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postado em 24/03/2014 16:00

Conceição Freitas

Publicação: 24/03/2014 04:00

 

Bolinha e Lourdes, 40 anos de afeto, companheirismo e atividades circenses, que começaram com a chegada do circo à pequena Nhandeara (SP):  
Bolinha e Lourdes, 40 anos de afeto, companheirismo e atividades circenses, que começaram com a chegada do circo à pequena Nhandeara (SP): "Sou bonito, né?"

 

Antes, Bolinha e o irmão Pinguim tinham o Bar dos Anões. Agora, sozinho, é dono de uma distribuidora de bebidas no começo da Avenida Central, na Quadra 14      
Antes, Bolinha e o irmão Pinguim tinham o Bar dos Anões. Agora, sozinho, é dono de uma distribuidora de bebidas no começo da Avenida Central, na Quadra 14

 

O ex-palhaço de circo se entristece quando se lembra da morte do filho, vítima de  assalto, e da má-fé de uma parente distante.  
O ex-palhaço de circo se entristece quando se lembra da morte do filho, vítima de assalto, e da má-fé de uma parente distante. "Não quero machucar ninguém"

 

A dupla Bolinha e Pinguim se apresentou no programa Carrossel, da TV Brasília, na extinta TV Capital, e ainda fazia espetáculos de luta de boxe 
A dupla Bolinha e Pinguim se apresentou no programa Carrossel, da TV Brasília, na extinta TV Capital, e ainda fazia espetáculos de luta de boxe

 

 

 

 

Amor de circo
Quando o circo entrou na pequena Nhandeara (SP), Maria de Lourdes saiu para a rua com a vassoura na mão. Deixou-se levar pelos animais e pelos caminhões. Nem imaginava que, na carreta, um artista circense observava a bela adolescente de pele clara e feições delicadas. Naquela noite, Lourdes conseguiu convencer a mãe a deixá-la ir ao hotel (onde o irmão trabalhava) para ver os anõezinhos do circo que lá estavam hospedados.

Uma semana depois, um dos palhaços do Circo Robartine chegou à casa de Lourdes, sem avisar, com uma mala na mão. “Ponha suas roupas e vamos comigo.” O pai, rude e imperativo, não estava em casa, o que facilitou a fuga. A garota reuniu o pouco que possuía — “nem sapato eu tinha, era só chinelo de dedo” — e subiu no ônibus que os esperava na porta.

Já se passaram 40 anos. “Ela é apaixonada por mim até hoje…. Tem ciúme porque sou meio bonito, né?”, brinca José Antônio da Silva, 65 anos, o Bolinha ou o Anão, apelidos com os quais é conhecido. Bolinha é seu nome artístico. Lourdes se integrou ao circo — foi bailarina, bilheteira, vendedora de pipoca, vendedora de doces. Só não foi trapezista porque o marido não permitia que nenhum outro homem tocasse no corpo dela.

Filho de lavradores, o ainda adolescente Bolinha estava na porta de casa com o irmão, Valdelício, na cidade de Planalto (BA), quando o circo passou. “Quando dou fé, encostou uma kombi perto de nós. Desceu um anãozinho e perguntou: ‘Vocês não querem ir mais nós trabalhar no circo?’”. Valdelício também tem a mesma deficiência nos braços e nas pernas, doença nunca diagnosticada. (“Um médico de São Paulo tentou saber o que era, mas não conseguiu. Lá na minha cidade, Vitória da Conquista, tinha um monte de gente igual a mim e ao meu irmão”, conta Bolinha).

Valdelício aceitou sem piscar. O irmão, menor de 18 anos, teve de pedir autorização ao pai. Quando o circo foi embora de Planalto, os dois irmãos foram junto. “Vocês vão se chamar Bolinha e Pinguim.” Percorreram o Brasil, mudaram várias vezes de circo, até que em 1978 passaram por Brasília. “Vim com o Circo Azambrotas. A situação estava ruim, já tínhamos nosso primeiro filho. O circo estava quase abrindo falência. ‘Lourdes, vamos ficar aqui?’. Ela é daquelas… Se eu disser: ‘Vamos cair?’, ela cai comigo.”

Pipoqueira

Alugaram um quarto em Sobradinho e logo Bolinha conseguiu um emprego na loja SuperG, no Conjunto Nacional. Vestido de palhaço, atraía os clientes com um microfone e com suas estripulias circenses. Pouco tempo depois, Bolinha comprou uma pipoqueira elétrica — sensação da época — e arranjou um cantinho no Conic. Lourdes vendia pipoca e ele continuava no Conjunto.

Pouco depois, o irmão Pinguim veio para Brasília e a dupla se apresentava em shows, no programa Carrossel, da TV Brasília, na extinta TV Capital. Foram longos anos de prosperidade, até que um dos cinco filhos do casal, 17 anos, foi morto a tiros por um ladrão de bicicleta no Recanto das Emas. Com a prisão do assassino, a família de Bolinha começou a ser perseguida e eles tiveram de se mudar para Valparaíso.

Chegaram a São Sebastião em 2001. Bolinha e Pinguim eram donos do Bar dos Anões, no começo da Avenida Central. “Eu não era rico, mas era dono de casa própria, dois carros, tudo… Hoje não tenho mais nada. Só isso aqui. (Bolinha é dono da Distribuidora do Anão, na mesma avenida).” Uma parente (“Não quero machucar ninguém”) fez um rombo nas finanças da família e desapareceu. Pinguim, o irmão, mora em Valparaíso.

As roupas de palhaço seguem passadas, dobradas e cuidadosamente guardadas na gaveta do armário do casal. Bolinha já não tem mais os sapatos de palhaço nem os produtos para maquiagem. Guarda, na gaveta da pequena escrivaninha, dois cartazes, já roídos nas bordas, do tempo em que fazia espetáculos pelo Brasil afora.

“Talvez se eu fosse uma pessoa (fisicamente) normal, não tivesse sido o que fui e o que sou hoje. Vejo aí tantas pessoas normais, que têm braço e perna, com uma vida terrível, que não fazem nada pela vida. Resolvo tudo sozinho, com minha velha grudada em mim.” Lourdes diz que até hoje o marido faz sucesso com as mulheres. Ele ri. O casal espera a chegada do primeiro bisneto.

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