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Mergulhos em outros mundos

O artista plástico Carlos Vergara traz para Brasília impressões colhidas em viagens internacionais e uma reconstituição do presídio Frei Caneca, no Rio de Janeiro, que abrigou presos ilustres e visionários da história brasileira

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postado em 27/03/2014 15:00 / atualizado em 27/03/2014 10:34

Nahima Maciel

As viagens acontecem na vida de Carlos Vergara de um modo um pouco ocasional, mas ele trata de transformar a ocasião em imersão. Nada de turismo comum. Quando o artista plástico desembarca em um lugar distante do ateliê no Rio de Janeiro, quer experiências intimistas que o ajudem a vivenciar um pouco da vida e do espírito local. Faz isso colhendo impressões que possa carregar para casa, às vezes com fotografias que depois são distorcidas em suportes que vão da escultura à ilusão de ótica. Outras vezes, prefere os registros em monotipias — impressões em tecidos e papéis feitas com materiais locais — , com as quais pode carregar para casa as características físicas da região. Sudário, em cartaz no Museu Nacional da República, é fruto da sina colecionadora de imagens e experiências de Vergara. “Toda vez que faço uma monotipia, quando coloco o lenço falo ‘oremos’, porque nunca sei o que vai acontecer”, avisa. “Viajar, para mim, é ficar à mercê do lugar, do desconhecido.”

Um dos expoentes da vanguarda carioca, o artista nascido em Santa Maria há 72 anos enxerga o visitante como um convidado e a exposição como um conjunto de estímulos visuais que podem provocar a reflexão sobre as mais diversas temáticas. Ele não gosta de direcionar o olhar ou de deixar tudo explicadinho para o público. Por isso, nem sempre as associações entre as monotipias colhidas pelo mundo e a motivação que as gerou estão explicitadas. “A exposição é um convite, não uma lição. Nem uma aula. É um convite à aventura de ver o invisível do visível”, brinca Vergara. “A arte serve para estimular e treinar o olhar para ser poético.”

A poesia do artista tem início na Índia. Durante o fim da década de 1980, ele viajou a Bombaim e de lá desceu de ônibus pelas províncias do sul do país para visitar templos tântricos que não estão nas rotas turísticas. São desses templos os mosaicos de detalhes apresentados em  Sudário.

Do Cazaquistão, Vergara trouxe uma série de fotografias de pontos de ônibus decorados com motivos geométricos sempre muito coloridos, uma característica da cultura da região. À Capadócia (Turquia), ele foi depois de realizar uma série em São Miguel das Missões (Rio Grande do Sul). “Para mim, as missões são uma experiência humana de alta densidade, é uma história subestimada no Brasil. É uma epopeia mesmo”, diz. A história da catequização de índios por padres jesuítas levou Vergara ao outro lado do mundo. “São Miguel foi uma experiência de cristianismo primitivo, os índios eram bugres, então fiquei com vontade de ir para o cristianismo primitivo original”, conta.

Imerso na religião
Pela Capadócia passaram os santos importantes para o cristianismo, como São Paulo. A região também serviu de pátria para os primeiros cristãos. O pai de Vergara era um padre anglicano, e o artista cresceu imerso na religião. Daí a curiosidade por tudo que é relacionado ao cristianismo. Algumas monotipias da exposição trazem resíduos do solo da Capadócia, que também aparece em fotografias. No centro do Museu, um enorme mosaico de tapetes com imagens dos lugares pelos quais Vergara passou convida o público a se sentar no chão e conversar. Mas é no exterior, ao lado do espelho d’água, que está Liberdade, a obra mais contundente de  Sudário e uma reconstituição das celas do presídio Frei Caneca.

O prédio foi construído em 1850 e que abrigou os presos políticos mais famosos do Brasil — de Olga Benário e Luís Carlos Prestes a Graciliano Ramos —,  foi implodido em 2010 para dar lugar a um conjunto de apartamentos populares. “Uma lista incrível dos primeiros libertários brasileiros passaram por lá, abolicionistas, combatentes da ditadura”, conta o artista, que filmou a implosão, recolheu restos do presídio e fez uma série de monotipias no local. Liberdade  reproduz  celas e carrega uma conotação política e um recado que Vergara enfatiza: “Eu quis colocar na Esplanada como um alerta para Brasília. É uma forma de dizer ‘aproveitem enquanto vocês podem ver de fora, porque um dia vocês vão ver de dentro’”.


Sudário
Exposição de Carlos Vergara. Visitação até 11 de maio, de terça a domingo, das 9h às 18h30, no Museu Nacional da República (Complexo Cultural da República).


“A exposição é um convite, não uma lição. Nem uma aula. É um convite à aventura de ver o invisível do visível. A arte serve para estimular e treinar o olhar para ser poético”
Carlos Vergara, artista plástico
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