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O menino do "Nobel"

Prêmio Hans Christian Andersen consolida o brasiliense Roger Mello entre os ilustradores mais importantes do mundo

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postado em 26/03/2014 14:00

Vanessa Aquino

Ilsutração para livro sobre as Cavalhadas: pesquisa iconográfica orienta o artista 
Ilsutração para livro sobre as Cavalhadas: pesquisa iconográfica orienta o artista



Foi com grande festa que o público presente na Feira Internacional do Livro de Bolonha, na Itália — composto por ilustradores, escritores e editores de livros infantis e juvenis — recebeu o nome de Roger Mello como o vencedor do prêmio Hans Christian Andersen. O ilustrador brasiliense chamou a atenção durante a premiação por representar ineditismo em vários aspectos, o principal é o de ser o primeiro ilustrador da América Latina a levar o prêmio, considerado o Nobel do gênero.

“A festa ainda está começando. A importância do prêmio é que se trata do maior dedicado ao conjunto de obras de literatura infantil. É a primeira vez que um brasileiro ganha em ilustração”, lembra a presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), Ana Maria Machado.

Entusiasmada, a imortal lembra que a linguagem visual é um aspecto da arte que identifica várias culturas e que o Brasil conseguiu um reconhecimento fundamental para que a cultura do país atinja um patamar de excelência, no que diz respeito à arte. “A linguagem visual é muito próxima do pensamento. Nem todo mundo percebe a estética de cada lugar por meio da ilustração, e isso é muito importante. O júri tende a ser muito eurocêntrico. O Roger já tinha ficado duas vezes como finalista. E esse prêmio é importante para a aceitação de que existe uma estética visual no Brasil.”

O escritor e ilustrador Ziraldo, que também está em Bolonha, ri com alegria ao contar como foi o momento do anúncio do nome de Roger. “O prêmio equivale ao Nobel. É o terceiro que o Brasil ganha e o primeiro na categoria de ilustração (Ana Maria Machado e Lygia Bojunga ganharam como escritora). Foi uma festa. Vejo como uma enorme simpatia pelo Brasil, e a festa estava muito bonita. Os melhores ilustradores estão presentes em Bolonha e todos estão muito contentes pelo Roger. Ele é um grande profissional, é um dos melhores ilustradores brasileiros atualmente. O prêmio cair na mão dele faz todo o sentido.”

Natureza artística
Roger Mello nasceu em 1965, em Brasília, e começou cedo a desenvolver habilidades artísticas. O irmão dele, Marcelo Mello, conta que a trajetória do artista sempre foi marcada pela introspecção. “Ele era muito ligado a inseto, bichinho, animais e desenho. Ao contrário das outras crianças, ficava muito fechado nele e nos desenhos. Tinha um interesse diferente do das outras crianças. Tinha uma capivara que era um personagem de histórias em quadrinhos durante muito tempo”, relata.

Sempre ligado à natureza, Roger passou no vestibular para agronomia na Universidade de Brasília (UnB) e depois foi para o Rio de Janeiro, onde tem uma casa na pedra de Guaratiba. “Uma casinha mesmo em que ele vai para ficar olhando o mar. E minha mãe (Maria Adir) sempre teve a sacação de ver onde ele ia e sempre guardou as coisas que ele fazia.”

Além do trabalho como ilustrador, Roger escreveu peças, algumas para crianças (Boto vermelho, João por um fio) e outras para adultos. A literatura também lhe rendeu prêmios. Recebeu o suíço Espace-enfants, em 2002 e, no mesmo ano, foi vencedor do prêmio Jabuti nas categorias literatura infantojuvenil e ilustração com Meninos do mangue. Com vários trabalhos premiados, tornou-se hors-concours dos prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ).

Colaborou Nahima Maciel



Roger Mello, em entrevista  após receber prêmio:  
Roger Mello, em entrevista após receber prêmio: "O mundo todo está vendo o trabalho dos ilustradores do Brasil"

Quatro perguntas /Roger Mello

Qual a importância desse prêmio para você e para os ilustradores brasileiros?
A importância do prêmio é incrível. Ele é considerado o Nobel da literatura infantil e juvenil. É a primeira vez que um ilustrador da América Latina leva o prêmio. Então, é de todos os ilustradores. Aqui tenho feito contato com o mundo inteiro e isso também é muito importante. O mundo todo está vendo o trabalho dos ilustradores do Brasil.

Você esperava ser escolhido?
Não esperava de maneira nenhuma. As pessoas que são escolhidas pelo IBBY (Conselho Internacional sobre Literatura para os Jovens) costumam ter um trabalho de excelência na Europa. Então, achei que fosse qualquer um dos outros. Todos os ilustradores concorrentes eram maravilhosos.

Como você vê esse reconhecimento para o país, para Brasília e para quem está começando na ilustração?
O trabalho do artista é alimentado pelo sonho e pelo trabalho em si. O importante é ser bastante fiel a suas questões básicas, tentar encontrar a sua filosofia. Brasília é uma cidade de pensadores, como Lucio Costa, Athos Bulcão e Niemeyer, que desenham o pensamento através do traço. O ilustrador de obras infantis, especificamente, tem a oportunidade de levar o livre pensamento para as crianças. Uma criança, com um livro é um ato político e nosso país privilegia o livre acesso. A gente pode investir na nossa força narrativa.

Ilustrar para crianças é um desafio?
É um público muito exigente e muito sincero, que fala o que pensa. O pensamento da criança ainda não tem preconceito. E o livro respeita o senso crítico da criança. É um desafio. A criança escolhe o seu livro. Os grandes ilustradores que fazem livros para crianças adolescentes, todos têm esse desafio. Eles são mais respeitados. A gente, às vezes, faz o livro para uma criança, sem pensar se o livro vai ser vendável.

 

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