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A cidade-palavra de Nicolas Behr

O poeta lança amanhã o livro BrasíliA-Z: cidade-palavra, com verbetes bem-humorados sobre a capital federal

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postado em 07/04/2014 15:00

Vanessa Aquino

Nicolas Behr apresenta várias leituras para a capital federal em sua nova obra  (Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - 8/1/13 ) 
Nicolas Behr apresenta várias leituras para a capital federal em sua nova obra


Quando memórias afetivas de uma cidade se transformam em palavras, o poeta escreve, cria versos, frases e até verbetes. Foi assim que Nicolas Behr transformou impressões pessoais no livro BrasíliA-Z: cidade-palavra, que será lançado amanhã no Espaço Cena, com apresentação de Ana Miranda. “Era um sonho antigo. Meu objeto é compartilhar algumas coisas que muitos brasilienses talvez não saibam. O que eu quero é o espanto das pessoas de fora. Brasília é uma cidade que tem que ser protegida, e o livro pode dar mais carinho e cuidado por Brasília. Para mim é facil escrever sobre Brasília porque ela tem um simbolismo muito grande. Eu vivo a cidade”, diz.

O poeta de Mato Grosso se mudou para Brasília aos 15 anos. E, quando chegou, viveu uma relação de amor e ódio com a cidade, que, segundo ele, foi um estado de sobrevivência entre os números de quadras e superquadras. “Quando cheguei aqui, Brasília quase me matou. Pensei: como vou sobreviver nessa cidade de números, massificada, massificante, de setorização. Brasília me machucou muito no começo. Eu também machuquei Brasília. Hoje é um amor mais doméstico, é um amor que eu cultivo. É o conflito da uma tensão psíquica que eu cultivo. Os meus livros são fruto dessa tensão. Procurei entender essa cidade. E a gente está se entendendo.”

Os verbetes do novo livro de Nicolas são cheios de personalidade, selecionados com objetivo de mostrar várias facetas da cidade. “Eu queria usar os vários vieses de Brasília. Busquei falar de amor, de ecologia, o lado histórico e afetivo. Vi a cidade com várias facetas e leituras”, explica o poeta. O autor procurou imprimir humor nas histórias que compõem cada uma das palavras-tema de um verdadeiro dicionário amoroso e crítico. “Humor facilita a compreensão e a leitura. O humor é o lubrificante da ideia. Sem humor a mensagem não desce, não gira. Queria que as pessoas gostassem do livro e que a cidade gostasse de mim”, descreve.

Provocação

Em um dos verbetes, Nicolas fala sobre a formação da identidade cultural de Brasília e provoca: “Existe um sotaque brasiliense? Como é essa pronúncia peculiar? Dá para distingui-lo andando por Brasília? Quando começou a se formar esse sotaque? Gente, deixem o sotaque de Brasília em paz! O mesmo acontece com a tal identidade cultural. Como definir um brasiliense? Existe uma poesia brasiliense? Falar de blocos e eixos é falar de uma literatura brasiliense? Levam-se séculos para se formar uma identidade cultural. E essa identidade, sempre em formação, é algo que se constrói no dia a dia de uma cidade.”

A intenção, segundo ele é trazer uma reflexão sobre o tema, que considera importante, para não reduzir a cidade ao óbvio. “A identidade cultural está se formando, leva séculos e é uma coisa em constante mutação. É querer reduzir a clichês. O Brasil vê Brasília como a cidade do poder. E não é. Eu não me preocupo muito com isso, mas as pessoas querem. Eu tentei fugir do óbvio, pegar o leitor pela surpresa.”

 (Nicolas Behr/Reprodução ) 

BrasíliA-Z: cidade palavra
Nicolas Behr. Edição independente, páginas 146 páginas. R$ 20. Lançamento amanhã, às 18h, no Espaço Cena (205 Norte). Entrada Franca. Classificação indicativa livre.

Dicionário Behriano

“Eixão do Lazer: Saem os carros, entram os pés. Sai a velocidade, entra a calmaria de uma bela caminhada. A sua cidade a suar. O curioso é que o Eixão é tão perigoso durante a semana que ao caminhar lá aos domingos e feriados ficamos meio que desconfiados. Temos aquela sensação de que a qualquer momento pode surgir um carro em alta velocidade. E não surge. Ainda bem.”

“Fantasmas: Além dos que infestam alguns órgãos públicos, em Brasília os fantasmas se concentram no Teatro Nacional Claudio Santoro. Certa vez um guarda noturno me contou a seguinte história: altas horas da noite ouvia-se tocar o piano da sala de ensaios. Ninguém ousava ir lá. No dia seguinte pela manhã encontraram a tampa do teclado aberta e um gato dormindo entre os pedais. O felino, durante a noite, caminhava sobre o teclado.”

“Filhas de JK: o nome das esculturas, em bronze, no espelho d’água do Palácio da Álvorada é As Iaras, mas as conhecemos como As Banhistas, a obra de Alfredo Ceschiatti. Mostram duas mulheres com as mãos na cabeça. Dizem que são as filhas de JK puxando os cabelos, pois não queriam vir morar em Brasília.”

“Salivas: as águas têm vida, sentem saudade, desejam. Nas Águas Emendadas, entre Planaltina e Formosa, as do norte encontram as do sul. Ali as duas bacias se beijam, cercadas de buritizais. Até a paisagem fica com água na boca.”

 

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