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Correio Braziliense

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Apadrinhada por Vinicius,Maria Creuza segue carregando o legado do Poetinha

A baiana interpreta várias canções do repertório do amigo para um público cativo, sempre ávido pelos versos do compositor, responsável por impulsionar a carreira da cantora

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postado em 18/10/2013 18:03 / atualizado em 18/10/2013 18:13

Arquivo pessoal
Maria Creuza é uma operária da música de Vinicius de Moraes. Há 15 anos, de quinta a domingo, a cantora sai da Barra da Tijuca, onde mora, até Ipanema. É no bairro carioca, mais precisamente no Vinicius Bar, na rua que também leva o nome do Poetinha, que a baiana interpreta várias canções do repertório do amigo para um público cativo, sempre ávido pelos versos do compositor, responsável por impulsionar a carreira da cantora nos anos 1970. “Virou uma espécie de reduto meu”, conta ela, aos 69 anos. Em 2013, ano do centenário do compositor, Creuza já levou as músicas para a Espanha, Peru e Colômbia, além de várias cidades do país. A Argentina é o próximo destino.

Nascida em Esplanada (BA) e criada em Salvador, Maria Creuza cantava em um festival universitário da TV Tupi, em 1969, quando a voz aveludada e grave, na faixa Mirante, chamou a atenção de um tal Vinicius de Moraes. Era a estreia da moça no Rio de Janeiro. O Poetinha teria ficado doido atrás do telefone da cantora, e acabou conseguindo o número. Vinicius telefonou para Maria e ela, claro, não acreditou que era realmente ele. “Achei que estavam me sacaneando”, relembra. Quando, enfim, a ficha caiu, recebeu o convite para uma turnê com ele e Dori Caymmi na Argentina e no Uruguai. Começou aí a amizade musical, que duraria até a morte do artista, em 1980.

Pouco depois, Dori foi substituído pelo novato Toquinho. Os três rodaram o mundo em apresentações. “Eu teria que abrir as várias agendas que guardo para saber quantos foram os shows”, diz Creuza. A Europa e a América do Sul eram destinos constantes. O Poetinha virou até compadre dela — ao lado da então mulher, Gessy Gesse, ele batizou a filha do meio de Maria Creuza, Luana.

Apesar da fama de conquistador, e da beleza da jovem Creuza, Vinicius nunca tentou avançar o sinal com a amiga. “Ele dizia que não era possível: ‘Mariazinha, você desperta paixões incontroláveis, mas não dá valor a ninguém’”, detalha a cantora. “Gessy era baiana também, e muita gente confundia, achava que era eu”, recorda-se. “Não tive absolutamente nada com ele, apesar de Vinicius ser uma pessoa cativante”. Na época, Creuza era casada com o compositor Antonio Carlos, da dupla Antonio Carlos & Jocafi. O relacionamento durou quase duas décadas e gerou três filhos.
Arquivo Pessoal

Aplausos

No começo dos anos 1970, as apresentações sempre cheias na boate La Fusa, em Buenos Aires, acabaram rendendo um disco ao vivo, gravado por Creuza, Vinicius e Toquinho. A cantora se recorda que parte do trabalho, que acabou conhecido mundialmente, foi finalizada em estúdio. Quando saiu no Brasil, em 1972, o álbum recebeu o nome de Eu sei que vou te amar, e trazia Creuza como protagonista, em foto grande na capa. O nomes dos dois outros, menores, apareciam embaixo do dela.

A amizade com a dupla rendeu boas histórias. Certa vez, em Punta del Este, no Uruguai, como era de costume, Vinicius ficou sentado em uma mesa no palco, tomando seu “uisquinho”. Às vezes, levantava-se para agradecer os aplausos e abraçar os afilhados artísticos. Segundo Creuza, o Poetinha não era muito dado a usar roupas de baixo. Nesse dia, ele havia desabotoado a calça, um pouco apertada, e ergueu-se bruscamente. A trupe só percebeu quando as calças já alcançavam o chão. “Não chegaram a ver tudo, mas quase”, diverte-se Creuza.

Em outra ocasião, dessa vez em Paris, Creuza ficou tão emocionada que esqueceu a letra da música. Ela era novata e dividia o palco, também, com Baden Powell. A canção era Samba da bênção. “Eu não sabia o que fazer, e acabei inventando qualquer coisa”, conta. Ao final, Vinicius olhou para ela, com aquela cara, e soltou, ironicamente: “Quero apresentar para vocês a minha ‘parceirinha’, Maria Creuza”. É de Paris, também, o manuscrito de Vinicius que a cantora entregou ao Correio, detalhando o itinerário de apresentações dos dois com Toquinho na Cidade Luz.
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