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Correio Braziliense

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Matemática, guerra e história

Baseados em um modelo de cálculos, pesquisadores afirmam que a luta militar foi a principal responsável pela expansão de antigas civilizações. Outros especialistas, contudo, ressaltam a importância de fatores como a agricultura e a religião

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postado em 16/10/2013 14:31 / atualizado em 16/10/2013 14:41

Isabela de Oliveira /

A arte da guerra, obra milenar atribuída a Sun Tzu, afirma que a luta armada entre povos tem importância crucial para o Estado: “Dela, depende a ruína ou a conservação do império. Urge bem regulá-la”. Para um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido, as palavras do general chinês não poderiam ser mais precisas, pelo menos no que se refere às civilizações da antiguidade. E não é propriamente a história que comprovaria a tese do livro, afirmam os especialistas, mas a matemática.
Em um artigo publicado recentemente na revista PNAS, cientistas liderados por Peter Turchin, do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade de Connecticut (EUA), apresentam um modelo matemático que — ao ser abastecido com dados referentes a crescimento populacional, recursos agrícolas, aspectos geográficos e tecnologias bélicas, entre outros — seria capaz de estimar quando uma sociedade viveria suas épocas de expansão e de declínio.

Para testar se essa fórmula do desenvolvimento das civilizações tinha mesmo eficácia, eles inseriram dados de civilizações que surgiram na Ásia, na Europa e na África entre 1500 a.C. e 1500 d.C. e compararam as previsões feitas pelo modelo matemático com o que de fato ocorreu segundo os livros de história. Os cálculos, demonstram no artigo, foram capazes de explicar 65% dos eventos históricos. Curiosamente, quando os dados referentes à difusão das tecnologias militares foram deixados de lado, o índice caiu para 16%.

Segundo Turchin, o trunfo do método é não apostar todas as fichas para explicar a evolução social na invenção da agricultura, como faz a maioria dos historiadores, antropólogos e arqueólogos. “A agricultura intensiva é uma condição, mas não é suficiente (para explicar o crescimento de um determinado grupo). Instituições de sociedades complexas são caras. Essa evolução só é possível quando os grupos competem uns com os outros, principalmente pela guerra”, afirma.

O pesquisador da Universidade de Connecticut diz que a formação dos macroestados nas regiões estudadas seguiu o caminho da tecnologia militar, que foi difundida para o Mediterrâneo central, a Europa ocidental, o norte da Índia e o sul da China. Mais tarde, o avanço se deu para o leste da Europa, o Japão, o sudeste da Ásia e a África subsaariana. Turchin afirma que a dinâmica do modelo reflete o padrão histórico de inovações militares como carros e cavalaria se espalhando primeiro para as regiões próximas ao estepe da afroeurásia e, depois, para as regiões mais distantes. “Então, é realmente a guerra que fez o Estado”, conclui.

Multicultural

Apesar de o grupo ter conseguido simular eventos do passado a partir de cálculos matemáticos com um razoável — dada a escassez de vários dados que seriam necessários para uma simulação mais precisa —, historiadores não concordam completamente com a ideia de que a guerra é a grande responsável pela ascensão dos Estados complexos. “Eles (os responsáveis pelo estudo) dizem que a expansão de impérios, como o romano, se deve à guerra, mas se esquecem de outros fatores, como a propriedade privada — não da forma como conhecemos hoje, mas da maneira entendida pelo homem quando ele sai da caverna e se sedentariza”, argumenta Rosana Schwartz, professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo.

Quando outros grupos perceberam que, com a introdução da agricultura, havia comunidades se alimentando sem a necessidade de matar um animal de forma violenta, houve mistura de famílias. “Esse processo fez com que as culturas se incorporassem. Houve casamentos, expansão de família para tribo, depois para clã, até chegar a uma unidade maior e mais complexa”, descreve Schwartz. “Também não é verdade que uma cultura se adapta a outra de forma que o ‘genoma’ do vencedor prevalece a ponto de destruir a cultura perdedora. Esse processo é multicultural”, contesta a historiadora.

