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Correio Braziliense

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Dedicação total à alegria

Passada de geração em geração, a arte de entreter o respeitável público supera todos os percalços que a vida nômade impõe. Palhaços, mágicos, equilibristas, contorcionistas, todos são os homenageados de hoje, o Dia do Circo

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postado em 27/03/2014 16:00

Maryna Lacerda

Há 26 anos, Furreca encanta o público com suas palhaçadas  (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Há 26 anos, Furreca encanta o público com suas palhaçadas

Das duas acepções da palavra sedentarismo, nenhuma se aplica à vida dos circenses. De cidade em cidade, eles constroem uma carreira em que o corpo é o instrumento de trabalho. Contorcionistas, equilibristas, mágicos e palhaços utilizam braços, pernas e expressões faciais para conquistar sorrisos do público. No picadeiro, gerações de artistas desfilam a arte que aprenderam com pais e avós. Aos filhos e netos, repassam a habilidade de encantar, desenvolvida à custa de muito esforço e alguns percalços. O amor pelo que fazem os estimula a seguir viagem, apesar das estradas ruins, da chuva torrencial e, muitas vezes, do aperto financeiro.

Na primeira vez que Cleiton Pereira da Silva, 29 anos, pisou o picadeiro, ele estava ao lado do avô, mágico. Com apenas 3 anos, o hoje palhaço Furreca participou de um número que revelaria a área que abraçaria. “A primeira coisa que toda criança aprende a ser é palhaço. Eu permaneci por causa da alegria que esta roupa traz às pessoas, principalmente aos mais novos”, explica. “Eu subi ao palco chorando. Depois, me acostumei e adquiri gosto”, lembra. Silva renova as apresentações periodicamente. “Tem que se atualizar, porque circo é um mercado e a gente não pode ficar para trás”, destaca.

Fabrício da Cunha voa sobre a plateia vestido de Homem-Aranha (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Fabrício da Cunha voa sobre a plateia vestido de Homem-Aranha

De olho nas músicas mais atuais, Luciano José Eguino, 16 anos, o palhaço Formiguinha, monta seu espetáculo. Trechos de Lepo-Lepo, do grupo Psirico, de Show das Poderosas, da funkeira Anitta, e de canções do sertanejo universitário ilustram a clássica esquete em que o palhaço é um funcionário que deixa de fazer seu trabalho para dançar e cantar tudo o que toca no rádio. O patrão exige o silêncio, e a cena se desenrola com o embate entre música e silêncio.

Integrante da sexta geração de circenses, Luciano conta que enfrenta dificuldades para dar continuidade aos estudos. “Muitas escolas têm preconceito com quem é circense. Já teve algumas que se recusaram a me matricular, sendo que há uma lei que nos garante estudo em todas as cidades a que chegamos”, reclama. Ao contrário do que acontecia no passado, os jovens que vivem em circos são incentivados a estudar. “Essa história de que não tem tempo não existe. A gente trabalha à noite, durante alguns minutos. É possível treinar e frequentar o colégio, sim”, confirma o rapaz, que está no 1º ano do ensino médio.

Aos 16 anos, Luciano Eguino usa as músicas da moda em sua apresentação (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Aos 16 anos, Luciano Eguino usa as músicas da moda em sua apresentação

Referências
Ao buscar inovações para os shows, os artistas têm a internet como aliada. Por meio de vídeos e sites que tratam das técnicas circenses, o equilibrista Fernando Oliveira Caminhã, 23 anos, aprendeu a apoiar no queixo garrafas, escadas e até mesmo uma criança em uma cadeirinha. Ele chegou ao circo aos 16 anos, quando fugiu de casa, em Riachinho (TO), para seguir a companhia que tinha feito uma temporada na cidade. “Entrei para o circo para erguer e recolher as lonas. Com 18 anos, comecei a praticar alguns truques que aprendi na internet e, cinco meses depois, já estava no picadeiro”, conta.

Para desvendar as técnicas com fogo, por sua vez, Fernando contou com a ajuda de amigos mais experientes. “Conheci pessoas em outros circos por onde passei e elas me contaram como fazer o número em segurança”, diz. Ainda assim, ele já queimou o rosto durante uma performance. “Fazemos a apresentação com querosene, e o que eu utilizei era mais concentrado do que o indicado. Quando soprei o fogo, ele não apagou, ficou no meu rosto. Saí correndo e apaguei as chamas no tecido da contorcionista”, narra, com naturalidade. Por sorte, ele não ficou com nenhuma sequela.

Os sorrisos do público, especialmente o infantil, são a recompensa maior (Iano Andrade/CB/D.A Press) 
Os sorrisos do público, especialmente o infantil, são a recompensa maior

Acostumado a desafiar as alturas com o uniforme do Homem-Aranha, Fabrício da Cunha, 37 anos, pensou que desistiria da profissão quando caiu de cerca de 10m e fraturou o crânio. Ele estava em Teresina e tinha acabado de iniciar sua sequência de giros, sem tela de proteção, quando se desequilibrou. “O público achou que eu tinha morrido, rezaram até uma missa para mim. Mas, um mês depois de tirar os pontos, eu já tinha voltado à ativa. Não consigo ficar parado”, justifica.


Legislação

A Lei nº 6.533/1978 garante aos filhos de artistas itinerantes a matrícula na escola da rede pública mais próxima de onde os pais estiverem trabalhando. As instituições particulares também são obrigadas a receber os estudantes.
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