SIGA O
Correio Braziliense

publicidade

Entre chuteiras e livros

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

- AMIGO + AMIGOS
Preencha todos os campos.

postado em 14/04/2014 17:45 / atualizado em 15/04/2014 15:35

Nahima Maciel

Bel Pedrosa/Divulgação

Oswaldo Reis/Esp.CB/D.A Press-20/04/12

Editora Record/Divulgação

Xico Sá e Sérgio Rodrigues debatem a paixão do brasileiro pelo futebol abordada pelos escritores

Não, a literatura não está em dívida com o futebol. Mas o futebol também não é um protagonista muito acessível. É jogo pronto, com vencedor e perdedor certos, final previsível pouco adequado a um romance. O escritor mineiro Sérgio Rodrigues, autor de Drible, defende que o futebol em si não daria um grande romance. “O esporte é uma narrativa completa, conta uma história que se encerra em si mesma”, explica. Rodrigues participa hoje, ao lado de Xico Sá, do debate Futebol e literatura, no Auditório Jorge Amado, na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura.
O autor mineiro vai partir de seu romance Drible, publicado no ano passado, para tecer considerações sobre a cobrança de que a literatura brasileira não dá a devida atenção ao esporte de preferência nacional. No livro, o protagonista é um cronista de futebol dos anos 1960, um pai embrenhado em relações familiares complexas e conflituosas. “Há muito tempo, ouço e leio críticas de que a literatura brasileira não retrata o futebol brasileiro como ele merece. Não acho obrigatória essa relação entre um tema da cultura nacional e a literatura. Nunca conheci um grande romance italiano sobre a Fórmula 1 nem um grande romance japonês sobre o sumô”, compara.
O escritor também acredita que a nova geração de ficcionistas brasileiros está tratando do futebol de maneira bastante generosa. “Eles estão dando ao tema uma atenção que ele não tinha na ficção”, diz, ao lembrar que contos e crônicas sobre o esporte sempre foram mais abundantes que a ficção.
 
Oficial
 
A maneira como o Brasil escreve sua própria história é o tema do seminário Narrativas contemporâneas da história do Brasil, que reúne os historiadores Paulo Rezutti e Tiago Luís no auditório Nelson Rodrigues. “A história do país, inicialmente, era contada de maneira basicamente oficial. O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro foi criado na época do Império como um guardião de nossa memória e de nossa produção histórica — desde que ela fosse oficial e seguisse o propósito de incensar nossos maiores líderes”, afirma Rezutti, organizador de Titília e Demonão — cartas inéditas de Dom Pedro I à Marquesa de Santos.
“De lá para cá, mais de 200 anos se passaram, a escrita e o estudo de nossa história se desenvolveram através de diversos segmentos que culminaram em um processo de divulgação da história brasileira nunca visto antes.” Rezutti conta que procura sempre focar o lado humano dos personagens históricos, especialmente no caso da realeza brasileira. “A política sempre norteou a escrita e a memória sobre esses dois personagens”, diz.

Homenagem a Gelman

O poeta argentino Juan Gelman, morto em janeiro, é tema do sarau que vai fechar esta primeira noite da bienal, no Auditório Nelson Rodrigues. No palco, uma lista de convidados que inclui o uruguaio Eduardo Galeano, a argentina Pola Oloixarac, a mexicana Valéria Luiselli, o poeta Nicolas Behr, Hamilton Pereira, secretário de Cultura, e o diplomata argentino Fernando Brun.
A homenagem deve durar 40 minutos e os convidados vão ler trechos de poemas e escritos de Gelman, que esteve em Brasília em 2012 para participar da primeira edição do evento. Na ocasião, ele contou à plateia como seu filho e sua nora, que estava grávida, foram sequestrados pelos militares em 1976 e acabaram mortos nas mãos do regime de Jorge Videla, na Argentina. “Juan Gelman é um autor cuja trajetória se tornou um símbolo de seu compromisso político com os direitos humanos. É o poeta oficial da memória no país”, diz Pola Oloixarac. “Em seus poemas reinam a amargura e a certeza: sabemos muito bem quem são os malvados, onde está o abismo ético”.
 
Adoção
 
Ativista enfático na luta pelo direito de saber o que aconteceu aos milhares de desaparecidos da ditadura, o poeta também teve a neta roubada, ainda bebê, pelos militares e entregue à adoção. Gelman emocionou a plateia da Bienal ao narrar o episódio. “Foi um sequestro de ventre”, disse o poeta, que reencontrou a menina, Macarena, em 2000, depois de décadas de busca. Para o escritor argentino Martín Kohan, convidado para a Bienal e autor de um romance que se passa na época da ditadura, o conterrâneo é um exemplo tanto para a literatura quanto para a política. “O que posso dizer é que ele me parece um exemplo maiúsculo de que a oposição entre textos políticos e textos de linguagem pode ser uma oposição profundamente falsa”, garante Kohan.
 
Hoje
» Narrativas contemporâneas da história do Brasil , com Paulo Rezutti e Tiago Luís Gil — 16h30, no Auditório Nelson Rodrigues
» Futebol e literatura — Com Sérgio Rodrigues, Xico Sá e Paulo Rossi. Às 17h, no Auditório Jorge Amado
» Sarau em Homenagem a Juan Gleman — Com Eduardo Galeano, Pola Oloixarac, Nicolas Behr. Às 21h, no Auditório Nelson Rodrigues
» Shows da resistência — Com Carlos Lyra. Às 22h, na Praça do Museu Nacional da República
» Senhas para palestras serão distribuídas no local
 
2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura
 
Até 21 de abril, na Esplanada dos Ministérios.
Visitação das 10h às 22h.
Entrada franca.

"Não acho obrigatória essa relação entre um tema da cultura nacional e a literatura. Nunca conheci um grande romance italiano sobre a Fórmula 1 nem um grande romance japonês sobre o sumô”
Sérgio Rodrigues, escritor

Tags:

publicidade