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FORA DO PLANO - PLANALTINA »

Artesã da folia, artista da fé

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postado em 31/03/2014 19:00

Sala de visita de Rozeli Costa: mandalas, bandeira do Divino, estandartes, objetos que guardam o sentido da religiosidade do Brasil profundo     (Janine Moraes/CB/D.A Press) 
Sala de visita de Rozeli Costa: mandalas, bandeira do Divino, estandartes, objetos que guardam o sentido da religiosidade do Brasil profundo


Pequenos enfeites que a artesã vai recolhendo para compor as peças: laços, contas, fitas, linhas, flores de plástico... (Janine Moraes/CB/D.A Press) 
Pequenos enfeites que a artesã vai recolhendo para compor as peças: laços, contas, fitas, linhas, flores de plástico...


Rozeli Costa faz os estandartes num quarto de sua casa. Junta tecidos e fitas coloridas, imagens de santos, mas não sabe o preço   (Janine Moraes/CB/D.A Press) 
Rozeli Costa faz os estandartes num quarto de sua casa. Junta tecidos e fitas coloridas, imagens de santos, mas não sabe o preço
As folias surgiram para dar conta da religiosidade do povo sertanejo das profundezas do Brasil. Como a Igreja Católica não alcançava o sertão de Goiás e Minas, a população criava o próprio teatro de fé. Foi nesse ambiente que a goiana de Cavalcanti Rozeli Costa nasceu. Ela, os pais, os avós, os bisavós… Gente que conviveu a vida toda com os calungas, praticantes de uma folia singela, antiga como o quê.

“De pequena, ouvia o batido da caixa”, conta Rozeli. O ritmo lento e intenso anunciava a chegada dos foliões. Eram muitas folias — as do Divino, de Reis, de Nossa Senhora de Santana, de São João. Igualmente forte são as lembranças da mãe, Teresinha, sentada na máquina de costura, dia e noite, noite e dia, para assegurar a sobrevivência dos onze filhos. “Aos 12 anos, já ajudava minha mãe a costurar. As irmãs mais velhas iam crescendo e cuidando dos mais novos”. De Cavalcanti, a família mudou-se para Formosa e de Formosa para Planaltina, onde boa parte dela vive até hoje.

Demorou para que Rozeli percebesse que dentro dela havia uma profusão de imagens religiosas misturadas à delicadeza do ofício de costureira. Há 15 anos, já casada e com filhos, fez o primeiro altar de folia — “daí comecei a me apaixonar pelas festas”. Algum tempo depois, costurou a primeira bandeira — “Foi um sucesso. Nem eu sabia que podia fazer isso”. Há três anos, vendo-se desempregada, Rozeli saiu à procura de alguma atividade que a encantasse. Buscava o que há muito havia encontrado. “Comecei a pesquisar a folia na internet e vi a magnitude da folia no interior do Brasil”.

Fez o primeiro estandarte — e guardou. Fez o segundo, o terceiro. Fez mais de 50 — e guardou todos. “Não consigo vender. Eles tinham (e têm) um significado tão grande pra mim que nenhum dinheiro pagaria.” Na casa-ateliê de Rozeli, numa das principais avenidas de Planaltina, perto da Igreja Matriz, há uma profusão de estandartes, bandeiras e mandalas com a pomba branca, o Divino Espírito Santo.

Algumas das peças de Rozeli foram parar em mãos célebres — Almir Sater e Zé Mulato e Cassiano têm estandartes da artista/artesã. “Graça Veloso (pesquisador da folia, autor de A visita do Divino) disse que sou artista”. Mas Rozeli ainda não sabe avaliar o preço de cada uma de suas peças. “Já fui a Anápolis comprar veludo para fazer um estandarte”. Fitas, tecidos, contas, bordados, linhas, madeiras, peneiras, porta-copos, camisetas com imagens sagradas, peças de crochê — tudo pode servir para compor um estandarte, uma mandala, uma bandeira, paramentos da liturgia do Divino.

A artista da folia planeja montar um ateliê para a venda de suas peças, mas por enquanto a produção segue escondida numa casa de fundos, onde funciona também um salão de beleza. Rozeli é cabeleireira, ofício a que continua a se dedicar para atender antigas clientes. No dia em que o Correio foi à casa dela, o cunhado e a sogra faziam pamonha. Ele ralava o milho e ela peineirava a massa. Foi-nos servido café, pamonha, queijo feito em casa e pão de queijo idem. Sob a proteção do Divino.
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