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Jardim fértil

África e América Latina apresentam talentos da literatura contemporânea em seminário que acontece hoje na 2ª Bienal do Livro e da Leitura

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postado em 14/04/2014 11:08 / atualizado em 14/04/2014 11:09

Vanessa Aquino

Os países latino-americanos e africanos têm rompido fronteiras e cruzado o oceano por meio de uma nova safra de autores. entre eles, Valéria Luiselli, do México, Conceição Lima, de São Tomé e Príncipe, e o brasileiro Antônio Prata. Os três escritores delineiam o cenário da literatura contemporânea Nas Américas e na África e dividirão hoje mesa em seminário na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Tanto o México, quanto São Tomé e Príncipe e o Brasil foram palco de conflitos, seja pela independência, pela luta contra a repressão ou pela sobrevivência diante dos horrores do narcotráfico. O terreno se mostrou fértil em meio ao caos, no entanto, e a arte floresceu.


Antônio Prata acredita que o interesse pela literatura brasileira no exterior é, sobretudo, reflexo do crescimento econômico do país. “Como o Brasil está em voga, as pessoas estão olhando para o país.” O escritor, filho dos também escritores Mário Prata e Marta Goés, colabora em roteiros de novelas brasileiras e, ano passado, lançou o livro de crônicas semi-memorialistas, Nu de botas. “Os meus leitores crescem devagar, conforme vou sendo mais conhecido, também pelo o que escrevo nos jornais. Ainda é uma coisa pequena. Na lista de mais vendidos, os gêneros se misturam. Mas o público para literatura é pequeno. É muito difícil um escritor brasileiro viver de literatura.”


Considerada um dos nomes mais importantes da poesia africana contemporânea, Conceição Lima insere memórias e a história de São Tomé e Príncipe à literatura. Dona de um estilo intimista, ela busca imprimir a voz coletiva nos versos que constrói nos livros O Útero da casa, A dolorosa raiz do micondó e O país de Akendenguê. “Confesso que não me sinto muito confortável em falar da minha própria poesia. Atrevo-me a descrevê-la, de forma muito sintética, como uma poesia intimista, lírica, amiúde de contaminação épica, marcada por fluxos da história e na qual a voz do eu-lírico, não raras vezes, se confunde com a voz coletiva”, diz. Para ela, o amálgama entre as identidades do país e das poesias que escreve é movimentado pela germinação de sentidos entre os níveis individual e coletivo: “Há, na minha poesia ou em parte significativa dela, o entrelaçamento entre a narrativa pessoal, íntima, individual e aquilo a que se poderá chamar de narrativa da nação.”

Expoente mexicano

Veleria Luiselli, aos 31 anos, foi considerada pela crítica do México como a “nova Bolaños”, em referência ao consagrado escritor chileno Roberto Bolaños. O autor espanhol Enrique Vila-Matas também chamou a atenção para a jovem escritora e se disse cativado pelo romance de estreia Rostos na multidão (2011). Segundo Valeria, o panorama da literatura mexicana poderia ser descrito como um “bonito jardim selvagem no meio do deserto”, por toda a história recente de momentos difíceis causados pela guerra do narcotráfico. “No meio desse horror que significou a guerra do narcotráfico, as artes floresceram e vivemos um momento de alta intensidade e enorme produção criativa. A literatura me parece particularmente pujante neste momento — há muitas editoras novas, projetos, debates constantes”, resume a escritora.


Mobilizada diretamente pelo escritor sul-africano J.M. Coetzee, Luiselli cita também alguns ficcionistas, ensaístas e poetas que a entusiasmam na literatura mexicana: Guadalupe Nettel, Julián Herbert, Yuri Herrera, Daniel Saldaña París e Vivian Abenshushan. No Brasil, destaca Bernardo Carvalho, Veronica Stigger, Luiz Ruffato e Michel Laub, assim como os poetas Angélica Freitas, Ricardo Domeneck, Marília Garcia e Alice Santana.

