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Fim da cena. O ator se despede

Velório de José Wilker é marcado por lembranças de amigos sobre a carreira de um dos grandes nomes da dramaturgia brasileira

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postado em 07/04/2014 15:00 / atualizado em 07/04/2014 13:43

Diego Ponce de Leon , Mariana Vieira

Artistas e populares foram dar o último adeus ao ator, morto no último sábado vítima de um ataque cardíaco fulminante (Adriano Ishibashi / Frame / Agência O Globo) 
Artistas e populares foram dar o último adeus ao ator, morto no último sábado vítima de um ataque cardíaco fulminante
 

Familiares, amigos e fãs lotaram o Teatro Ipanema (RJ) para se despedir do ator e diretor José Wilker. Vítima de um infarto fulminante, no sábado, o artista de 69 anos foi cremado por volta das 18h de domingo, no Memorial do Carmo, na Zona Portuária da cidade. A cerimônia foi apenas para família. No velório, aberto para o público, estiveram presentes, entre outros artistas, Monica Torres, ex-mulher de Wilker; a jornalista Claudia Montenegro, atual namorada; os atores Milton Gonçalves, Beth Faria, Andréa Beltrão, Renata Sorrah, José Mayer e Tony Ramos; o diretor Dennis Carvalho e o autor de novelas Gilberto Braga.

Além das mais de 20 coroas de flores — enviadas por amigos como Nicette Bruno, Zezé Polessa e Faustão —, estavam a bandeira do Flamengo, time de coração do artista, fotos dos personagens mais importantes e cartazes de espetáculos que Wilker encenou no Teatro Ipanema: A China é azul (1972) e O arquiteto e o imperador da Assíria (1970), a primeira peça em que se apresentou no Rio. O ícone do cinema brasileiro tinha como marca registrada as meias e os tênis coloridos que costumava usar. Por isso, foi velado com um calçado cor-de-rosa.

“Há anos, Wilker adotava uma dieta ayurvedica (dieta indiana que usa um conjunto de temperos para prevenir doenças). Há 20 dias, nos encontramos e ele estava bem, não se queixava de nada. Era um homem fantástico e isso ficará marcado. Um brincalhão, até nesse momento de ir embora tão cedo”, contou Stênio Garcia, no velório. A simpatia do ator e diretor também foi lembrada por Giuseppe Oristano: “Foi uma morte precoce. Estou com uma sensação de perda muito grande. Ele era uma pessoa bem-humorada e deve estar rindo disso tudo”.

Emocionada, Beth Goulart lembrou que um dos últimos trabalhos do pai, Paulo Goulart (morto em 13 de março), foi com Wilker, no filme Giovanni Improtta (2013). “Ele era um homem do cinema, do teatro e da tevê. Ele representava a arte. Nossos filhos têm uma relação familiar. Esse é um momento muito difícil. Quando meu pai morreu, a Mariana (filha do Wilker) me mandou um e-mail maravilhoso. Então, eu tinha que estar aqui. Nós ficamos com a arte de nossos pais. Temos que demonstrar o nosso afeto com palavras e com carinho”, disse.

Ney Latorraca, que conheceu o diretor no fim da década de 1960, destacou o respeito da classe artística para com Wilker: “Ele era muito amado. Impressionante como todos, sem exceção, tinham uma admiração
sagrada por ele, pela maneira que se comportava. Fora o currículo, repleto de trabalhos tão importantes do panorama cultural”.

Entre as recordações pessoais, Latorraca guarda na memória os bastidores da peça Capitanias hereditárias, na qual dividiam o palco. “Eu fazia uma chantagem enorme com ele. Ele me mimava. Era muito sensível. Sempre me trazia orquídeas, por exemplo, pois sabia que eu adorava”, revelou. Amigos próximos, nunca perderam contato. “Sempre nos víamos. Nosso último contato aconteceu por telefone, há cerca de um mês.”

Triste adeus

Caetano Veloso foi um dos amigos de velha data que prestaram homenagem nas redes sociais. O cantor e compositor baiano deixou depoimento sobre o tempo em que dividiu residência com o ator, em meados da década de 1960. “Morei com Wilker num apartamento na Senador Vergueiro quando vim para o Rio. Era uma ‘república’ compartilhada com Nenem e Lopes Cansado.” Ele recorda da impressão que tinha do colega de quarto. “Eu achava Wilker lindíssimo. Ele era bem magro e usava óculos. Tinha pinta de intelectual e não de galã, mas eu dizia que ele era um galã.”

A cantora Fafá de Belém também compartilhou lembranças do mesmo período. “Em 1970 fui
morar no Rio. Uma turma deliciosa me recebeu e me conduziu para a vida. Éramos leves, muito leves... É difícil não ter mais o Zé por aqui”, lamenta.

Entre os colegas de profissão, muitos ainda estavam atordoados com a morte do amigo. “É um momento de muita dor. Falei com ele na véspera (sexta-feira) e combinamos de nos falar novamente na segunda. É uma grande perda para o Brasil", comentou Marcelo Serrado. O ator foi dirigido por Wilker na adaptação teatral de Rain man.

