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A arte do pessimismo

Grupo de quadrinistas de Brasília cria desenhos com críticas às pessoas obcecadas na busca pela felicidade

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postado em 07/04/2014 20:00

Rebeca Oliveira /

Daniel Lopes  (Coletivo Batata Frita Murcha /Divulgação ) 
Daniel Lopes
Gabriela Masson  (Coletivo Batata Frita Murcha /Divulgação ) 
Gabriela Masson
Heron Prado   (Coletivo Batata Frita Murcha /Divulgação ) 
Heron Prado
Augusto Botelho   (Coletivo Batata Frita Murcha /Divulgação  ) 
Augusto Botelho
Heron Prado, Augusto Botelho, Daniel Lopes e Gabriela Masson, do coletivo de quadrinhos Batata Frita Murcha     (Carlos Vieira/CB/D.A Press ) 
Heron Prado, Augusto Botelho, Daniel Lopes e Gabriela Masson, do coletivo de quadrinhos Batata Frita Murcha
 


O enredo é comum a coletivos artísticos do Distrito Federal: jovens estudantes de artes plásticas, na casa dos 20 e poucos anos, conversam e compartilham esboços de desenhos no intervalo das aulas. O cenário é a Universidade de Brasília (UnB), e os protagonistas, os cartunistas Heron Prado, Augusto Botelho, Daniel Lopes e Gabriela Masson, dispostos a criar tirinhas e cartoons com linguagem subjetiva. Nada de humor simples e perecível. A ideia era dar lugar à ironia e ao pessimismo — ou, em outras palavras, à cultura da “antifelicidade”. Em uma madrugada ociosa, criaram o Batata Frita Murcha. No próximo dia 13, o coletivo completa um ano de existência e a expressiva marca de 20 mil fãs em uma rede social.

Em uma sociedade obcecada em alcançar a felicidade, o Batata Frita Murcha optou pela corrente inversa. Temas como frustração e desilusão são recorrentes. “Tentamos subverter a ordem natural de quadrinhos, por exemplo, com o texto divergindo um pouco da imagem. No Brasil, há muita tradição com tira e cartoon. Mas, em redes sociais, a maioria deles são felizes e trazem mensagens positivas”, comenta Daniel Lopes.

A escolha do nome, segundo Augusto Botelho, segue a mesma lógica. “Não há nada mais triste que comer batata frita murcha”, brinca. Para Heron Prado, o objetivo é trazer reflexão. “O Laerte, por exemplo, faz tirinhas que podem ser consideradas engraçadas, mas são irônicas. O humor, basicamente, é levar uma pessoa de um lugar psicológico a outro, não necessariamente fazê-la rir”, comenta. “O público se projeta nas tirinhas até quando desenhamos sobre algo mais específico que vivemos”, acrescenta Gabriela Masson.

Diante do sucesso da página e questionados sobre a possibilidade de viver de quadrinhos em Brasília, o quarteto é otimista. “É um mercado em crescimento, principalmente, por causa da internet e das plataformas de crowdsourcing. Ganhar a vida com isso ainda não é algo real, mas, com a renda de outros desenhos e ilustrações de trabalhos freelancers que fazemos, dá para pagar as contas”, pontua Augusto Botelho.

Autopublicação

O Batata Frita Murcha vai de encontro a outros coletivos brasileiros que aderiram a autopublicação. As editoras são substituídas e, em seu lugar, entram as redes sociais e as fanzines impressas com verba conquistada em sites de financiamento coletivo (como fizeram em junho de 2013, ao lançar uma versão impressa das tirinhas do Dia dos Namorados). Para gerenciar a página, o quarteto mantém um esquema cíclico de postagem. Os quadrinhos se diferenciam pelas cores que devem estar presentes nas tiras — rosa, azul, vermelho e amarelo, que pertencem, em sequência, a Gabriela (que assina como Lovelove6), Daniel Lopes, Heron e Augusto Botelho. Na hora de elaborar uma nova tira, adequam-se ao material ou ao formato que desejarem. “Estamos livres para testar de tudo. Eu, por exemplo, tenho trabalhado bastante com lápis”, afirma Lopes. “A Gabriela duplica a imagem das tirinhas que cria, conseguindo um efeito que se assemelha a um erro de impressão, quase em 3D”, completa.


20 mil
Quantidade de fãs do Batata Frita Murcha em uma página da internet

"Fiz uma tirinha totalmente deprê. Refletia sobre perdas, decepção e quebra de expectativas. O público entendeu como se estivesse falando de amor. Como os textos e desenhos são subjetivos, a interpretação foge do nosso controle."
Augusto Botelho

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