 

 (Renato Parada/Divulgação) 

» Duas perguntas //Antonio Prata 

 

Especificamente sobre seu processo criativo, como funciona? Em que busca inspiração? Prefere o silêncio, música…?
Eu, diante de um computador, preciso de silêncio, de paz. Não tem muito um ritual. Como escrevo crônicas e muita coisa por encomendas, a minha maior inspiração é prazo. Tem dias em que você está melhor.

Em Nu, de botas, como foi revisitar a própria infância e escrever sobre as memórias?
Eu fiz um livro institucional em uma escola em que estudei. Era uma encomenda do colégio e lembrei de muita coisa. Comecei a juntar memórias e, a partir delas, a escrever os textos. Não dá para chamar de outra coisa, senão ficção, uma memória de quando você tinha 3 anos. Tudo é ficção, mesmo o que eu acho que não é.

 

 (blogs.revistavanityfair.es/Reprodução da Internet) 
 

» Duas perguntas // Valeria Luiselli

 

Rostos na multidão é um livro sobre o processo de escrever um livro. E quanto a você, como funciona o seu processo criativo?
Acredito que o processo criativo se transforma de acordo com o projeto que se está desenvolvendo. Escrevi três livros — Papeles falsos, Los ingrávidos (Rostos na multidão no Brasil) e La história de mis dientes — e colaborei em muitos projetos grandes em outras áreas — sobretudo, no mundo da dança, arquitetura e arte. Em nenhum caso meu processo criativo foi igual. Penso que, assim como os artistas plásticos devem ser sensíveis ao tipo de material que estão usando e deixar que isso dite um tipo particular de procedimento, os escritores também devem estar atentos aos temas que estão trabalhando e moldar o processo criativo se acordo com a pauta que esses temas ditam.

A América Latina conseguiu consolidar um lugar de destaque no cenário literário mundial?
Acredito que nos últimos anos, talvez desde a crise de 2008 e a concomitante consolidação de muitas editoras latino-americanas independentes, a literatura do continente — hispana e lusófona — tem conseguido superar a imagem que se tinha dela e conquistar uma visibilidade menos atada às grandes editoras espanholas. Estamos em um momento de alegre caos: ninguém sabe dizer o que é a literatura latino-americana contemporânea, mas todos sabemos que alguma coisa está acontecendo.

 

 (Rui Sousa/Divulgação ) 
 

» Duas perguntas// Conceição Lima

 

Em Os heróis você apresenta a força política da sua poesia. Há uma motivação maior em tratar de memórias conflituosas na poesia?
A minha poesia inscreve um certo olhar para a nação e também para a África, que passa pelo resgate e mineração de fatos e memórias traumáticas num processo, creio eu, que transcende os limites ideológicos. Esse processo íntimo, pessoal, é tecido ou destecido pela lírica e a linguagem é o seu cerne. Muitos dos poemas representam confronto com memórias dolorosas e traumáticas. Porém, a motivação não é meramente fixá-las mas sim expô-las reflexivamente e iluminar, por via da linguagem poética, trechos e momentos soterrados, sujeitos marginalizados, compartimentos obscuros, sonhos arruinados, acreditando que, do fluxo dessas memórias conflituosas, possa emanar e emergir uma certa esperança. Isso torna o poema, de alguma forma, habitante da nudez do sonho primordial, da inteireza da luz, do útero da casa.

Em sua análise, o que significou a luta pela democracia e independência de São Tomé, sobretudo no que diz
respeito à liberdade de expressão?
A independência de São Tomé e Príncipe, conquistada a 12 de julho de 1975, significou o momento culminante de uma luta longa e difícil. O golpe militar e a revolução do 25 de abril em Portugal abriram caminho a uma explosão de vozes e de vontades irmanadas no desejo de uma independência total e imediata. Na luta anti-colonial pelo resgate dos valores identitários são-tomenses as vozes dos poetas e poetisas estiveram na primeira linha. Essas vozes fundadoras da nacionalidade literária são-tomense anunciaram o novo dia e são referências indeléveis da gesta libertadora. 

 

II Bienal Brasil do Livro e da Leitura
Seminário – Brasil, América e África: Novas Realidades, Novos escritores. Hoje, às 18h30. Auditório Nelson Rodrigues,
Esplanada dos Ministérios.

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