Mas nenhuma amiga foi tão enfática quanto Susana Vieira. “Sou a maior viúva de todas as atrizes. Que me desculpem os outros atores, mas o Wilker era especial”, disse a veterana atriz. O ator Stepan Necerssian, um dos muitos que compareceu para prestar uma última homenagem, lembrou trabalhos ao lado de
Wilker. “Ele foi um protagonista da própria vida.”

Últimos trabalhos

Ontem a assessoria do ator corrigiu a data de nascimento dele: 20 de agosto de 1944, em Juazeiro do Norte (CE). Filho de caixeiro viajante, ele foi ainda criança para Recife, cidade onde começou a carreira como figurante de teleteatro na TV Rádio Clube. Intérprete de personagens inesquecíveis — como Mundinho Falcão (Gabriela), Vadinho (Dona Flor e seus dois maridos), Lorde Cigano (Bye bye Brasil) e Giovanni Improtta (Senhora do destino), ele fez a última aparição na tevê em 2 de abril, no Vídeo Show (TV Globo). Na ocasião, o ator e diretor relembrou o papel na novela Roque Santeiro e deixou as marcas das mãos registradas na calçada da fama do programa.

Wilker, que estava ensaiando uma peça com o amigo Ary Fontoura, participou do folhetim Amor à vida (2013-2014), de Walcyr Carrasco, como o médico Herbert. Ele também fez a narração do documentário — dividido em quatro capítulos e exibido desde ontem no Esporte Espetacular (TV Globo) — em homenagem ao piloto de Fórmula 1 Ayrton Senna (1960-1994).

Artigo

por Alexandre Gaioto

Genial em
seis segundos

Todo mundo tem um Zé Wilker favorito: o bicheiro fanfarrão do Giovanni Improtta, o Roque Santeiro, o intelectual blasé dos graves comentários do Oscar. Meu Zé Wilker predileto é um ex-contínuo. Sujeito decente e perdido de amor, ele encara a tenebrosa missão de pedir a mão da mulher amada ao pai dela. Seu futuro sogro é, também, seu patrão há 11 anos: tipão ruim, malfazejo e maldito.

Engomado, Wilker veste um terno preto elegantemente combinado com gravata cinza e uma camisa com exóticos detalhes retangulares. Sentado no sofá da sala, ele revela os planos nupciais à mãe da moça, ao cunhado e ao pai. Seu discurso, porém, é interrompido bruscamente. Quem toma a voz é o pai tirano, que passa a debochar da situação toda: um contínuo, ali, pedindo a mão de sua filha.

Wilker se controla, alvo dos ataques irônicos. Fere o sarcasmo na pele. Envergonhada, a mãe se retira da sala. Irritado com o silêncio de Wilker, o pérfido ordena, aos berros, que ele fale. O rapaz se levanta, alegoria de todos nós: quantos não temeram uma vez na vida a rejeição do sogro? Calmo, deixa a xícara na mesa. E anuncia, aos gritos, a demissão do emprego e a desistência do casório, já se preparando para a sua melhor cena.

A cena toda dura seis segundos. Wilker em pé. Os dois sujeitos sentados. Então, o brado retumbante explode na goela do rapaz, que se dirige ao algoz: “Eu sou um ex-contínuo; e você, um filho da p...!”, berra Wilker, sem perder a postura elegante. Silêncio. O nosso herói vira as costas, dá seis passos em direção à porta. Antes de sair da casa, ele encara novamente o opressor e enche a boca para pronunciar cada sílaba: “Seu filho da p...!”, grita Wilker, encerrando a cena concisa, antológica, feérica.

Só esses seis segundos de Bonitinha, mas ordinária, adaptação da peça de Nelson Rodrigues, já seriam o suficiente para que a carreira de Zé Wilker fosse genial. Mas ele foi além. Bye bye Brasil e Dona Flor e seus dois maridos: aquilo não é pra qualquer um. Gente da gente, fez tipos populares, apropriando-se das variações linguísticas. Encarnou Giovanni Improtta, personagem baseado num figurão de um livro do Aguinaldo Silva, O homem que roubou o Rio de Janeiro, publicado na década de 1970. O Giovanni da novela das nove caiu tão bem nas graças do povão que, além dos bordões, rendeu até um segundo livro a Aguinaldo (Prendam Giovanni Improtta, 2005), que também assinava a autoria da noveleta televisiva — não me lembro de outro caso desses na literatura brasileira.

 Esculhambado e elegante, transitando entre o erudito e o massivo, Wilker virou personagem de si próprio. Se ele entrasse num restaurante, fatal: alguém sempre o notava e caía na risada. Na transmissão do Oscar, como não achar graça naquilo tudo? Wilker parecia articular a mais perversa ironia, rindo, em silêncio, da pomposidade dos neo-cinéfilos e dos pseudo-intelectuais. Escarnecendo, quieto, o conglomerado de picaretas da indústria cinematográfica. Mandando-os todos às favas, satirizando-os na postura blasé. Wilker, para mim, será sempre humor. Eterno heroico ex-contínuo.

Alexandre Gaioto é jornalista
e crítico literário

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