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METROPOLITANA »

Fora do plano:No banquinho, com Zé Braz

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postado em 14/04/2014 16:30 / atualizado em 14/04/2014 11:25

ELE JÁ ESTAVA AQUI Chegou com os tamanduás-bandeiras e, quando viu os homens de fora, quis correr de medo. Mas ficou e ajudou na construção de Brasília   
ELE JÁ ESTAVA AQUI Chegou com os tamanduás-bandeiras e, quando viu os homens de fora, quis correr de medo. Mas ficou e ajudou na construção de Brasília


 



Todos os dias, na esquina da Rua 1 com a Rua 6, bem perto da Praça da Igreja, dois bancos de cimento, de assento ondulado, esperam a chegada de José da Silva Ribeiro Filho, o Zé Braz, 86 anos. O Braz não é sobrenome. É o prenome do irmão mais velho. “É o Zé do Braz”, se dizia. Daí, virou Zé Braz. Seria o mais antigo pioneiro da Metropolitana, se não fosse mais velho que o ex-acampamento da construtora do aeroporto. Zé Braz nasceu em Brasília antes de Brasília nascer.

“Nasci bem aqui, eu e os tamanduás-bandeiras”, repete Zé Braz a todos quantos se sentam ao seu lado, à sombra de um encorpado flamboyant de flores vermelhas. Os antepassados do velho goiano alto e corpulento também nasceram na Fazenda Tamanduá, que se estendia pelas proximidades, no ainda município de Luziânia. “Nunca saí daqui pra lugar nenhum.”

Antes que Brasília viesse ocupar o chão de Zé Braz, ele era boiadeiro. Transportava bois para Minas Gerais e São Paulo. Com a chegada dos tratores e dos engenheiros, Zé Braz passou a carregar cascalho para a terraplanagem da pista do aeroporto. “Fui o primeiro funcionário da Metropolitana”, diz ele. “A primeira passada terra quem jogou no aeroporto fui eu.”

Quando os primeiros candangos começaram a chegar ao futuro canteiro de obras da nova capital, Zé Braz e os seus tiveram medo. “Ficava desconfiado, querendo correr, mas dizia ‘não vou correr, não’”. Vencido o temor, Zé Braz fez um barraco de palha de buriti nas proximidades do movimento de terra que se fazia para preparar o chão da capital e ficou por ali até hoje. Mora num barraco com uma sobrinha — não se casou, não teve filhos. “Não tive tempo, mas até hoje não me arrependi de não ter casado.”

Há mais de 30 anos, aposentado pela Novacap, Zé Braz passa os dias ou sentado debaixo do flamboyant ou no boteco próximo (“vou encher o saco do cara do bar). Ele diz que bebe pouco — “só tomo bebida apimentada”. O amigo Rivaldo Gomes de Aguiar, o Surubim (que tem esse apelido porque nasceu em Surubim, em Pernambuco), diz que Zé Braz entorna um litro de uísque, dependendo do dia. E caubói. Adormece no banquinho até que o amigo o leve para casa.

Os amigos e conhecidos vão chegando — “e aí, Zé Braz?” —, e dizendo: “Ele é dos mais antigos aqui”. Ao que o goiano ancestral acrescenta: “Trabalhei com Bernardo Sayão, com dr. Vasco (Vasco Viana de Andrade, um dos primeiros engenheiros a chegar à região, mais tarde presidente da Novacap).

Zé Braz é patrimônio histórico da Metropolitana tanto quanto a graciosa igrejinha de madeira azul da praça que fica a menos de 200 metros do banquinho assombreado de flores.

 

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