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Voz feminista

Em Vagina: uma biografia, a americana Naomi Wolf analisa a maneira com que a noção de prazer e desejo tem sido manipulada ao longo dos séculos como instrumento de controle social. A autora será convidada da II Bienal Brasil do Livro e da Leitura

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postado em 14/04/2014 19:18

Nahima Maciel

Reprodução da internet-29/01/14
Foi em um consultório médico, há cinco anos, que a feminista norte-americana Naomi Wolf teve uma das maiores surpresas de sua vida. Na época, aos 47 anos, ela percebeu uma diminuição na intensidade dos orgasmos e decidiu consultar um médico. O diagnóstico foi revelador: uma queda ocorrida há mais de duas décadas havia comprometido o nervo pélvico e, ao longo dos anos, a compressão piorou.
Essa estrutura, Naomi aprendeu no consultório, percorre a coluna e desemboca na vagina com um conjunto de ramificações cujo tamanho e localização exata são diferentes em cada mulher. Consequentemente, o orgasmo depende da anatomia de cada uma e tem um componente fisiológico muito maior do que Naomi imaginava. A descoberta era novidade para a feminista e serviu de catalizador para um projeto há muito acalentado: um livro sobre a história da vagina. O tema também vai render parte da discussão da qual a autora participa hoje, durante o seminário Literatura no feminino, na 2ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Naomi divide a mesa com a antropóloga Débora Diniz.
Vagina: uma biografia frequentou algumas listas de mais vendidos nos Estados Unidos, mas não chegou a ser um enorme sucesso de vendas. Foi, isso sim, um enorme sucesso de mídia. Esteve em muitas manchetes, especialmente depois de a Apple censurar o título na loja virtual, detalhe que deu a Naomi mais material para explicar a existência do livro.
“Por 5 mil anos, a vagina tem sido estigmatizada no Ocidente para ocupar um lugar de profano, nojento, vergonhoso e isso é negativo, é cínico. Muito do que as mulheres precisam hoje é dito silenciosamente, porque elas não podem pronunciar essa palavra em público e é muito mais fácil atribuir às mulheres todas essas conotações negativas sobre essa parte de seu corpo e sua sexualidade”, explicou a autora, em entrevista exclusiva ao Correio.
 
Direitos
 
O livro recebeu críticas negativas e foi acusado pela também escritora Zoë Heller (Notas de um escândalo) de infantil, em crítica publicada na The New York Review of Books. No limite entre a autoajuda e o ensaio, Vagina: uma biografia foi ainda classificado como uma versão em ensaio de Cinquenta tons de cinza, em crítica da revista The New Yorker. Figura midiática, a autora é também uma ativista pelos direitos civis.
Em 2007, causou desconforto na administração de George W. Bush ao publicar O fim da América, no qual comparava o governo do então presidente a uma ditadura. Quatro anos depois, durante manifestação do movimento Occupy Wall Street, Naomi foi presa por incitar os manifestantes a exigirem o direito de protestar na calçada em frente ao salão no qual acontecia um evento do jornal Huffington Post. A escritora era convidada do evento e se ofereceu para levar uma lista de reivindicações ao governador de Nova York, que participaria da festa.
Em abril, Naomi Wolf, 51 anos e uma das feministas mais ativas dos Estados Unidos, desembarca em Brasília para lançar o livro na II Bienal Brasil do Livro e da Leitura. Vagina: uma biografia tem início na própria experiência da autora. Ela narra cada passo da descoberta que a fez investigar e compreender o prazer feminino de uma forma completamente nova.
 
Violência
 
Mas Naomi não se restringe ao autobiográfico e avança na tentativa de perfilar o órgão sexual cujo nome ainda é alvo de censura mesmo nas sociedades desenvolvidas. A relação entre cérebro e vagina, pontuada pelas descobertas da neurociência, constitui boa parte do livro, mas há um olhar social e filosófico sobre o desejo e o prazer como alvos de censura que facilitaria o controle sobre a mulher.
A autora dedica ainda um capítulo à violência contra a mulher e outro à maneira como o órgão é retratado e tratado ao longo da história. No início do processo civilizatório humano, ensina Naomi, a vagina era sagrada e adorada, mas a moral judaico-cristã tratou de transformá-la em vergonha e de demonizá-la. “Nenhum historiador explicou conclusivamente como as mulheres perderam status na transição das primeiras civilizações para aquelas da Antiguidade Clássica”, escreve a autora.
A informação, ela defende, é a melhor arma contra a intolerância, e conhecer o próprio corpo pode ajudar as mulheres a lutarem contra a violência e a submissão, condições ainda muito frequentes em várias regiões do planeta. “Uma das coisas mais importantes das descobertas que estão no livro é sobre os hormônios e os estimuladores de neurotransmissores por mulheres que vivem em uma cultura que apoia seu conhecimento sobre o prazer sexual e o direito a ele”, explica.
“Patriarcas querem mulheres silenciosas, passivas e depressivas. Eles não querem que elas compreendam sua sexualidade, não querem que compreendam que têm direito à sexualidade.” Abaixo, Naomi, que representa a terceira onda feminista, aquela concentrada em questionar os ganhos alardeados pela revolução sexual, reflete sobre as questões desenvolvidas no livro.
 
PONTO A PONTO/ Naomi Wolf
 
Equívocos
Nossa ideia do ciclo sexual feminino é meio empacada. Eles (os cientistas) descobriram que o clitóris é muito, muito maior do que qualquer pessoa jamais imaginou e se estende em direção à pelvis como uma ramificação e uma estrutura neural única. Isso explica por que apenas 30% das mulheres conseguem ter orgasmo toda vez que querem e 30% não conseguem. Quando a mulher tem ambas as suas partes estimuladas ao mesmo tempo, em 90% dos casos ela consegue ter um orgasmo.
 
Mulheres x Homens

O sistema neural da mulher é diferente do sistema do homem. O que faz o homem atingir o orgasmo é mecanicamente muito similar de homem para homem. Na mulher, o sistema pélvico tem entre oito e nove emaranhados diferentes de nervos. A coisa mais incrível é que cada uma é diferente da outra, cada uma é única. A importância disso é que cada mulher deve ser aprendida e compreendida, com muito cuidado, de acordo com suas próprias caraterísticas.
 
Feminismo X Direitos Humanos
A mídia somente dedica atenção aos pensamentos feministas quando se trata de tráfico de seres humanos, escravas sexuais, levar contracepção para áreas rurais no mundo inteiro. Mas a maioria das pessoas reconhece que esses problemas são do âmbito dos direitos humanos, não são questões feministas. Em todo aspecto da sociedade, ainda há uma questão de igualdade baseada no gênero. Eu diria que isso é um trabalho para as feministas tanto quanto para qualquer outra pessoa. Toda vez que uma mulher é agredida, isso é um sinal de fracasso.
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