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Passado e presente na Bienal do livro

Marcado para abril, o principal encontro literário de Brasília dará destaque aos 50 anos do golpe que iniciou ditadura no Brasil. No cardápio, autores asiáticos, africanos e guerrilheiros que se tornaram escritores

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postado em 30/01/2014 14:00

Nahima Maciel

O destaque da 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, programada para começar em 12 de abril, será a discussão em torno do aniversário de 50 anos do golpe militar. “Vamos dar um relevo para essa questão, queremos fazer com que esse debate aconteça”, avisa Nilson Rodrigues, coordenador geral da bienal. A agenda terá uma série de lançamento de livros, debates com ex-guerrilheiros que viraram escritores e autores há muito envolvidos com o tema.

Entre os convidados estão Zuenir Ventura, Alfredo Sirkis, Cid Benjamin, Frei Betto, Carlos Heitor Cony, Antonio Torres, Thiago de Mello e Maurice Politi. O escritor e jornalista Elio Gaspari, autor de uma série de quatro volumes sobre a ditadura, foi convidado, mas ainda não deu resposta aos organizadores. “Gaspari está sendo convidado sim, claro, para uma mesa em que poderá falar sozinho, sem dividir espaço com ninguém. Esperamos que aceite”, diz o curador do evento, Luiz Fernando Emediato.

Para o secretário de Cultura, Hamilton Pereira, o golpe de 1964 ainda é uma lacuna na reflexão sobre a história do país. “Ele não foi ainda digerido adequadamente pela sociedade. Há pouca informação e as novas gerações não sabem direito o que ocorreu. A bienal é um momento para refletir sobre a resistência cultural nos tempos da ditadura militar”, acredita Pereira.

A 2ª Bienal vai repetir o seminário Krisis, que lotou auditórios na primeira edição, em 2012, e teve nomes como Alice Walker, Vandana Shiva e Tariq Ali. “A crise adquiriu outros contornos”, repara Rodrigues. “Tem a Primavera Árabe, a ocupação das cidades europeias, as manifestações no Brasil.”

A internet também será um destaque. Se na última edição se falou muito em mercado e acessibilidade, o tom agora é voltado para estética e difusão. O surgimento de novos gêneros literários deve pautar debates e um dos nomes confirmados é o de Daniel Galera, ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura, em 2013, com Barba ensopada de sangue. Galera disponibilizou o primeiro livro, Dentes guardados, na rede assim que o publicou, em 2001.

De acordo com Nilson Rodrigues, a bienal terá estrutura reforçada em relação à primeira edição, que sofreu com as chuvas e com o vazamento de som entre os auditórios. O local — o canteiro da Esplanada dos Ministérios em frente à Rodoviária — permanece o mesmo, mas Nilson promete que detalhes precários da edição anterior, como o estacionamento, serão corrigidos este ano.

Feminismo
A literatura africana também terá uma atenção especial no seminário Brasil, América Latina e África: novas realidades e novos escritores . Um dos nomes mais importantes da poesia de São Tomé e Príncipe, Conceição Lima confirmou presença. Na última edição, ela precisou cancelar a participação por problemas de saúde.

Os diálogos entre a escrita e o feminismo ganharam um espaço reservado no seminário A literatura no feminino, que terá a norte-americana Naomi Wolf, autora de O mito da beleza. “A temática surgiu naturalmente e também porque a cada ano aumenta a mobilização das mulheres para fazer valer sua presença e seus direitos. Direito ao trabalho, salários iguais, direito de mostrar os seios na praia, direito ao prazer, direito de não ser espancada”, explica Emediato. “Como a Naomi Wolf escreveu um livro fantástico sobre as relações entre a vagina e o cérebro, começamos por aí. Outra coisa é que a nova literatura brasileira está revelando mais mulheres que homens e, no meu entendimento, elas estão escrevendo melhor que os homens.”

Liberdade
Uma curiosidade nesta edição será a Ásia. Emediato foi buscar na China e na Coreia dois nomes inéditos nas prateleiras das livrarias brasileiras. Murong Xuecun, que escreve sob o pseudônimo de Hao Qun, é um dos autores mais ativos na literatura chinesa quando se trata de liberdade de expressão. Com mais de 8,5 milhões de seguidores na Weibo (o Twitter chinês), ele viu seu romance Leave me alone: a novel of Chegdu atingir vendas de mais de um milhão de exemplares. Antes de chegar à mídia impressa, o livro foi publicado online. Na Bienal, será lançado pela Geração Editorial com o título de Deixe-me em paz.

Da Coreia vem Kim Young-ha, autor de Flor negra, romance baseado na imigração coreana para o México no início do século 20. “Consideramos interessante essa ‘ponte’ entre Ocidente e Oriente”, avalia o curador, que é proprietário da Geração Editorial, responsável pela publicação de Naomi Wolf e Young-ha, mas está licenciado da empresa.

Ainda resta confirmar cerca de 30 convidados, segundo Nilson Rodrigues. A realização do evento é uma parceria da Secretaria de Cultura e de Educação do Distrito Federal com o Instituto Terceiro Setor (ITS). Segundo o secretário de Cultura, a pasta vai investir R$ 11 milhões na Bienal e o orçamento é parte da verba destinada às comemorações do aniversário de Brasília. O evento também faz parte dos programas especificados no Plano do Livro e da Leitura do Distrito Federal (PLLDF). O escritor uruguaio Eduardo Galeano e o paraibano Ariano Suassuna são os autores homenageados desta segunda edição. Em 2012, o evento custou R$ 6,4 milhões.

Três perguntas // NILSON RODRIGUES

 


Em 2012, houve problemas quanto à estrutura da bienal. Algo vai ser feito este ano para impedir os alagamentos e goteiras, além do vazamento de som entre auditórios?
Vamos fazer um espaço com uma estrutura mais bonita, à altura do que é esse projeto. Vai ter mais beleza e mais segurança. Essa bienal é a edição que vai afirmar efetivamente esse projeto no calendário de Brasília e do Brasil. O resultado da outra foi muito positivo, então essa é afirmação do evento como um grande projeto de livros e leitura no país. É importante para a literatura e importante para o mercado também.

Quais serão as grandes atrações?
Vamos dar um relevo muito grande para a questão dos 50 anos do golpe militar. Isso é um relevo que queremos dar, fazer com que esse debate aconteça. Queremos destacar essa efeméride com uma série de lançamentos de livros e debates com os que participaram da resistência e se tornaram escritores, os que não participaram diretamente da resistência e escreveram sobre o tema.

Por que repetir o seminário Krisis?
Porque acho que esses temas estão muito presentes, mas com novidades. Vamos fazer uma mesa chamada Cidades rebeldes. A crise adquiriu outros contornos, mas é a mesma que a gente abordou na edição anterior, com a questão ambiental e a questão da crise do sistema financeiro em decorrência do capitalismo. Agora, esse conjunto de manifestações, Primavera Árabe, ocupação das cidades da Europa, aqui no Brasil, as manifestações, vamos refletir sobre isso. E vamos fazer um debate sobre internet também que estou achando isso muito relevante. Já fizemos um debate do ponto de vista do mercado. Agora, será do ponto de vista estético e da difusão. Há um espaço grande para a difusão e há a difusão do mercado. E há também novidades estéticas a partir do fenômeno da internet. Será que caberia refletir sobre novos gêneros? Há inclusive escritores que começaram com internet, como Daniel Galera. E tem a mesa Brasil, América Latina e África: novas realidades e novos escritores, a América Latina está em transformação tanto econômica quanto política, e social por consequência. E a África também.
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