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Êxtase com a arte renascentista

Mostra sobre as obras-primas italianas no CCBB desperta grande interesse dos brasilienses na primeira semana

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postado em 22/10/2013 16:52 / atualizado em 22/10/2013 17:06

Ricardo Daehn

Ricardo Daehn/CB/D.A Press

Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press
 

“Tô encantado, num estado quase de adoração” — disse o servidor público aposentado João Costa, 79 anos, ao alimentar a cadeia de interesse que tem levado mais de 800 pessoas, diariamente, a visitar a exposição Mestres do Renascimento — Obras-primas italianas. Foi a mulher de João, Maria Dilce, quem alertou o aposentado para o programa gratuito no CCBB.
“Aqui na exposição, se tem a representação de coisas tão sublimes e que deram fundamento à nossa cultura. São artistas herdeiros da cultura grega. Estou embevecido e não vou sair daqui tão cedo. Até independe do peso dos nomes dos artistas: é tutti buona gente”, comentou. Nas 57 obras dispostas em seis setores (cada um composto por cidades que disseminaram a arte do século 15) estão expostos elementos da Renascença, estimulados por transformações no mundo que se multiplicaram, na crescente escala dos adornos e obras de arte encomendados pela Igreja.

Ciente da realidade de missas em latim e dos muitos iletrados que acompanharam a época da produção do Tríptico com ascensão, juízo universal e pentecostes (de Fra’ Angelico), uma das peças mais vistosas no CCBB, a consultora legislativa Maria Teresa Cunha, 60 anos, comentou: “Não sou religiosa: aprecio como arte, como veículo de história. Naquele período, havia uma função social de domínio do populacho, de ofertar uma capacidade de abstração apoiada por imagens”, observou ela, que sentiu a falta das “grandes estrelas do Renascimento”, mas enfatizou a concentração de acervos, completos, para uma frequente turista. “Leio muito para minhas viagens e seria impossível visitar os mais de 20 pontos representados na exposição”, avaliou. Da viagem no tempo, por meio das obras, Maria Teresa destacou Morte de Lucrecia (de Il Sodoma). “Há força dramática espetacular e perfeição na plasticidade. As mãos representadas chamam a atenção, e a gente intui dissuasão e acolhimento”, observou.

Rotas de navegação
O trajeto compreendido desde a visão da têmpera sobre madeira Virgem da humildade (de Gentile da Fabriano), que colocou Florença no topo do Renascimento, até o desembocar na Alegoria da batalha de Lepanto (óleo de Veronese que marca o fim do movimento) incita o pensamento, quando o visitante lembra do contexto da liquidação da Idade Média. Avanços com as rotas de navegação, com a prensa móvel de Gutenberg; a criação de O Príncipe (de Maquiavel), o nascimento de Shakespeare, a inspiradora arquitetura de Brunelleschi e Palladio, além dos turcos tomando Constantinopla, assentaram uma nova realidade mundial. “Na mostra, a gente vê na prática o que estudou na história da arte. A cronologia histórica e o momento cultural são valorizados. Fiquei instigado pela profusão da perspectiva artificialis, que abraça a geometria e causa um efeito de 3D”, observou o servidor público e estudante de design gráfico Marcos Almeida, 40 anos.

As mais de duas horas despendidas na exposição, lembraram Marcos do prazer de ter visto uma obra de Caravaggio no Palácio do Planalto. “Dá para não idolatrar a obra pela obra, mas, sim, perceber a aplicabilidade de conceitos na prática e nas artes. No Renascimento, se percebe empirismo, ciência e arte, tudo, unificado. Quanto ao conteúdo, independente da religião, as obras enaltecem a figura do salvador”, comentou. Na exposição, o casamento de arte e arquitetura se dá até no destaque de uma peça anônima, uma porta que decorou a residência de um duque, no século 15.

Claro que O nascimento de Vênus (de Botticelli) e a Mona Lisa de da Vinci não vieram à capital. Mas há genialidade de da Vinci na ala dedicada a Milão. Com quesitos como precisão técnica e incidência alternada de luz nos quadros, Leda e o cisne (1508) projeta da Vinci, na vocação de contar uma história, no pictórico, a exemplo de Parmigianino (também apresentado), responsável pela representação da divinal aliança entre o menino Jesus e Santa Catarina.

Requisitando uma moldura especial, o afresco Santo Agostinho no estúdio (de Botticelli e datado de 1480) dá exemplo claro de como uma joia confeccionada em areia, cal e pigmento de tinta, antigamente, poderia estar perdida em uma igreja em avançado estado de degradação. Tido como o escultor mais importante do Renascimento, Donatello tem sublinhadas a precisão da anatomia e o respeito às proporções corporais na réplica de São João Batista, feita em madeira entalhada.

