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LITERATURA »

Os quintais de Turiba

O poeta pernambucano, de coração brasiliense, lança hoje o livro de poemas selecionados Qtais, no Martinica Café

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postado em 24/03/2014 16:00 / atualizado em 24/03/2014 11:01

Vanessa Aquino

 (Leonardo Arruda/Esp. CB/D.A Press - 7/9/10 ) 


A poesia de Luis Turiba é versátil, como ele próprio tem se mostrado ao longo da carreira como poeta e jornalista. Os versos do novo livro Qtais transitam por reflexões que tocam na consciência de cidadania, na sensibilidade ambiental e que passam pelas delicadezas da natureza e pelas contradições que fazem da vida pesada e suave, na mesma medida. Repleto de poesias, inclusive sobre Brasília, cidade onde o autor viveu por mais de 30 anos, o livro de Luis Turiba será lançado hoje, no Martinica Café.

A primeira opção para o título seria Poemas selecionados, uma vez que Turiba levou seis meses lendo 800 poemas para escolher 80. “ É o fechamento de um ciclo que começou em 1977, com Kiprokó, editado no Rio. Mas aí uma amiga, com quem conversei muito sobre a edição, me disse que o título era muito acadêmico. Como durante todo o processo de edição perguntei muito, pois sou mais interrogativo que afirmativo, resolvi jogar um título no plural. Escolhi com a Luca, minha namorada-parceira-companheira. E musa. É o plural de Que Tal? São tantos que virou Qtais, quase quintais. Arnaldo Antunes me disse que adorou esse título. Qtal uma parceria?”

A seleção apresenta, de fato, uma zona de conforto para o poeta, onde se mostra muito à vontade nos quintais por onde transita, seja pelas ruas do Rio, pelas estradas de Minas Gerais ou quadras de Brasília. Alguns temas, porém, podem causar algum desconforto ao leitor, como a reflexão sobre o caso Amarildo, ajudante de pedreiro que desapareceu na Rocinha. Nos versos de Turiba ecoam o sentimento de muitos brasileiros: “Enquanto o Amarildo não aparecer / mesmo os seus restos mortais / por mais vivos que estejam / também serei um desaparecido / desta vida de merda e medo / desaparecido de vergonha / de nojo tristeza e vômito / entre o gás lacrimogêneo / tiros de borracha e eletricidade / jatos de spray de pimenta / sem carteira de identidade / bolsa família ou título de eleitor / Amarildo sumiu nas mãos de quem deveria tê-lo protegido / contra as covas dos leões famintos / sumido, o pedreiro é uma pedra viva / no calcanhar de beltranos e sicranos aparecido, é prova contra os bandidos do tráfico do trâmite da repressão bruta e descabida. / Onde está Amarildo? / enquanto não aparecer, também eu serei um des... apa... re... ci... do”.

 

"Poesia não
é leitura,
é paixão.
Não é razão,
é delírio.
Não é estatísticas,
é explosão.
Não é mercado,
é sensibilidade."


Luis Turiba, poeta

 

 (Editora 7 Letras/Reprodução) 

Qtais
Luis Turiba. 7 Letras,
159 páginas. R$ 37.

Lançamento
Martinica Café — CLN 303, Bloco A, Loja 4. A partir das 18h. Entrada Franca. Classificação indicativa livre.

 

 

» Cinco perguntas /Luis Turiba

Como sua poesia se constrói? Precisa de silêncio para criar versos ou se inspira facilmente em meio ao trânsito
constante de vozes?

As anotações são permanentes. Mas na hora do parto, silêncio e concentração. I work in concentration!

Brasília te encanta? Por quê?
Me encanta e tem um capítulo para Brasília. Já ouviu Bico da Torre, em parceria com Renato Matos? Foi a primeira canção a ser gravada por Zélia Ducan, quando ela era Zélia Cristina.

Quem são os poetas favoritos?
Augusto de Campos é o maior poeta brasileiro vivo e um dos maiores do século 20 ao lado de Manoel de Barros. Dos brasileiros, Bandeira, Drummond, João Cabral e Oswald de Andrade entre os modernistas. Fernando Pessoa sempre, em todos os níveis. Dos estrangeiros Maiakóviski, Jorge Luís Borges e Lewis Carroll. Da minha geração, os poetas do grupo OIPOema: Nicolas Behr, Angélica Torres Lima, Amneres, Cristiane Sobral e Bic Prado. Entre os que transformam poesia em música, destaco o Chico Buarque e mais atual o Arnaldo Antunes. Mas o maior de todos com quem convivi foi um poeta gráfico chamado Luis Eduardo Resende, o Resa. Ele me faz muita falta e a ele dedico esse lançamento em Brasília.

De que versos não se esquece?
Algumas canções de Chico Buarque de Hollanda e os versos de Bico da Torre, um dos poucos que sei de cor. Adoro ler meus poemas e os versos de Mensagem.

Acha que a poesia tem menos leitura no Brasil que outros
gêneros? Acha que algumas editoras evitam publicar poesia?

Tem muita gente lendo poesia Brasil afora. Muita gente publicando, muitos recitais, encontros, lançamentos e debates. Mas poesia é o creme de la creme da literatura. Poesia náo é leitura, é paixão. Não é razão, é delírio. Não é estatísticas, é explosão. Não é mercado, é sensibilidade. Está em tudo e não está em nada. É um inutensílio pra mente e pro coração. Poesia salva vidas.

Poesias

Choro sorrindo

O Clube do Choro
É um pedacinho do céu
Na noite de Brasília
É uma sonífera ilha
De sons-maravilhas
Sortidos & Alados

O Clube do Choro
É um bordado
Uma sinfonia
Usina de notas
Brasileiríssimas
Soltas no palco
Iluminado por carícias
Da citara de
Aveno de Castro

Lá, o não é nunca
E o sim tem o som
Sempre sincopado

Quando vou ao
Clube do Choro
Ahh, Chiquinha
Não vou sozinho
Vou sem medo
Quando não bebo


Bashô
Bashô
Bashô o santo
Agora todo Japão é banto

África
Olhai em si
O que não é haicai
É oriki

Teatro Nô
Em jogo de Ifá
My Butterfly
Vai piorubá

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