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A resistência com bossa

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postado em 14/04/2014 11:14

Irlam Rocha Lima

Carlos Lyra mostrou um repertório que evocou a participação na política durante os tempos do regime militar 
Carlos Lyra mostrou um repertório que evocou a participação na política durante os tempos do regime militar



A reflexão sobre o golpe militar de 1964 tem sido o tema recorrente dos livros lançados, dos filmes exibidos e das palestras proferidas durante a 2ª Bienal Brasil do Livrro e da Leitura, aberta na sexta-feira última e que prossegue até o dia 21 próximo, na Esplanada dos Ministérios. Os shows, que integram a programação e vêm sendo apresentados na área externa do Museu Nacional da República, também seguem esta linha. Foi assim no do grupo Taraancón, na abertura; e no do cantor e compositor Carlos Lyra, na noite de sábado.

Ex-diretor do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE), ex-exilado político, o artista carioca se tornou conhecido, principalmente, como um dos mais férteis parceiros de Vinicius de Moraes, com quem criou vários clássicos da bossa nova — entre elas A primavera, Coisa mais linda, Ela é carioca e Minha namorada.

Mas no espetáculo que trouxe para Brasília desta vez o foco foi outro. “Vou mostrar para o público um musical histórico, de resistência, no qual abordo diversos aspectos da ditadura, em especial o ligado à censura. Algumas dessas lembranças amargas são necessárias trazer de volta, para não corrermos o risco de vê-las repetidas nos tempos de hoje”, explicou Lyra, antes de entrar em cena.

No palco, de violão em punho, acompanhado pelo quarteto formado por Fernando Merlino (piano e direção musical), Adriano Giffone (contrabaixo), Ricardo Costa (bateria) e Dirceu Leite (sax), Carlinhos (como o chamava Vinicius), abriu a apresentação interpretando Auto São Jorge Guerreiro, música cuja letra traz uma metáfora da luta contra da ditadura militar.

Em seguida, a platéia formada por, aproximadamente, 300 pessoas, o ouviu cantar a consagrada Marcha da quarta-feira de cinzas (outra parceria com o Poetinha), vista por ele como “uma premonição, pois a compomos em 1963 e seria censurada um ano depois”. Um dos versos diz: “…E no entanto é preciso cantar/ Mais que nunca é preciso cantar/ É preciso cantar e alegrar a cidade…”

De forma quase didática, à cada canção que cantava, Lyra lembrava, com detalhes, do tempo e do cenário em que ela surgiu, sempre enfatizando as circunstâncias, ligadas ao período da repressão. Foi assim em Maria Moita (do musical Pobre menina rica), Feio não é bonito, Samba da legalidade, Hino da UNE, Subdesenvolvido e Lá vou eu, que fez antes de seguir para o exílio. No bis, com Marcha da quarta-feira de cinzas, em que teve a companhia de coro formado por espectadores.

Para o servidor público Rafael Rosemberg, 27 anos, o espetáculo, pode ser considerado histórico, “mas é também atemporal, pois ao ser apresentado nesta noite, traz reflexões que o aprofundam. Mostrou que precisamos ficar atentos, para que acontecimentos nefastos para a vida dos brasileiros, como a ditadura militar, não se repitam.” Com uma sacola de livros recém-adquiridos, ele contou que tem participado de outros eventos da programação da Bienal, “que trouxe para Brasília escritores, palestrantes e artistas importantíssimas.”

Agenda
Hoje, às 22h, quem se apresenta é o cantor, compositor e pianista carioca Ivan Lins. Amanhã. O Quinteto Violado faz show em qua canta Geraldo Vandré. Na quarta-feira será a vez dos brasilienses Beirão, Renato Matos e Liga Tripa. A banda Plebe Rude ser[a acompanhada pela Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional, num concerto inédito. O Quarteto em Cy, interpretando Vinicius de Moraes, solta a voz na sexta-feira. A atração de sábado é Edu Lobo, cantor e compositor da geração setentista, que revelou parra o Brasil, também — via festivais —, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milto Nascimento, Elis Regina, Gal Costa e Nara Leão.
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