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As luzes de Goya

Livro de Tzvetan Todorov revela traços do pensamento do artista espanhol guiado pelos ideais iluministas do século 17

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postado em 11/03/2014 08:00 / atualizado em 10/03/2014 11:36

Vanessa Aquino

Pintura de Goya que representa o encontro das bruxas com satanás: antevisão de novos caminhos  (Reprodução/Internet ) 
Pintura de Goya que representa o encontro das bruxas com satanás: antevisão de novos caminhos
Pobre nua vai à filosofia é um dos desenhos que estão no livro  (Reprodução/Companhia das Letras ) 
Pobre nua vai à filosofia é um dos desenhos que estão no livro


A filosofia segue contemplando o tempo, como descreve o artista espanhol Francisco Jose de Goya y Lucientes na legenda da gravura Pobre e nua vai a filosofia. Nua, de fato, ela não está, apesar das roupas em farrapos. Nos pés, porém, não há calçados. Um livro aberto na mão direita e outro fechado na esquerda, sugerindo que o conhecimento está ali disponível. Com base em um poema de Petrarca, Goya escreveu a descrição da imagem e traçou um rosto ingênuo com olhos indagadores voltados para o céu. A figura estaria apresentando uma ruptura à tradição e anunciando o advento da arte moderna, segundo Tzvetan Todorov, no livro Goya à sombra das Luzes.


Goya representa pensamento e arte de vanguarda, em um cenário onde imagem esteve sempre associada a maneira de pensar, ver e produzir arte. “Somente quando nós. habitantes do século 19, lançamos um olhar sobre a evolução das artes da imagem na Europa, ao longo dos 200 anos que acabam de passar, é que somos levados a constatar: produziu-se uma subversão durante esse período da história, e Goya é o artista que, certamente não o único, mas melhor do que ninguém, pressentiu os novos caminhos que se abriram à sua arte e esboçou alguns primeiros passos por esses caminhos”, descreve Todorov.

Iluminismo

O viés literário do texto de Todorov faz com que a narrativa vá além de uma simples biografia, ou mero conjunto de documentos sobre a vida e obra do artista espanhol. Para resumir a relação pictórica com os elementos imagéticos, conceituais e até ideológicos, Todorov diz que a imagem em Goya é pensamento, guiado, sobretudo, pelos ideais iluministas. “A revolução que se manifesta através da obra de Goya faz parte de um movimento que inclui o fortalecimento do espírito iluminista, a progressiva secularização dos países europeus, a Revolução Francesa e a crescente popularidade dos valores democráticos e liberais. (…) a pintura nunca foi simples jogo, puro divertimento, elemento decorativo arbitrário.”


Mas de que modo o pensamento de Goya atravessa o século 17 e imprime significado à sociedade contemporânea? Para Todorov, a representação está em tudo o que ele produziu, quase dois mil trabalhos: pinturas, gravuras, desenhos. No entanto, Goya deixou também muitos registros escritos como forma de expressão — o que para Todorov pode ter sido consequência da surdez que o afetou em 1792 e que o dificultava de se comunicar oralmente. O artista criou legendas que identificam o processo reflexivo. “Embora não tenha sido um autor que tratasse diretamente de questões filosóficas, políticas ou artísticas, Goya deixou um certo número de textos: cartas pessoais, um relatório dirigido à Academia de Pintura, um anúncio da publicação dos Caprichos, requerimentos e missivas oficiais, conceitos transcritos pelos contemporâneos.

 

 (Companhia das Letras/Divulgação) 
 

Goya à sombra das Luzes
De Tzvetan Todorov. Tradução: Joana Angélica D’Ávila Melo. Companhia das Letras, 312 páginas. R$ 49,50.

 

2 mil

Quantidade aproximada de obras de Goya

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