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A poesia das imagens

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postado em 09/04/2014 15:30

Yale Gontijo

Back:  
Back: "Poemas e fotogramas têm em comum a mesma invisibilidade"


Para melhor expressar o gosto por poesia, o cineasta catarinense Sylvio Back fez filmes em versos. Numa antevisão da segunda atividade artística que desempenharia, o diretor de produções como Cruz e Souza — O poeta do des-terro (1999) e Ale­luia, Gretchen (1976), usava o aparato de cinema para desenvolver uma cine-escritura particular. O poeta das imagens decidiu, desde o final dos anos 1980, empunhar a pena da escrita em derramadas tintas eróticas. A poema-ação de Back foi finalmente reunida em uma compilação de textos publicados em um único livro, Quermesse. Aos poemas nada castos de O caderno erótico de Sylvio Back (1986), A vinha do desejo (1994), boudoir (1999) e As mulheres gozam pelo ouvido (2007) foram acrescidos de 55 títulos inéditos.

A veia poética do diretor de 38 filmes desde Lance maior (1968) foi desenvolvida em paralelo ao da atividade no cinema, chegando a sucumbir a sétima arte ou reavivá-la. “Poemas e fotogramas têm em comum, digamos assim, a mesma invisibilidade, esse apelo ao outro lado da imagem e da palavra, ainda que de suportes diversos, sua leitura e apreensão mentais são similares, aparentadas”, descreve o poeta e cineasta.

Ao longo das 280 páginas de Quermesse, os versos dos poemas realizam movimentos, como enquadramentos da câmera cinematográfica. Por vezes, são amplos como planos gerais. Às vezes são planos próximos, enquadrando detalhes. E a cadência das palavras simulam a montagem de imagens. Atrizes hollywoodianas se anunciam como uma lista de desejos do poeta cinéfilo. Elizabeth Taylor e o par de olhos violeta são focados em close no poema Camera. “(feito Liz Taylor) a CAM colhe olhos azul e verde, nariz empoado, à boca doces malas palabras, cílios dark buço de véu lilás, queixo de furinho sutil e as bochechas-camafeu no paralax do visor”, descreve o poeta, tornando possível enxergar o que ele escreve.

 

Quermesse
De Sylvio Back.  Editora Topbooks, 280 páginas. R$ 43,90


Três perguntas / Sylvio Back

Quando o senhor começou a pensar em sexo na forma de poesia erótica?
Só ousei poetar já homem maduro, aos 48 anos. Qualquer que seja a criação do espírito humano, a poesia é a única totalmente imprevisível. Quase sempre fruto de uma “brisa mediúnica” que sopra sobre e dentro de você e do seu intelecto quando ela bem entende. Repentinamente, em fins de 1986, sem nunca antes ter escrito um poema, nem por fastio ou artimanha amorosa, pois sempre achei que poema e o poetar coisa difícil de rimar, fruto de uma incontornável tragédia existencial (que me reservo não declinar), fui invadido por inesperados versos sofridos e doridos. No começo, fiquei perplexo e assustado. Ato contínuo, no entanto, procurei não apará-las.

Para ser bom escritor erótico é preciso ser bom amante?
Atenção, os poemas são libertinos, o poeta é casto! Sim, o poema é do poeta, mas o poeta não é o poema!

Nós pensamos o sexo, intelectualmente falando,de forma errada?
Há como que um cilício moral a perpassar a cabeça de todos nós, mesmo nesses tempos de extrema permissividade, da voraz auto exposição e da virtual disponibilidade sexual das pessoas. Porém, no terreno da poesia a amperagem da hipocrisia é maior. A poesia empurece qualquer palavra. Ou melhor, não há palavra impura para o poeta. Daí o torque explícito do verso desmetaforizado com que discorro sobre os precipícios do corpo e as estripulias do sexo sem rebuços de linguagem ou disfarces temáticos. Mas tudo embalado com humor, nonsense e muita alegria, que é a matriz histórica do poema erótico fescenino (termo associado à cidade etrusca de Fescênia.
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