécia na literatura. Hoje será anunciado o ganhador do prêmio da Paz. A adolescente paquistanesa Malala Yousafzai é considerada uma das favoritas

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postado em 11/10/2013 16:58 / atualizado em 11/10/2013 17:16

A dama dos contos
PETER MUHLY//AFP-25/06/09

Aos 82 anos, a canadense Alice Munro recebe o reconhecimento da Real Academia de Ciências da Suécia na literatura. Hoje
será anunciado o ganhador do prêmio da Paz. A adolescente paquistanesa Malala Yousafzai é considerada uma das favoritas


» Nahima Maciel
 
A escritora canadense Alice Munro nem sabia que estava na lista dos prováveis ganhadores do Nobel de Literatura até anteontem. Tampouco entendeu quando foi acordada pela filha, ontem pela manhã, com a notícia de que tinha conquistado o prêmio. Não se lembrava de que prêmio a filha falava. “Fiquei confusa. Até que recuperei meus sentidos”, contou, em entrevista de dois minutos e meio a uma rádio canadense.
Munro é reclusa e pouco aparece na mídia. Não costuma dar muitas entrevistas e foi surpreendida pelo telefonema da rádio. A escritora não imaginava que seria a 13ª mulher a ganhar o Nobel em um total de 110 prêmios concedidos. “Não pode ser possível. Sério? Isso me parece fabuloso. Estou muito feliz”, disse. “Talvez agora haja mais atenção para escritores canadenses como um todo.” Ela vai receber US$ 1,25 milhão da Real Academia de Ciências da Suécia pela obra e é a segunda canadense a ganhar o prêmio. O outro foi Saul Bellow, que nasceu no Canadá, mas mudou-se para os Estados Unidos ainda criança e é considerado norte-americano.
Segundo Peter Englund, um dos representantes da Academia Sueca, Alice Munro fez de sua região de origem — um pequenino vilarejo na província de Ontário — uma amostra do mundo. De lá, a escritora retira os tipos e paisagens que povoam seus contos. “Acho que ela tem tudo que precisa nesse pequeno lugar”, disse Englund. “Ela é muito boa em captar as diferentes impressões das pessoas, ninguém desconstrói melhor o mito do romance moderno. Ela mostra que as pessoas podem sentir coisas muito diferentes. É uma perfeita retratista do ser humano.” Englund lembrou ainda, em entrevista para o site da academia, que a escritora pode ser definida como uma retratista de “pequenas pessoas e grandes sentimentos”.
Alice Munro nasceu em julho de 1931 e começou a publicar contos em 1950, quando era estudante de jornalismo na Universidade Ocidental de Ontário. Para sobreviver, vendia o próprio sangue e colhia tabaco em plantações. Com o primeiro marido, Jim Munro, Alice abriu uma livraria que se tornou referência e é uma das maiores de Victoria, cidade no sudoeste do Canadá. Foi vendendo histórias que Munro se aproximou da literatura. O primeiro livro, Dance of the happy shades, foi publicado em 1968, cinco anos após a abertura da livraria.
 
Aposentadoria
 
Recentemente, antes de completar 82 anos e com 14 livros publicados, ela anunciou que vai se aposentar. “Me parece natural fazer o que pessoas de 81 anos fazem”, explicou. A escritora lembrou que, recentemente, Philip Roth fez a mesma opção. “E ele está tão bem!”, reparou. O último livro, Dear life: stories, acaba de ser publicado e reúne uma série de contos especialmente autobiográficos. No último, Dear life, Munro narra momentos da infância e adolescência em uma pequena cidade. Alguns dos contos do livro, Munro admitiu, são coletâneas de lembranças pessoais. “Eles são a primeira, a última e a mais próxima coisa que tenho a dizer sobre a minha própria vida”, revelou, durante o lançamento de Dear life, que será publicado no Brasil em novembro.
A escritora publicou o primeiro livro tardiamente, aos 37 anos. Desde então, tornou-se uma das mais prolíficas autoras do Canadá e escreveu com notável voracidade. Conhecida como a dama do conto, preferiu se concentrar nas histórias curtas. Seu único romance, The view from Castle Rock, é, na verdade, uma reunião de contos entrelaçados pelos mesmos personagens, mas com uma independência que deixa dúvida quanto ao gênero. Munro sempre foi muito conhecida no Canadá, onde seus livros costumam frequentar a lista dos mais vendidos, mas permanecia pouco lida fora do país até ganhar o Man Booker Prize, em 2009. A primeira tradução da autora no Brasil foi Fugitivia, publicado no Canadá em 2004 e aqui, em 2006, pela Companhia das Letras. Depois vieram Felicidade demais, em 2010, e O amor de uma boa mulher, que é de 1998 mas só chegou ao Brasil neste ano.
 
Repercussão
 
No Twitter, vários autores do mundo inteiro comemoraram a escolha da Academia Sueca. “Uma verdadeira mestre da forma”, disse Salman Rushdie. Margaret Atwood pediu que Munro parasse de se esconder e atendesse ao telefone.
Também canadense, Atwood é uma das maiores divulgadoras da obra da conterrânea. “Ela é o tipo de escritora sobre a qual se diz sempre — mesmo que ela seja bem conhecida — que deveria ser ainda mais conhecida”, escreveu. “Quando Munro estava crescendo, nos anos 1930 e 1940, a ideia de que uma pessoa do Canadá — e especialmente de uma pequena cidade do sudoeste de Ontário — que queria ser escritora fosse levada a sério era risível. Nos anos 1950 e 1960, havia pouquíssimos editores no Canadá.” O editor Alfred Knopft, que publica os livros da autora, reagiu: “Alice! Munro! Essas duas palavras são uma espécie de Santo Graal para mim.”


Nas livrarias brasileiras
» Fugitiva (2004)Companhia das Letras, 392 páginas; R$ 55,50
 

Lembranças e memórias movem as personagens, sempre mulheres, dos oito contos deste livro.
Como em boa parte das histórias de Munro, as paisagens canadenses, desoladas e isoladas, servem
de cenário para um desfilar de narrativas humanas e profundamente lúcidas.
 
» Felicidade demais (2009)Companhia das Letras, 344 páginas. R$ 49
 
 As mulheres são as protagonistas dos dez contos aqui reunidos. A primeira delas, Doree, é uma camareira
que opta pelo serviço porque, assim, não precisa conversar com ninguém. Mas como nos outros contos,
a vida da personagem vai sofrer um impacto que será responsável por uma mudança de rumos. O inesperado
e a reinvenção são características que Munro retoma em todas as histórias.
 
» O amor de uma boa mulher (1998) Companhia das Letras, 376 páginas. R$ 54,50
 

 É um mundo rural, povoado por personagens deslocados e mulheres cujos destinos nem sempre estão traçados com a precisão do roteiro destinado aos homens, que Alice Munro desenha nessa reunião de contos. O livro só chegou ao Brasil este ano, embora tenha vencido o National Books Critics Circle Awards em 1998, quando foi publicado nos EUA e no Canadá.
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