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Correio Braziliense

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Os dribles na prepotência

Eduardo Galeano, Mário Magalhães, Xico Sá e Ana Maria Bahiana esquentaram os debates sobre a relação entre a cultura e o regime militar

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postado em 14/04/2014 11:10

Diego Ponce de Leon , Gabriel de Sá

O escritor uruguaio Eduardo Galeano arrancou aplausos da plateia com suas reflexões sobre a relação tensa entre o futebol e a política 
O escritor uruguaio Eduardo Galeano arrancou aplausos da plateia com suas reflexões sobre a relação tensa entre o futebol e a política


Xico Sá destacou a habilidade dos cronistas brasileiros com a bola  
Xico Sá destacou a habilidade dos cronistas brasileiros com a bola


Duas temáticas têm dominado os debates da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura: o esporte, tendo em vista que a Copa do Mundo ocorre no Brasil daqui a algumas semanas; e o aniversário de 50 anos do golpe militar instaurado no país em 1964. Aberta ao público no sábado, a feira literária, que acontece até 21 de abril no canteiro central da Esplanada dos Ministérios, recebeu, neste fim de semana, os escritores Ana Maria Bahiana, Sérgio Rodrigues, Xico Sá e Mário Magalhães. Cada um à sua maneira contribuiu para o aprofundamento das questões centrais.

Um dos nomes mais aguardados da Bienal, o escritor uruguaio Eduardo Galeano participou, na tarde de ontem, do debate Futebol e Ditaduras na América Latina, ao lado de Lúcio de Castro, Mário Magalhães e Rodrigo Merheb. Galeano, que é um dos homenageados desta edição do evento, reuniu uma multidão para assisti-lo. Havia pessoas sentadas ao chão e olhando pelas frestas das tendas para acompanhar o que o autor de As veias abertas da América Latina tinha a dizer.

Ao falar sobre a relação entre futebol e ditadura, Galeano lembrou que, ainda hoje, o mundo está dominado por uma série de regimes totalitários. “E nem todas são militares”, sublinhou, citando a Federação Internacional de Futebol (Fifa) e sendo amplamente aplaudido. “Se não fosse uma ditadura, os jogadores não seriam tratados como coisas, mas como pessoas de respeito”, completou.

Angústia
Durante a sessão, Galeano lembrou daquele que talvez seja um marco na ditadura uruguaia e que ainda o emociona. “O povo estava cansado de tanto terror, angústia, cárcere, mas não tinha coragem para reagir. A primeira reação aconteceu durante um jogo. O estádio estava completamente tomado e, ali, ocorreu o estopim, um basta. De repente, todas aquelas pessoas começaram a esbravejar: ‘vai acabar, vai acabar, a ditadura vai acabar’. E foi o melhor lugar para aquele início de resistência, por que o evento havia sido organizado justamente pelo governo, que queria mostrar o quanto o país estava feliz”, relatou. “Saiu pela culatra”.

Pouco antes, Daniel Galera não conseguiu reunir um público tão robusto. Além de responder a questões sobre o aclamado livro Barba ensopada de sangue, o autor debateu com a plateia o espaço da literatura no meio virtual e a estética da escrita nesse meio.

No sábado, Xico Sá e Sérgio Rodrigues falaram sobre a literatura esportiva. Segundo eles, a crônica foi o estilo literário que melhor abordou o futebol. Nelson Rodrigues foi lembrado como um grande exemplo do gênero. “Era o maior ídolo da crônica do Brasil e falava como ninguém sobre futebol”, elogiou Sá, que aproveitou para destacar os textos que são escritos no meio virtual sobre o tema. “Há páginas e blogs com conteúdo diversificado sobre o tema. E de qualidade”. O debate foi concorrido. Marcado inicialmente para o Café Literário, foi transferido para um espaço menor, que acabou lotado.

Música popular
Pouco antes, também no sábado, Ana Maria Bahiana falou sobre as tensões entre música e ditadura.  Na mesa, a escritora, que lançou o Almanaque 1964,versou sobre a relação com Brasília, o regime militar e a música que floresceu no país nos anos de chumbo.

“O momento talvez tenha causado uma certa urgência, mas toda a revolução que Caetano, Chico, Milton, Gil e tantos outros iriam fazer teria acontecido de qualquer maneira. Eles estavam preparados para isso. O golpe pode ter antecipado, mas nada mais”, afirmou.

Bahiana lembrou que teve muitas matérias censuradas e foi interrogada diversas vezes pelos militares durante a ditadura. “Mas nada disso se compara aos que perderam amigos, familiares e a própria vida. Carrego algumas angústias daquele período até hoje, mas, de alguma forma, tenho orgulho de ter participado. De poder contar essa história”.

O Café Literário estava lotado para receber o escritor cubano Leonardo Padura, que lança, na Bienal, O homem que amava os cachorros. A obra narra o assassinato de Leon Trótski, um dos principais nomes da Revolução Socialista Soviética.

“Cuba segue sendo um país socialista, que vive uma ditadura do proletariado. Dependendo do ponto de vista, pode ser percebido de maneira simplória como apenas uma ditadura. Mas tem havido mudanças. Talvez não no ritmo que alguns cubanos desejariam, mas tem havido mudanças de determinadas estruturas do modelo econômico”, manifestou o autor.



O que eles disseram

“Existem, ainda hoje, regimes totalitários. Vejam a Fifa. Se não fosse uma ditadura, os jogadores não seriam tratados como coisas, mas como pessoas de respeito”
Eduardo Galeano, escritor

 “O momento talvez tenha causado uma certa urgência, mas toda a revolução que Caetano, Chico, Milton, Gil e tantos outros iriam fazer, teria acontecido de qualquer maneira.”
Ana Maria Bahiana

“Nelson Rodrigues era o maior ídolo da crônica do Brasil e falava como ninguém sobre futebol.”
Xico Sá

“Cuba segue sendo um país socialista, que vive uma ditadura do proletariado. Mas tem havido mudanças. Talvez não no ritmo que alguns cubanos desejariam.”
Leonardo Padura



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Diversidade cultural
Em A rua de todo mundo, Carolina Nogueira conta a história de crianças das mais diversas nacionalidades. Autora e ilustradora, ela idealizou o livro quando morava na França. O cosmopolitismo da capital francesa ajudou a brasileira a perceber as diferenças culturais que marcam uma sociedade. Carolina lança o livro hoje, às 18h, no Café Literário Jorge Ferreira. Destinado ao público infanto-juvenil, A rua de todo mundo é um passeio delicado pela diversidade.


Guerras e religiões
Guerra, intolerância religiosa e conflitos políticos são o tema do seminário Krisis, que reúne hoje na bienal o norueguês Dag Øystein Endsjø, o holandês Peter Demant e os jornalistas Hélio Schwarstman e Klester Cavalcanti. Endsjø é especialista em sexualidade e religião e pesquisador da Universidade de Bergen, na Noruega, e Cavalcanti lança na bienal Dias de inferno na Síria(Benvirá), livro-reportagem que ganhou o Prêmio Jabuti de 2013. O jornalista foi preso e torturado enquanto fazia a cobertura da guerra. Cavalcanti tentava chegar a Homs, um dos centros de maior intensidade da batalha do Exército Livre da Síria, que queria derrubar Bashar al-Assad, quando foi encarcerado e mantido preso por seis dias em uma cela subterrânea de uma delegacia. No livro, ele narra os horrores da guerra e o desespero do isolamento total, em um país cuja língua desconhecia completamente.
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