SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

O caminho para a cidadania

Pode ser num centro olímpico ou em campo de terra. o importante é que crianças e jovens têm encontrado no esporte a saída da exclusão

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 27/03/2014 16:51 / atualizado em 27/03/2014 17:39

Marcelo Abreu, Especial para o Correio /d , Matheus Teixeira

Tina coelho/ESP.CB/D.A PARESS
De longe, ela sorri. O sorriso é encantador. Está sentada na sua inseparável cadeira de rodas. Gabriela Vieira, de 13 anos, tem paralisia cerebral. É  umas das 2,5 mil adolescentes que frequentam o Centro Olímpico de Ceilândia (Parque da Vaquejada), no P Norte. Ali, parceria celebrada há três anos entre a Secretaria de Esportes do Governo e a Fundação Assis Chateuabriand, Gabriela tem acesso a um novo mundo.

Fez natação, mas agora pratica bocha adaptada — tipo de jogo que lança bolas coloridas o mais perto possível de uma bola branca chamada de jack (conhecida no Brasil como bolim).

Gabriela sabe o que faz. Sorri para o professor quando a sua jogada se aproxima da bola branca. Isso tudo a ajuda no equilíbrio e na coordenação motora. Antes do Centro Olímpico, ela não tinha uma atividade externa. “Ficava numa tristeza grande e não tinha vontade pra nada”, conta a mãe, a dona de casa Maria Zélia Vieira, de 43 anos, incansável no bem-estar da filha. Duas vezes por semana, sai do Sol Nascente e chega até o Centro Olímpico.

O professor de Gabriela, Dimas Rebouças, 46, é só elogio à aluna. “Ela participou das Paralimpíadas Escolares em São Paulo.“A mãe completa, cheia de orgulho: “Tem 12  medalhas, de ouro, prata e bronze”. E é ali, naquele lugar, no meio daquela gente, que Gabriela encontrou o seu caminho. Não só ela, mas outros tantos adolescentes e adultos carentes da região que jamais teriam acesso a uma atividade esportiva. “É tirar da rua e trazer pro esporte. Mas, mais do treinar atleta, o objetivo do projeto é formar cidadãos com autoestima e valores “, explica Rodrigo Bahia, 31 anos, gerente pedagógico do Centro olímpico.
Tina coelho/ESP.CB/D.A PARESS
Tina coelho/ESP.CB/D.A PARESS

Corrida para a vida

Todas essas boas histórias estão sendo escritas por moradores de um dos lugares mais carentes de Ceilândia, o Sol Nascente — hoje, a maior invasão do DF,  a nova Ceilândia, como alguns  chamam, onde vivem cerca de 80 mil pessoas. É de lá que vem grande parte dos alunos matriculados no Centro Olímpico. Raniere Cosmo, de 13 anos, é um menino franzino. Filho de uma zeladora, a luta é diária. Entrou para o atletismo e se especializa em corrida de meio fundo. Com sapatilha doada, ele participa do projeto Futuro Campeão. “É isso que quero pra minha vida”, diz.

Ele quer correr contra as dificuldades, a vida sofrida que leva com a mãe em Ceilândia. Raniere quer o lugar a que tem direito. O técnico dele, João Filho, 27 anos, acredita no potencial do garoto. “Ele tem muita vontade. Pode ir longe.”

Se Raniere sonha, Vanessa Beatriz Silva, 13, do P Norte, também quer fazer bonito na suavidade dos seus passos. Aluna da ginástica rítmica, uma de suas maiores incentivadoras é a professora Pâmela Mamede, 23. Numa competição em Taguatinga, ela  conquistou uma medalha de ouro. O pai, açougueiro, quando a filha tem competição,  larga tudo para assistir. “Ele torce muito por mim. Toda vez chora”, diz, comovida, a adolescente.

Várzea
E quem pensa que é só nos Centros Olímpicos que o esporte aflora, engana-se. Não tem hora nem local. É só procurar que, em algum canto da cidade, tem uma turma jogando uma pelada. Os campos estão espalhados por todos os lados, e a cultura de reunir a vizinhança para jogar futebol existe antes mesmo de Ceilândia existir – com as pessoas transferidas da Vila do IAPI para o norte de Taguatinga, também foram os times. O atual Ceilândia Esporte Clube, por exemplo, era amador, formado por moradores das invasões, e chamava-se Dom Bosco.

Diferentemente do Ceilândia Esporte Clube, muitas equipes não se tornaram profissionais, mas disputam os campeonatos de várzea até hoje e têm mais de três décadas de história, como o Juventus. Os torneios, que começaram antes mesmo de todos os invasores serem realocados, cresceram de acordo com a cidade e hoje reúnem mais de mil expectadores em dias de decisão.



 
Tags:

publicidade