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Memórias sobre Paulo Leminski serão lançadas na Bienal do Livro e da Leitura, sem autorização das herdeiras

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postado em 08/04/2014 14:00

Vanessa Aquino

 (Reprodução Internet) 


Que a história da vida do poeta curitibano Paulo Leminski clama por um livro é um fato incontestável. Mas a publicação de biografias do ícone da contracultura tem desagradado às herdeiras, que vetaram duas obras, uma delas do escritor, também curitibano, Domingos Pellegrini. No ano passado, Alice Ruiz, Estrela Ruiz e Áurea Leminski declararam a proibição, mas o autor resolveu divulgar a biografia pela internet e enviou carta ao Supremo Tribunal Federal justificando a decisão. O próximo passo de Pellegrini é lançar o livro, mesmo sem a autorização das herdeiras. Ele e a editora Geração Editorial resolveram assumir o risco do embargo e confiam que haverá um consenso, tanto no STF quanto no Congresso Nacional, e não será mais preciso autorização de biografado ou herdeiros para publicação de biografias. Minhas lembranças de Leminski será lançado na sexta-feira (18), na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília.

“O livro nem é exatamente uma biografia, mas um misto de minhas memórias com Leminski, amigo com quem convivi, e observações de psicologia, sociologia, crítica literária e clínica médica (nisto, analisando seu alcoolismo, com informações médicas precisas e com dignidade). Mas a família herdeira quis obstar isso, como se todos não soubessem que Leminski morreu de cirrose agravada por hemorragia hepática, como também não há quem desconheça que Roberto Carlos tem perna mecânica, o que não os desmerece nem como artistas nem como pessoas. Pelo contrário”, disse o autor no documento enviado ao STF em outubro do ano passado.

Procuradas pelo Correio, as herdeiras garantiram que mantêm a postura de desautorizar a publicação da biografia de Leminski, conforme já haviam manifestado em nota de esclarecimento à imprensa divulgada no ano passado. No documento, Alice trata do ponto específico da obra de Pellegrini: “A ênfase no álcool, sua leitura de uma ‘precariedade’ de bens em nossa casa (você nunca ouviu falar em contracultura?) as observações exageradas sobre ‘falta de banho’, que corresponde a um período de maiores excessos, mas que foi superada, enfim, tudo isso serve para criar uma imagem bem negativa do Paulo em contraponto à sua, que aparece como o interlocutor por excelência e cheio das qualidades que supostamente ‘faltavam’ a ele. (…) Achamos — nós três — que, se você estiver disposto a ‘ressuscitar’ o Dinho, aquele cara que era amigo do Paulo, deixando o ego de lado, e revendo essas questões, o livro merece ser publicado. Caso contrário, não poderemos autorizar, nem a publicação das imagens  nem a publicação dos inúmeros textos dele. (...)”

Em entrevista ao Correio, Pellegrini garantiu o lançamento e contou um pouco da amizade entre ele e Polaco, como costumava se referir a Leminski,  a quem considerava um apaixonado pela arte e pelo mundo. E são as recordações dos encontros e das conversas sobre literatura, política, guerra, costumes e até mesmo das discordâncias que tinham sobre alguns temas que compõem o livro de Pellegrini.


 (Geração/Divulgação) 

Minhas lembranças de Leminski
De Domingos Pellegrini. Geração, 200 páginas. R$ 34,90


A liberdade, como Leminski gostaria, vencerá, aliás como sempre”
Domingos Pellegrini, escritor


Três perguntas para Domingos Pellegrini

Como era sua relação com Paulo Leminski?
 Polaco e eu fomos amigos durante mais de década de sua curta vida física, e nos encontramos — sempre para conversas de horas, dias inteiros — em Curitiba, Florianópolis, Londrina e São Paulo. Leminski é (pois para mim ele nunca morreu) uma das pessoas mais interessantes que conheci, embriagadoramente apaixonado pela arte e pelo mundo, um menino sempre às voltas com novidades e descobertas, que um dia me olhou espantado e disse: “Eu não sabia que você também era roqueiro, cara!” Ao que respondi: “Eu não era, eu sou e sempre serei!” Ele riu naquele jeito dele, alisando o bigode, e estendeu a mão que apertei. Daí por diante, passamos a conversar em ritmo de rock, firme e forte. As partes dessas conversas, que ficaram na memória, compõem o eixo do livro Minhas memórias com Paulo Leminski.

Sobre o que conversavam?

Lelé era o único intelectual com quem conseguia conversar sobre literatura, arte da guerra, sociologia e política, costumes e tendências, tudo no mesmo caldeirão em ebulição, que era a cabeça dele. No dia em que lhe contei que tinha lido Panarome of Finnegans Wake, de Joyce, aos 17 anos, ele ansiosamente perguntou: o que achou? Chato como toda literatura de vanguarda, falei. Ele riu, pois eu tinha falado o mesmo do Catatau dele. Acho uma obra-prima, ele falou. E retruquei pois é, prima pela incompreensão.  Ele riu mais, dizendo que me respeitava por essa independência intelectual. Três décadas depois, tenho a oportunidade de dizer, no livro de minhas memórias com ele, que o maior mérito e legado de Leminski é sua independência e unicidade intelectual, com linguagem e visão únicas, sem seguir tendências, sem se sujeitar a modas, sem reverenciar nada e ninguém, ele era ele, o Polaco do Pilarzinho antenado no mundo.

No  ano passado, houve o veto da família para a publicação
da biografia. Por que resolveu publicar, mesmo assim?

Antes de tudo, não é uma biografia, mas um livro de minhas memórias com Leminski, conforme anuncia o próprio título. A Geração Editorial resolveu investir na liberdade de expressão e na civilização, acreditando que a família não se atreverá a contrariar o consenso já anunciado pelo Supremo e pelo Congresso, de que a legislação será mudada (quando for decidida a corrida de tartarugas entre essas duas instituições) e não será mais preciso autorização de biografado ou herdeiros para publicação de biografias. Se, no entanto, as herdeiras, a quem quero bem e a quem dedico o livro, requererem embargo, ficarão infelizmente conhecidas como as últimas censoras do Brasil. Em vez desse gesto autoritário, se não gostarem de algum trecho do livro, poderão pedir revisão para próximas edições, conforme a emenda Caiado a ser aprovada no Congresso, e a critério da Justiça Federal. Cremos, entretanto, a Geração Editorial e eu, que nenhum juiz autorizará embargo da obra com base numa legislação condenada pela sociedade e prestes a ser abolida. A liberdade, como Leminski gostaria, vencerá, aliás como sempre.
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