Um exemplo, segundo ela, são as seguidas conquistas do Império Romano, que, apesar da tecnologia militar, entrou em colapso. “A própria mistura de culturas fez com que o modelo do império fosse questionado”, acrescenta.

Luciano Cerqueira, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), acredita que o método do Turchin peca por tentar explicar a história priorizando a guerra. “Eu acho muito interessante a contribuição, pois é um modelo mais preciso em torno da evolução cultural. Mas é perigoso colocar a guerra como fator principal para uma evolução positiva. Essa é a tese central de Minha luta, livro de Adolf Hitler. Ele acreditava que a guerra regenerava e colocava as melhores qualidades do povo à prova, de forma que só os bons sobreviviam. Mas, se você pensar bem, as grandes civilizações do passado deixaram sua marca não apenas pelas táticas de guerra”, analisa.


Ele acrescenta o fator cultural como uma das forças que impulsionaram a ascensão de algumas sociedades. Um exemplo dado pelo professor é Atenas, hoje mais lembrada do que a bélica Esparta. As religiões também têm papel ultrassocial e cultural e não são difundidas apenas pela guerra. “O cristianismo não se expandiu apenas pela guerra, e boa parte da expansão muçulmana também não ocorreu assim. Foi a fé despertada pela nova religião que fez com que os islâmicos ocupassem das Filipinas até o norte da África. Os árabes eram bons comerciantes. Quem aderisse à religião estava inseto de alguns tributos. Mas quem não aderisse deveria pagar para praticar sua religião. Essa também é uma maneira de incentivar a adoção de uma cultura”, exemplifica Cerqueira.

O professor ressalta que, embora os cálculos e simulações possam ser confiáveis, convém ao historiador utilizar outras fontes para prever o desfecho das relações sociais. “Em 1975 e 1976, os Estados Unidos utilizaram computadores para calcular qual país do Oriente Médio seria mais estável e, por isso, melhor para investir. Os cálculos apontaram para o Irã. Aconteceu que, no fim dessa década, explodiu a revolução islâmica, e esse país virou um dos maiores rivais dos EUA. No fim, tudo se resume à capacidade do historiador de julgar e pesar os vários fatores e influências que podem prever ou não o futuro de uma sociedade.”

Palavra de especialista

Humanidades versus ciência dura

“O tema da formação do Estado tem sido estudado por cientistas políticos, antropólogos, arqueólogos e historiadores, ou seja, especialistas das ciências sociais e humanas. O artigo apresentado na PNAS, por sua vez, congrega estudiosos das ciências duras e biológicas, e isso dá um tom assertivo e seguro ao estudo, o que não é bem-aceito pelos humanistas, que consideram tudo sujeito à interpretação. Portanto, o artigo é bastante crente na sua própria ciência. Nem todos aceitariam isso. Já sobre a substância do argumento, há aspectos positivos, como ao ressaltar que se refere apenas ao Velho Mundo (África, Ásia e Europa), deixando de fora as Américas, e ao buscar princípios gerais que explicariam o surgimento e a difusão do Estado, que no caso seriam as normas ultrassociais.

Há duas críticas que podem ser feitas. Em primeiro lugar, a certeza ingênua de que tais estudos possam ser mais do que uma interpretação, não a única correta. Em seguida, a abordagem otimista, ou pró-civilização. De fato, há muita evidência de que não há relação entre Estado e felicidade nem de desenvolvimento tecnológico e sensação de bem-estar. A guerra é resultado do Estado, com muitas desgraças, desde o início, há 5 mil anos. Além disso, viver 80 anos pode ser tão bom quanto viver 20, depende do ponto de vista. Para um Estado, vale a mesma coisa. Uma civilização pode durar menos tempo, porém ser mais culta e feliz, deixando para trás mais resultados positivos. Para humanistas, falta um pouco de olhar crítico e filosófico (ao artigo).”

Pedro Paulo Funari, professor titular do Departamento
de História da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)
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