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O diplomata que vivia de versos

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postado em 18/10/2013 15:55 / atualizado em 18/10/2013 16:00

Igor Silveira , Vanessa Aquino

Athayde dos Santos/Agencia Brasil
A carreira diplomática de Vinicius de Moraes, nem de longe, teve o mesmo sucesso da artística. Avesso às liturgias do cargo e cada vez mais ligado à música, o Poetinha foi expulso do Itamaraty em 1969. Apesar de nenhum outro embaixador ter difundido tanto o Brasil como ele, a presença de Vinicius em alguns postos incomodava. O Correio teve acesso a um telegrama de 1956 em que o então embaixador brasileiro na França, Carlos Alves de Souza, pedia a transferência do artista.

Em 11 de maio daquele ano, o Ministério das Relações Exteriores (MRE) recebeu a correspondência do chefe da embaixada em Paris concordando com uma licença especial para Vinicius de Moraes — à época exercendo a função de secretário. O documento dizia mais: Carlos Alves de Souza sugeria que o músico fosse realocado em “outra repartição”.

“Estou convencido — sem que isso implique qualquer restrição de ordem pessoal — de que as suas aptidões dificilmente se enquadrariam nas atuais necessidades de serviço desta missão”, escreveu o embaixador. No restante do documento, o autor continuava suas lamúrias em relação à embaixada “no que diz respeito a pessoal de carreira”. Não se sabe ao certo qual foi a resposta do Itamaraty ao telegrama.

Gravata obrigatória
“Se a diplomacia tivesse a capacidade de chegar ao coração, como a poesia de Vinicius de Moraes tem, o mundo estava salvo.” Esta é a conclusão do poeta e diplomata Chico Alvim sobre o Poetinha que seguiu carreira diplomática por 26 anos. Quando decidiu prestar concurso para o Itamaraty, em 1942, Vinicius de Moraes pensava em estabilidade. Já era poeta, jornalista e crítico de cinema respeitado, e nunca foi um burocrata exemplar. A trajetória do poeta no órgão, onde ocupava cargo de primeiro secretário, chegou ao fim em 1969, com aposentadoria compulsória. O motivo seria a intolerância do Regime Militar — e do recém-implementado AI-5 — ao perfil boêmio do artista.

No período em que esteve ligado à chancelaria, Vinicius teve que conciliar as demandas de diplomata aos mergulhos criativos de compositor e poeta. Foi nessa época, em 1956, que ele atingiu um dos auges do traçado criativo com o espetáculo Orfeu da Conceição, síntese entre o erudito e o popular. Segundo o produtor cultural Marcelo Dantas, a época marca o encontro com Tom Jobim, com quem iniciou a parceria que fez o Brasil ficar conhecido pelo resto do mundo. “Que mais poderia o Itamaraty exigir de seus funcionários? A arte de Vinicius era tão cativante que tinha o dom de se converter em política de Estado. Embaixador nenhum fez tanto pela pátria quanto ele”, escreveu Dantas.

Vinicius teria conquistado inimizade entre os que acreditavam que o comportamento do poeta era prejudicial ao Itamaraty. De acordo com Dantas, houve tentativa de impedi-lo de fazer a primeira apresentaçaõ ao vivo, em show na boate Au Bon Gourmet, na companhia de Tom Jobim e João Gilberto. “A crise foi contornada com a decisão salomônica da alta cúpula do Itamaraty de que Vinicius poderia cantar, mas teria que se apresentar de terno e gravata. E foi assim, a caráter, que o mundo soube pela primeira vez da “Garota de Ipanema, símbolo máximo do encanto despojado de nossa beleza e segunda canção mais gravada de todos os tempos. Nosso verdadeiro hino nacional.”

Versões desencontradas
A saída do poeta do Itamaraty, no entanto, alimenta uma série de histórias, mas poucas delas comprovadas. O biógrafo Ruy Castro considera essa uma fase pouco explorada da vida de Vinicius de Moraes e que merece mais apuração. “Embora adorasse a diplomacia, havia algo que o fazia resistir à liturgia da carreira. Nunca li nada denso sobre isso também”, constata.

O jornalista Carlos Castello Branco escreveu sobre o assunto, em texto publicado no site Outros Olhares, no qual conta que há uma versão “fantasiosa” sobra a aposentadoria compulsória do poeta. “Ele era primeiro-secretário no serviço diplomático e, segundo a fantasia, teria sido excluído da carreira por ordem do então presidente Arthur da Costa e Silva, transmitida em memorando dirigido ao ministro do Exterior da época, José de Magalhães Pinto. O apelo que me foi feito relaciona-se com duas circunstâncias, a de ter sido também amigo do poeta e por ser o ‘decano da reportagem política’.”

Castello Branco conta que Vinicius teria sido requisitado por Israel Pinheiro para prestar serviços na Fundação Ouro Preto, mas, depois de dois anos, o Itamaraty teria intimado o poeta: ou retornava ou se aposentava. “Nessa altura sobreveio o AI-5, 1968. Vinicius esteve longamente em Lisboa, onde já tinha se apresentado em um show ao lado de Chico Buarque. Já tinha se apresentado também em Roma, em São Paulo e no Rio. Entre ‘alcoólatras, pederastas e subversivos’ então afastados da carreira, Vinicius teria sido ‘vagamente enquadrado nessa última categoria’”, relata o jornalista.
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