Nova perspectiva
Mestres do Renascimento abre espaço para descobertas, mesmo para os mais calejados admiradores de arte, como o comerciante carioca Durcesio Mello, 58 anos. Antes de seguir viagem para os Estados Unidos, ele atendeu ao pedido dos afilhados gêmeos Pedro e Henrique Salum, de 9 anos, num programa que esclareceu, por exemplo, a inacababilidade do óleo Anunciação (de Boticelli), vindo de acervo particular, no primeiro passeio da obra, fora da Itália. Com a surpresa, a visitação atestou a corujice do tio. “Fico com o maior orgulho. É muito bom ver que há mais e mais crianças participando de exposições que trazem um tom adequado a agradar a garotada”, apontou.

Durcesio viu a antiga “obrigação de escola” da ida a museu trocada pela diversão que contemplava dúvidas e análises infantis do tipo “Essa mulher é feia” e “O que está acontecendo, aqui (nesse quadro)?”. Filhos de funcionários do Senado e do Itamaraty, os estudantes da Escola Alvacir Vite Rossi compreenderam as obras a sua maneira. “Vi um filme bem legal dela”, disse o entusiasmado Henrique, em frente ao retrato de Lucrécia Bórgia, enquanto Pedro se impressionava com “as cores e figuras” do anjo e da Virgem, mostrados em Anunciação, de Giovanni Bellini.

Com ênfase na abordagem humanista e na valorização do terreno das evidências, a amostra do Renascimento baratinaram o funcionário da CEB e músico Agustinho Rosa, que não havia colocado a Itália no roteiro de recente da viagem, por 20 dias, pela Alemanha, Áustria, Hungria e República Checa. “Estou complementando informações: é possível ver a virada cultural, com quebra de estilos, mudanças de materiais e de perspectivas. Nessa verdadeira revolução, a gente percebe o financiamento da Igreja: ela deu oportunidade, com os mecenas, aos artistas. As obras todas me impressionaram: são ricas demais. Pelo realismo, há obras que parecem estar em relevo”, comentou.

600
milhões
de euros Valor das obras em exposição

3 mil
Público que visitou a primeira semana a exposição Mestres do Renascimento — Obras-primas italianas

Eu fui...

Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press

“Não me concentrei em nada, especialmente; mas percebi o valor das cores chamativas como o vermelho”

Felipe Irineu,
vestibulando, 20 anos

“O que mais me chamou a atenção foram as cores fortes usadas nos quadros”

Lara Moraes,
estudante, 18 anos

Curiosidades
Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press

Na visita pelo CCBB é possível entender particularidades da missão de Michelangelo, com os afrescos reservados à decoração da Capela Sistina e também do empreendimento de Leonardo da Vinci , com sua pintura mural A última ceia, cuja restauração mais recente (até 1999) consumiu duas décadas.

Menina-dos-olhos do Museu de Pisa, a obra de Domenico Ghirlandaio, destacada na visitação, é exemplar do prenúncio do Renascimento.

Sem tintas de base sintética, os artistas tinham nas paletas o azul e o vermelho como mais nobres e caros. Enquanto o pigmento de uma casca de crustáceo dava o tom do escarlate, o azul era alcançado pela pedra lápis-lazúli.

Em substituição à têmpera e à fixação orgânica (com base na gema de ovo), Rafael, em Cristo abençoando  (foto), de 1506, demonstrou a vivacidade possibilitada pelo uso de tinta a óleo.

Na têmpera Virgem com menino e São João Batista (1495) Piero di Cosimo responde por maior realismo na representação de figuras com a humanidade ressaltadas.

No segmento Roma (da exposição), há produção concentrada em representações de santos e é interessante notar a popularização das encomendas de retratos. Michelangelo marca presença na ala, com o desenho do estudo de portal.

Na área dedicada à cidade-Estado de Urbino, há fixação nas Madonnas (em situações naturalistas e ênfase na relação maternal, com seios à mostra). O segmento traz o óleo Retrato de Elisabetta Gonzaga, em que Rafael responde pela celebração de uma das apoiadoras de sua arte Enquanto Vittore Carpaccio acentua questões de profundidade e perspectiva, no desfecho da visitação; o espaço reservado à produção em Veneza enfatiza o casamento entre luz e sombra latente em São Jerônimo (de Bassano) e o óleo Madalena (de Ticiano). Tintoretto impressiona, pelo contorno etéreo de Assassinato de Abel (foto).
Antonio Cunha/Esp.CB/D.A Press

Nos quadros de Ferrara, como Virgem com o menino e Santa Catarina (de L’ Ortolano), a agitação típica de criança ressalta o lado humano de Jesus, enquanto a capacidade de retrato mais dinâmico se exprime com Girolamo da Capri e o óleo sobre madeira A flagelação de Cristo.

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