Aos 107 anos, ela só pensa em viver mais

Parente de Lampião, Maria Francisca do Nascimento testemunhou a violência, sofreu com o marido recrutado durante a Segunda Guerra Mundial e cuidou de 14 filhos, seis pentanetos, 63 tetranetos e 67 netos. Sadia, a pioneira de Brasília quer %u201Cum mundo mais calmo para as próximas gerações%u201D

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postado em 08/04/2014 16:33

Larissa Garcia

Antonio Cunha/CB/D.A Press
Poucos têm ou terão a chance de conhecer e cuidar de um quinquaneto. Maria Francisca do Nascimento tem seis. Ela, que completa 107 anos amanhã, ainda possui 63 tataranetos, 67 netos e 14 filhos — oito vivos. E o tamanho da família, aliado a muita oração, arroz e feijão, é o segredo da longevidade, segundo a centenária. “Já vivi muito, mas passou tão rápido. Ainda não penso em ir embora, quero ficar mais neste mundo para ensinar as gerações futuras o que aprendi com meus pais”, ressalta, com muita alegria.

Mais conhecida como vó Santa, Maria nasceu em Cajazeiras (PB), em 1907. Depois de se casar, aos 16 anos, mudou-se para Pau dos Ferros (RN), onde morou até 1960. De lá, migrou para a recém-inaugurada Brasília. “Meu marido trabalhava em uma fábrica de tecido e foi transferido. Nessa época, pari 14 filhos sozinha, sem ajuda de parteira. Na primeira, comecei a sentir as dores quando estava à beira do açude e, quando voltei para casa, minha filha nasceu. Fiquei com medo de cortar o cordão umbilical, então, meu marido foi de jumento procurar uma parteira para o serviço”, lembra.

Maria veio para Brasília em um caminhão pau de arara, com 22 parentes, em busca de melhores condições de vida. “Primeiro, veio meu tio, para ajudar na construção da cidade. Depois, viemos todos. Lembro que o meu bisavô, pai dela, ficou sentado na calçada vendo o caminhão sair porque não coube mais pessoas. Depois disso, não voltou mais a Pau dos Ferros”, relata uma das netas de Maria, Gildete Feitosa, 65 anos. “Às vezes, me pego com saudade daquela época, fico com vontade de ir lá”, comenta Maria. Primeiro, ela morou em Taguatinga, mas logo se mudou para o Gama, onde mora até hoje. “Gosto muito daqui, todos me conhecem.” Maria não bebe ou fuma. “Quando era moça, às vezes tomava vinho nas festas e fumava charuto, mas larguei cedo”, frisa.
Antonio Cunha/CB/D.A Press

Cangaço
A centenária acredita que veio de uma época mais simples. “Hoje é tudo mais complicado, vemos muita perversidade, as pessoas são más. Antes, as mulheres se casavam e cuidavam dos filhos. Atualmente, não há mais isso”, compara. Quanto tinha 16 anos, ela conheceu o marido — que morreu em 1994, aos 94 anos. “Namorar era difícil naquele tempo. Ele ia na minha casa e ficávamos cada um em um sofá, com os meus pais. Nas festas, tinha um banco para as moças e outro para rapazes, nem conversávamos. Ele foi pedir a minha mão aos meus pais, nos casamos e engravidei em seguida”, recorda.

Em 1944, o marido de Maria foi enviado para lutar na Segunda Guerra Mundial. “Ele foi para Natal, onde havia bases militares. Fiquei seis meses sem notícias, de luto, porque pensei que ele tinha morrido. Um dia ele apareceu na janela e bateu palma. Foi a maior alegria. Depois, nunca mais nos separamos. Foram 71 anos juntos”, lembra. Em Pau dos Ferros, ela sofria com ataques de cangaceiros. “Certa vez, fiquei sozinha em casa, enquanto escutava tiros. Fiquei com muito medo. Era comum naquela época. Mas não era Lampião, que era primo do meu marido”, diz. “Meu avô e ela não gostavam que falasse mal de Virgulino (Lampião), por conta do parentesco”, reforça a neta Gildete.
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