SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

A história andina recriada pela genética

Grupo internacional coordenado por brasileiros usa análises de DNA para estudar a identidade de populações indígenas da América do Sul, como os uros, habitantes do Peru e da Bolívia

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 15/10/2013 16:31 / atualizado em 15/10/2013 16:49

Arquivo pessoal/Divulgaçao

Fabricio Santos(E) com pesquisadores que integram o projeto

 

Belo Horizonte

Livros que contam a história do Brasil e de países da América do Sul podem mudar em breve seu conteúdo. Pesquisas sobre a ancestralidade dos povos indígenas que hoje habitam essas terras têm revelado, por meio de investigação genética, a misteriosa identidade dessas populações. Além dos índios brasileiros, o passado de povos do Peru e da Bolívia são objetos de estudo de um grupo de pesquisadores internacionais, coordenado pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O mais recente trabalho, com 388 indígenas peruanos e bolivianos, fez uma descoberta sobre os antepassados dos uros, etnia que habita os Andes e vive às margens de rios e do Lago Titicaca. As amostras do material genético, recolhidas da saliva dos indivíduos, indicam que eles têm ancestralidade bem diferente dos aimarás e quéchuas, etnias predominantes no altiplano andino.

Com o estudo, os pesquisadores puderam constatar que, diferentemente do que se defende por parte da população dos países andinos, a etnia dos uros do Titicaca não se extinguiu na década de 1950, quando os últimos falantes da língua original (a uruquilla) morreram. “Há quem diga que eles (os uros) são farsantes e que se apropriaram dos costumes dos ancestrais dessa etnia para lucrar com a venda de artesanato e com o turismo”, conta o professor de genética do Departamento de Biologia da UFMG, Fabrício Santos, coordenador da pesquisa.

Segundo ele, no entanto, as análises genéticas não corroboram esse argumento. Além disso, apesar da extinção da língua, as comunidades de uros mantêm hábitos de seus antepassados, como as danças, as casas flutuantes e as embarcações de totora, uma espécie de planta aquática usada tradicionalmente para a construção desses barcos. “Os uros peruanos podem ter perdido a língua, mas a identidade étnica está além disso e pode ser observada também na cultura e nos costumes desse povo”, destaca Santos.

Na Bolívia, os uros já são reconhecidos pelo governo daquele país, mas, no Peru, eles ainda lutam pelo reconhecimento legal, apesar de manterem costumes de mais de 3 mil anos, segundo o professor. Para ele, a pesquisa sobre ancestralidade, somada aos esforços de outros pesquisadores e antropólogos, é um avanço para que a etnia seja devidamente reconhecida. “Os uros que habitam essa região dos Andes têm ancestralidade muito diferente dos povos que originaram as comunidades quéchua e aimará, que também vivem na Bolívia e no Peru. Se reconhecidos, os uros poderão requerer direitos que hoje ainda não foram conquistados”, acrescenta Santos.

A pesquisa pode contribuir, segundo ele, para ganhos sociais e políticos. Ele ressalta, no entanto, que não existe nenhum benefício econômico direto, já que a história é patrimônio mundial declarado pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “Eles podem ter reconhecimento social e político e também uma maior valorização da sua cultura, incluindo ajuda no turismo étnico, algo que atrai inúmeros turistas para o Peru e a Bolívia, por exemplo.”

Nova ótica

Pela ótica da genética, é possível revelar dados da América do Sul muito anteriores à chegada dos europeus. “Os livros têm um viés muito grande pela colonização, há 500 anos. Contudo, esse processo, na verdade, pode ser anterior a 500 gerações, ou seja, cerca de 14 mil anos atrás”, diz o professor Fabrício Santos. Ele defende que a identidade dos povos indígenas passa por essa longa história. “Esse processo continua ainda hoje, com os descendentes que preservam parte de sua cultura, dos rituais, da religião, da língua e de outros costumes”, acrescenta.

