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Ritmo e poesia pela vida

Antes associados à violência, o rap e o hip-hop tornaram-se instrumentos para retirar jovens do ambiente de criminalidade no Distrito Federal e no Entorno. Evento em Taguatinga, "Batalha de Neurônio", valoriza artistas brasilienses

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postado em 04/04/2014 16:00 / atualizado em 04/04/2014 11:04

Guilherme Pera

Iano Andrade
Henrique Eusébio Nunes tem apenas 23 anos, mas já viu tragédias para uma vida inteira. Morador de Águas Lindas (GO), ele diz ter presenciado mais de cem pessoas, entre amigos e conhecidos, para o vício em drogas ilícitas, o alcoolismo e a violência. “Aqui, desde pequeno, tem que aprender a lei da vida. É fácil virar vítima, como foram com os dois irmãos mais velhos do meu amigo Alisson, mortos por acerto de contas no tráfico de drogas”, conta. O garoto quer trilhar outro caminho. Desde os 7, quando aprendeu a ler e ouviu Racionais MCs pela primeira vez, Henrique sonha em ser rapper.

Alisson Soares, o amigo citado por Henrique, tem a mesma idade do rapaz. Cresceram juntos e começaram a fazer os primeiros versos um ao lado do outro. Ambos tinham aulas de capoeira, nas quais cantavam ao ritmo do berimbau. Ficavam no local após o término do curso e brincavam de fazer as próprias rimas. Quando viram, já compunham canções completas.

Torcedor do Corinthians, Henrique também se imaginava fazendo gols pelo Timão, como o ídolo Ronaldo Fenômeno. Nos últimos três anos, porém, começou a se destacar como MC. “Dizem que o rap é música de ladrão, mas, na verdade é, junto do futebol, a principal alternativa para termos uma vida boa por aqui. O hip-hop conscientiza”, diz o garoto, nascido em Alvorada do Norte (SP), alfabetizado em Ceilândia e morador de Águas Lindas desde os 7. “Muita gente para de sonhar e se joga num caminho sem volta. Não sou assim”, afirma o rapaz, conhecido na comunidade hip-hop local como Ndr.

A história de Henrique não é única. O Distrito Federal — com a ajuda dos artistas do Entorno — é o principal centro da cultura hip-hop do Brasil depois de São Paulo. Desde o fim dos anos 1980, quando a cidade era conhecida como a capital do rock, o rap já era o som da periferia da região, principalmente em Ceilândia, local da infância do rapaz. “Comecei a fazer rap em 2011. Até então, era uma pessoa perdida. Pensei em ir pelo caminho do crime”, confessa Caio Novak — ou Mano Novak—, 22, amigo e “rival” de Henrique nas rimas (veja vídeo no site).

O sociólogo da Universidade de Brasília (UnB) Breitner Tavares, morador de Ceilândia, estuda o hip-hop no DF há 10 anos. Ele é o autor do livro Na quebrada, a parceria é mais forte (2012). O pesquisador diz que o rap deu voz à periferia. “Até os anos 1980, Ceilândia e as demais cidades — chamadas de satélites — apareciam apenas nas páginas policiais. O rap colocou os garotos nos cadernos de cultura”, observa.

Uma das personalidades da época descrita por Tavares é Genival Oliveira Gonçalves, o GOG. Prestes a completar 50 anos, ele sabe bem o que é ser tratado como ladrão. Certa vez, o autor da música Brasil com P estava em um supermercado e foi checar o preço de um produto. Estava de jaqueta e não saiu pelo caixa. Foi filmado, abordado e levado para a sala de segurança, onde pediram para esvaziar os bolsos. “Os seguranças riram da minha cara; alguns deles negros como eu”, lembra. No lugar da violência, GOG usou os versos. “O rap conta a história de quem sofre. Muitas vezes é o negro. Por isso, é visto como música de ladrão”, explica.

Talentos
Conscientizar os jovens, explicar aos possíveis futuros talentos a importância de se trocar as armas pelas rimas, é o objetivo de muitos rappers. É o caso de Nauí Movni. O morador de Taguatinga é, ao lado dos também MCs Biro Biro e Meleca, o idealizador da Batalha do Neurônio — evento itinerante que atualmente se encontra na área externa do Taquaparque, às 14h do último sábado de cada mês. “Uma das características do rap são as batalhas freestyle, nas quais os MCs devem inventar rimas na hora e um deve superar o outro”, diz.

A diferença da batalha promovida por Nauí e a turma é o fato de a plateia “jogar” junto. Os espectadores escolhem um tema e os rappers devem fazer rimas sobre o que foi proposto, sem xingar os competidores. O evento já foi levado para centros de menores infratores, como o Centro de Internação de Adolescentes Granja das Oliveiras (Ciago). “Existem muitas tentativas de ajudar os jovens, seja por programas sociais, seja pela igreja. Mas nós, do rap, estamos toda hora nas ruas, assim como os garotos. Então, eles nos entendem, ficam interessados pelos ensinamentos e se envolvem com a música”, conta Nauí.

É uma questão de mexer com a autoestima dos garotos. Henrique nasceu com poucos bens materiais, sofreu racismo no colégio e viu amigos perderem a vida para o tráfico de drogas. Poderia pensar que nada o faria ser alguém. “Mas eu tinha uma madrinha, a Maria das Graças, que me ajudou a aprender a ler. E um mano, o Brown (Mano Brown, rapper), que me ensinou, por meio do rap, a não me se sentir inferior.”

Mapa das batalhas

A Batalha do Neurônio é um dos eventos do rap brasiliense. Confira programação das
batalhas de MCs em diferentes regiões administrativas do DF. Todas são abertas ao público.

» Selva de Rimadores (Praça do Cidadão, Ceilândia). Primeiro sábado de cada mês, às 14h
» Batalha da Santinha (Praça da Santinha, Santa Maria). Segundo sábado de cada mês, às 14h
» A praça é nossa (Praça da Etapa A, Valparaíso de Goiás). Terceiro sábado de cada mês, às 14h
» Batalha do Neurônio (Taguaparque, Taguatinga). Último sábado de cada mês, às 14h
» Batalha do Museu (Museu Nacional Honestino Guimarães, Esplanada dos Ministérios). Todos os domingos, às 16h


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Veja vídeo e ouça músicas dos artistas citados na matéria no site.
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