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Versos na rede

Em homenagem ao Dia Mundial da Poesia, o Correio traz panorama sobre o que pensam poetas da geração digital

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postado em 20/03/2014 16:00

 


Com publicações diárias e dezenas de “curtidas” e compartilhamentos, a poetisa Lília Diniz divulga inquietações e lirismo no perfil de uma rede social. O mesmo faz Luis Turiba e Marina Mara. Sem abandonar as publicações tradicionais, esses poetas e tantos outros se apropriam das possibilidades e do alcance da internet para interagir com o público e convidar para a leitura da poesia.

“Os novos tempos estão dando mais rapidez e alternativas”, observa Turiba. “Não há diferença entre a poesia que faço para a internet e a que publico nos livros, sinto que foi uma passagem automática”, completa o poeta às vésperas do Dia Mundial da Poesia, comemorado amanhã. No mesmo sentido, Lília Diniz acredita que as novas plataformas não classificam o poeta. “Há formas de expressão diferentes, algumas linguagens vão tocar mais, outras menos. Não podemos impossibilitar que as pessoas se expressem”, destaca Lília Diniz.

Entretanto, a pesquisadora em teoria literária da Universidade de Brasília (UnB) e também poetisa Sylvia Cintrão considera que nem todo verso escrito com 140 caracteres é um poema. “A poesia é concentração, ritmo e símbolos. São esses elementos formais que dão relevância ao texto e exigem muito trabalho. O que temos muito por aí é poema clichê”, avalia Sylvia Cintrão.

Embora a internet seja o meio mais apropriado para dar visibilidade a uma obra poética, o editor de poesia Ítalo Moriconi observa que ainda é preciso conquistar o público para se consagrar como poeta. “A poesia lírica tem próprios caminhos e características, e, muitas vezes, é difícil de ser feita até para um estudante de letras. É um gênero difícil. Se, por um lado, alcança um público amplo, por outro, agrada a um público sofisticado”, comenta Moriconi.

Indo na direção contrária, a poetisa e produtora de eventos Marina Mara busca fortalecer a formação de públicos por meio de um site no qual se encontram diversos serviços e eventos voltados para os artistas, como dicas para iniciantes, cursos, saraus, concursos, além de divulgação de poemas autorais e clássicos. “Recebo quase meio milhão de acessos diariamente. Não existe coisa mais chata do que um poema difícil de entender. Então, tento escrever de um jeito simples, sem ser simplória. E dá certo”, garante Marina Mara.

Rebeldia
Durante vários períodos da história brasileira, a poesia foi um recurso literário utilizado para registrar as inquietações dos artistas. Seja nos poemas contra a escravidão de Castro Alves, seja nos versos de duplo sentido utilizados para driblar a censura do regime militar, irreverência e poesia tornam-se parceiras quando o assunto é provocar mudanças. “A poesia serve principalmente para desequilibrar. No caso Amarildo (o pedreiro desaparecido após ser preso pela polícia militar carioca), um poema meu circulou três meses pelo Rio de Janeiro, em passeatas, movimentos, mas até hoje não sabemos a verdade sobre o Amarildo”, protesta Luis Turiba.

Em meio à velocidade da repercussão provocada nas redes sociais, nos blogs e sites de publicação, Lília Diniz observa que o efeito da poesia em determinados contextos sociais exige reflexão do poeta. “Às vezes, me assunto com o alcance que o meu trabalho tem. Então, a gente precisa de um pouco de cuidado, certa responsabilidade. Com o que estou contribuindo?”, ressalta a poetisa.


Democratização
Para incentivar o gosto pela leitura da poesia, a Unesco elegeu, em 1999, o dia 21 de março como o Dia Mundial da Poesia. A ideia é que nessa data sejam organizados eventos para promover a diversidade linguística e cultural, aproximando a poesia do público.


 


"Não existe coisa mais chata do que um poema difícil de entender. Então, tento escrever de um jeito simples, sem ser simplória. E dá certo"
Marina Mara, poetisa


Rimas do século 20

Esse período foi marcado pela Semana de Arte Moderna de 1922, cujos poetas irreverentes questionaram as normas cultas da literatura e aproximaram os versos da linguagem popular. Os mais conhecidos foram Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Décadas depois, surgiram outros artistas consagrados na poesia brasileira, como Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Manuel Bandeira, João Martins de Athayde, Paulo Leminski e Ferreira Gullar. Entre os estilos e movimentos poéticos desse período, destacam-se:

Sextilhos (primeiras décadas dos anos 1900): conhecidos na literatura de cordel nordestina, ganharam o gosto do público com a narrativa das aventuras do cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Os mais destacados cordelistas foram Leandro Gomes de Barros e João Martins de Athayde.

Haicai (anos 1900-1980): forma poética de origem japonesa, trazia a marca da concisão e da objetividade em três versos curtos. Foi popularizado no Brasil com a chegada dos imigrantes japoneses em São Paulo. Guilherme de Almeida e Paulo Leminski são alguns dos escritores brasileiros que utilizaram o estilo em poemas.

Sonetos (década de 1950): com duas estrofes de quatro versos e duas de três, os sonetos foram adotados como estilo de construção dos poemas desde Gregório de Matos, o Boca do Inferno (1600). Nos anos 1950, Vinícius de Moraes registra poemas em forma de soneto, sendo alguns transformados em canções.

Poemas concretos (décadas de 1950-1960): para os concretistas, a imagem formada pelos versos configurava a principal mensagem. Entre os poetas que se enquadram nesse período, estão Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari.

Poesia marginal (décadas de 1970-1980): no auge da ditadura militar, os poetas utilizaram o artesanato para distribuir produções de mão em mão e, assim, driblavam a censura. Entre os mais conhecidos escritores da chamada Geração Mimeógrafo estão Ana Cristina César, Ricardo Carvalho Duarte (o Chacal), Nicolas Behr e Antônio Carlos de Brito (o Cacaso).

 

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