Também participante da pesquisa e diretor do Centro de Genética e Biologia Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de San Martín Porres, no Peru, o professor Ricardo Fujita destaca a relevância do estudo para seu país. “A parte escrita da nossa história é curta, e o que está gravado no DNA ajuda a explorar essa enorme quantidade de tempo sem registro”, afirma. Satisfeito em ter sido convidado para integrar o projeto, ele diz que as análises dão ferramentas, métodos e, acima de tudo, oportunidade de conhecer a história dos países latino-americanos por meio de análises genéticas.

O estudo, cujos dados iniciais estão descritos no artigo The genetic history of indigenous populations of the peruvian and bolivian altiplano: The legacy of the uros, será finalizado em 2014. A partir daí, novas pesquisas arqueológicas, que usam o DNA como ferramenta, vão dar continuidade ao projeto financiado pela National Geographic e pela IBM. As pesquisas têm o objetivo de reconstruir a história do povoamento do planeta pela espécie humana por meio de análises genéticas. São 10 centros de pesquisa espalhados pelo mundo, sendo que um deles, o Centro de Pesquisa da América do Sul, está localizado na UFMG.

Os povos

Saiba mais sobre as
populações estudadas
no projeto

Uros
Vivem às margens dos lagos e rios do altiplano entre Peru e Bolívia, explorando recursos pesqueiros, ovos de aves e plantas coletadas na beira do lago, praticando também alguma atividade agrícola. No Peru, eles vivem nas ilhas flutuantes do Lago Titicaca e na Vila de Chulluni. Na Bolívia, há três comunidades principais: uru-chipaya, uru-poopóe uru-irohitos. A língua original (uruquilla) foi extinta em 1950 e, além do aimará, o castelhano é comum a todos. Há 2,6 mil uros na Bolívia (onde são chamados de uru) e 2 mil no Peru
 
Quéchuas

Designação aplicada aos povos indígenas da América do Sul que falam o quíchua, especialmente o quíchua meridional. São típicos agricultores e pastores. Distribuem-se pela região andina, especialmente no Peru,
na Bolívia, na Argentina
e no Chile
 
Aimarás
Povo que se estabeleceu no sul do Peru, na Bolívia, na Argentina e no Chile desde a era pré-colombiana. São típicos agricultores e pastores. Cultivam vários tubérculos e criam lhamas e alpacas

Três
perguntas para

Eduardo Natalino dos Santos, professor do Departamento de História da Universidade de São
Paulo (USP)
 
Qual é a importância da  pesquisa da história genética
das populações indígenas da América Latina?

A pesquisa tem muita relevância, principalmente porque diz respeito ao povoamento do continente americano, que foi o último a ser ocupado no planeta, à exceção da Antártida. Esse processo é relativamente recente em relação aos do Velho Mundo, da Ásia e da África. Por isso, a pesquisa pode ajudar a entender a procedência das populações, a diversidade de grupos humanos que aí estão e, de forma geral, pode contar as primeiras páginas da história do continente americano.
 
É possível que os resultados dessa pesquisa possam
interferir na história já conhecida sobre os países sul-americanos?

As várias ciências que estudam o passado — arqueologia, paleontologia e a história, por exemplo — nos ajudam a entender algumas coisas, como a procedência dos povos, as migrações e as filiações, principalmente para se conhecer os primeiros episódios dessas populações. A genética vem se firmando com uma dessas ciências. Temos uma série de relatos que vêm depois da colonização europeia, mas há uma porção de elementos, como sítios arqueológicos, sistemas de escrituras e representações iconográficas que revelam o modo como os indígenas americanos retratavam seu modo de viver e seu passado. A genética pode ajudar ainda mais nessas descobertas.
 
Qual é sua impressão sobre o
alcance desse estudo?

Sou cético em relação aos rumos que se pretende dar a essa pesquisa, porque temo que se tente fazer uma associação automática entre genética e cultura. O fato de uma população levar uma carga genética não necessariamente mostra que há uma continuidade cultural. Lógico que esses dois fatores caminham juntos. No entanto, a conjuntura histórica pode fazer um determinado grupo a adotar outros costumes e manter uma outra identidade cultural.

Tags:

publicidade