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Correio Braziliense

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O renascimento da leitura

Menos de um dia depois de ser incendiada, biblioteca em parada de ônibus é limpa e livros são repostos. Usuários estão indignados com a ação, mas polícia ainda não encontrou os responsáveis pelo ato

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postado em 30/10/2013 14:59 / atualizado em 30/10/2013 15:03

Manoela Alcântara

Ana Rayssa ESP/CB/D.A Press
O incêndio foi rápido. Na madrugada da última segunda-feira, 600 livros foram queimados em uma parada de ônibus na 703 Norte. A ação ocorreu de forma rápida e os responsáveis ainda não foram encontrados pela polícia. No entanto, os vestígios do fogo no local não existem mais. A equipe que cuida do projeto Biblioteca Popular, do açougue T-Bone, compareceu ao ponto, pintou a prateleira, limpou a sujeira e não deixou a população nem um dia sequer sem o acervo. Todos os títulos são fruto de doações.

Assim que recebeu a denúncia do incêndio, o idealizador do programa e proprietário do T-Bone, Luiz Amorim, sentiu-se na obrigação de reparar os danos. “Colocaram fogo na prateleira. Foi uma ação de algum vândalo, usuário de drogas. Mas não ocupamos nosso tempo reclamando. O público não pode ser prejudicado por esses problemas. Nessa parada passam mais de mil usuários por dia”, disse. Amorim optou por não registrar ocorrência na delegacia, pois se diz descrente com o poder público.

Ele lembra que chegou a tentar fazer uma parceria com a 2ª Delegacia de Polícia para a realização de rondas nas proximidades das 37 paradas de ônibus. “Foi em vão. O ofício que encaminhei à Secretaria de Segurança Pública nunca foi respondido. Na DP, eles me deram a seguinte resposta: ‘Não temos nem como cuidar dos crimes hediondos, como vamos cuidar de livro em parada?’”, lamentou. A reportagem entrou em contato com a Divisão de Comunicação da Polícia Civil, no início da tarde de ontem, para saber se alguma delegacia havia iniciado as investigações sobre a autoria do incêndio. Até o fechamento desta edição, a demanda não havia sido respondida.
Ana Rayssa ESP/CB/D.A Press

A Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura (Unesco), porém, reconhece a iniciativa de fomento à leitura, que começou em 2007 e é copiada por estados do Brasil e até por outros países.

No local onde o incêndio ocorreu, os passageiros estavam indignados. O currículo escolar do garçom Ronaldo Alves, 26 anos, vai somente até a 8ª série do ensino fundamental. Apaixonado por história, no último ano, ele leu três livros e ainda consultou a Constituição Federal de forma periódica, graças ao projeto. “Leio no ônibus, levo para casa. Quando ganho algum livro, daqueles mais grossos, com 400 páginas, trago para a parada porque sei que não vou usar. Se não tivesse essa prateleira aqui na Asa Norte, não teria condições de comprar os exemplares”, afirma.

A leitura é realizada nas viagens até a Samambaia, onde mora. Ontem, ao dirigir-se a uma entrevista de emprego nas proximidades da 703 Norte, foi informado sobre o incêndio. “É um absurdo. O ato mais ignorante de todos. Livro não prejudica ninguém, só ajuda. Se a pessoa não quer ler, não deve destruir o que vai beneficiar uma série de pessoas”, advertiu. Aos 71 anos, Isméria Maria de Oliveira também preza pelo patrimônio público. “Uma vez, vi um menino rasgando um livro. Fui até ele e conversei. Falei que se aquele exemplar não servia para ele, poderia servir para outro”, disse a servidora pública aposentada.

Excelência

Todos os dias, uma equipe do açougue usa duas Kombis para repor os livros doados pela população nas prateleiras das paradas. Ela limpa o espaço e zela para que o serviço prestado aos usuários seja de excelência. Apesar do cuidado e do respeito geral, em dois anos, as paradas da 703 e 502 Norte sofreram com incêndios. “Foi uma forma que encontramos de humanizar esses locais que se encontram sujos, fedidos, malconservados. É uma forma de dar dignidade a quem depende do transporte público”, completa Luiz Amorim.
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