SIGA O
Correio Braziliense

Das cocadas ao doutorado

Estudante, bibliotecário e professor universitário apostou nos estudos para mudar de vida. Em março, lança livro que é resultado da tese de doutorado em literatura

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 07/02/2014 13:55 / atualizado em 07/02/2014 15:19

Graduado em quatro cursos na Universidade de Brasília (UnB), o bibliotecário da Câmara dos Deputados Cristian Santos analisa a representação das beatas e dos padres na literatura brasileira do século 19 no livro Devotos e Devassos. A obra é resultado da tese de doutorado do autor e será publicada em 12 de março na Biblioteca Central dos Estudantes (BCE) da UnB. Hoje, Cristian é servidor público e professor universitário, mas já teve que vender cocadas para pagar as passagens de ônibus até a escola e enfrentou muitos desafios. No caso dele, a educação foi a única saída para a mobilidade social.

Paula Rafiza/ Esp.C.B/ D.A Press
A trajetória de Cristian começou em uma pequena biblioteca em Brazlândia (DF), a Biblioteca Setorial Érico Veríssimo, que frequentava desde criança. O pai era um carpinteiro semianalfabeto e a mãe, uma vendedora de doces que sempre apostou na escolaridade para a mudança de vida dos filhos. A atenção materna foi determinante para motivá-lo. Com o objetivo de garantir uma vaga em escola pública no Plano Piloto, a 45 km de casa, a mãe passou a noite na fila em frente à escola, o Elefante Branco.

"Eu tinha que acordar muito cedo para ir à aula e vivia com pessoas de origens muito diferentes. Isso deu uma guinada na minha vida. Saí um pouco daquele universo", conta. A passagem era paga com o dinheiro que ganhava vendendo cocadas que a mãe fazia para os vizinhos. "Foi um período cheio de desafios", comenta, "mas eu sempre dei o meu máximo, como
uma forma de compensar o esforço da minha mãe."

Foi em uma feira de cursos na escola que ele descobriu a graduação em biblioteconomia: "Havia um folder sobre o curso que sugeria o filme O nome da rosa. Ali descobri o que eu queria fazer". Em 1995, ingressou no curso na Universidade de Brasília. E não parou mais de estudar. A conquista de uma vaga no concurso do Tribunal de Justiça do DF, três anos depois, foi o que facilitou a vida financeira.

Nesse meio tempo, cursou inglês no Centro de Línguas (CIL), e francês, italiano e espanhol em cursos particulares, todos como bolsista. E outras conquistas vieram: ao concluir a graduação, foi mais uma vez aprovado, agora no certame do Superior Tribunal de Justiça. "Fui o primeiro bibliotecário homem de lá", comemora.

Além da pro-atividade, Cristian destaca a perseverança como uma de suas maiores qualidades. Sem temer os ‘nãos’ que receberia, enfrentou cada desafio com dedicação. Pouco a pouco, ganhou reconhecimento. Cursou letras-francês, tradução e fez mestrado em ciências da informação na UnB. É doutor e faz pós-doutorado em literatura. "A graduação é apenas um panorama, um leque aberto de possibilidades", comenta. Em 2012, concluiu filosofia na Universidade Metodista de São Paulo. Pela academia, conheceu o Canadá, a Noruega e a Finlândia.

Hoje, divide o trabalho como bibliotecário concursado na Câmara dos Deputados com a carreira de professor de diversas áreas em faculdades particulares e, ainda, a quinta graduação, em teologia. Ele não se cansa. Neste ano, começará a dar aulas de francês no CIL e pretende contribuir para que os alunos conquistem oportunidades, como ele. Cristian afirma que sua vocação final é ser professor de universidade pública. "É meu sonho", declara. "Vou terminar minha vida dando aulas na universidade. Sei que isso pode ter impacto direto na vida das pessoas."

Devotos e Devassos

O título de doutor veio em 2010, quando concluiu a pós-graduação em literatura e práticas sociais com a tese Padres, beatas e devotos: Figuras do anticlericalismo na literatura naturalista brasileira. O trabalho é resultado da formação diversificada de Cristian. Curioso pela representação de personagens típicos da igreja católica na literatura do século 19, ele analisou as obras Tieta do Agreste, de Jorge Amado, O mulato e O homem de Aluísio de Azevedo, e Morbus, de Faria Neves Sobrinho. "Eu percebi que essas figuras eram frequentes na literatura, sempre retratadas de forma caricata e negativa", conta.

Devotos e devassos/ Edusp
"Enquanto as beatas eram as fofoqueiras e rancorosas, que não se casaram e tiveram o destino comum das mulheres, os padres eram manipularadores e comelões", explica. Ele percebeu que as beatas, os padres e outras personagens eram a maior representação da igreja, em um momento de ruptura com o sistema vigente e de início das ideias de laicização do Estado. "A literatura era uma espécie de instrumento de militância em direção ao republicanismo", detalha.

O interesse pelos arquivos da igreja começou com a pesquisa do mestrado. Ele buscou entender a situação dos primeiros arquivos brasileiros e encontrou informações sobre a memória e a identidade brasileira nas certidões paroquiais. "Até o século 19, não havia cartórios de registro no país. A única documentação da população era da igreja, com registros de batismo e casamento", explica. A dissertação rendeu o prêmio do concurso Fernando Baesum e virou capítulo do livro Biblioclastia.

No ano passado, ele recebeu o convite da Editora da Universidade de São Paulo (Edusp) para transformar a tese em livro. O lançamento está previsto para 12 de março, às 10h, na Biblioteca Central de Estudantes da UnB. A escolha foi proposital: nessa data, é comemorado o Dia Nacional do Bibliotecário. "É uma forma de agradecimento à biblioteconomia, que me permitiu viajar por vários universos e ter uma visão multicultural." Cristian criou uma página no Facebook em que publica curiosidades sobre o tema e  pretende percorrer o país para divulgar a obra.

Tags: