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O escritor de três milhões de leitores

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postado em 14/04/2014 19:28

Nahima Maciel

Arquivo Pessoal
Aos 39 anos e com quatro romances publicados, Murong Xuecun, pseudônimo de Qun Hao, é um dos autores de best-sellers mais lidos da China. É, também, uma pedra no sapato do governo: suas postagens no Weibo, o Twitter chinês, chegaram a ter mais de três milhões de seguidores. O tom ácido dos comentários irritou o Partido Comunista, que já encerrou a conta de Xuecun sete vezes. Como ele não desiste, abre uma conta atrás da outra, até que seja encerrada. Em Deixe-me em paz, primeiro romance de Murong publicado em português e que será lançado durante a II Bienal Brasil do Livro e da Leitura, da qual o autor participa com debate na próxima quarta-feira, o tema é o relacionamento de um casal numa metrópole da China contemporânea. Xuecun não fala inglês, mas está acostumado a dialogar com o Ocidente. Ele é colunista do The New York Times e costuma responder às entrevistas em chinês. De Sydney, onde estava para uma conferência, ele conta como dribla a censura e fala sobre os problemas que assolam a China moderna.

 
Com toda a censura que permeia a
sociedade chinesa, qual o papel de
redes sociais como a Weibo?

Sob o comando do Partido Comunista, não existem organizações sociais verdadeiras como sindicatos associação de jornalistas, ordem de advogados e até os diretórios acadêmicos são organizados e controlados pelo governo. Cada indivíduo é como um átomo solitário perante a gigantesca e poderosa máquina estatal; outra característica é a falta de uma imprensa independente. A verdade dos fatos e as notícias são censuradas ou filtradas, falta autonomia de pensamento e reflexão à população. A Weibo contribui para a melhoria da situação chinesa, apesar de a internet passar por intermináveis meios de censura. Entretanto, devido ao grande número de discussões entre os usuários, algumas críticas sempre escapam da censura e vêm à tona algumas informações valiosas. Assim, formou-se identificação de opinião e de valores entre usuários e uma estreita “ liga de opinião pública”.
 
A Weibo é uma grande rede de manifestação…

 As pessoas acessam a Weibo para expressar livremente sua opinião, criticar o governo e os funcionários públicos. Ela também serve para revelar verdades históricas e trocar opiniões. As pessoas que se sentem com seu direito violado procuram esse meio em busca de apoio e assim formam uma “expressão popular”. Obviamente que o governo chinês não ficaria de braços cruzados assistindo ao seu desgaste perante a opinião pública e, a partir de agosto do ano passado, iniciou um processo mais rígido de controle da internet: muitas pessoas foram censuradas, suas contas fechadas e algumas inclusive foram presas. As novas regras de controle da internet atingiram a Weibo em cheio, mas ela continua a ter um papel fundamental na vida cotidiana chinesa.
 
Sem democracia, apesar de estimular
uma economia de mercado, a China tirou
20 milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas graças aos investimentos
estrangeiros. O que o senhor acha disso?

Em minha opinião, isso não passa de uma repetição da história chinesa, pois houve vários períodos econômicos áureos. Geralmente, quando a China se unifica e cessam as guerras, há um período em que o governante deixa o povo em paz. Caso não ocorram desastres naturais, o país enriquece entre 30 a 50 anos. Existe uma estreita relação entre o desenvolvimento econômico dos últimos 30 anos da China e a sua política governamental, mas o fator principal da guinada é o esforço do próprio povo. Caso eu tenha que indicar o mérito do governo, diria que é ter “deixado o povo em paz”, isto é, uma administração com menos vigilância. Podemos observar que, em todas as regiões em que se diminuiu o controle estatal, surgiram oportunidades comerciais. A indústria de eletrodomésticos é um exemplo: em apenas 10 anos, os produtos fabricados na China começaram a competir com os grandes grupos internacionais. Por outro lado, todos os setores que permaneceram sob um controle mais rígido permaneceram estagnados, é o caso do financeiro e dos meios de comunicação, incluindo a televisão e o cinema.
A economista Dambisa Moyo, do Zâmbia,
que estuda o crescimento da economia
chinesa e seus reflexos na África, diz que este modelo de desenvolvimento tem desafiado o Ocidente no sentido de constatar que, com a democracia, o desenvolvimento é mais lento e mais a longo prazo. O que o senhor acha
disso? A democracia está doente, apesar de ainda ser o melhor sistema de governo?

Democracia é um conceito político e é inadequado discutir sobre essa questão de um ponto de vista econômico ou comercial, pois são áreas completamente diferentes. É claro que a preocupação principal dos famintos é a questão da alimentação, e não dos direitos políticos. Nestes últimos 100 anos, muitas vezes os que passaram fome foram aqueles que também perderam seus direitos políticos, como na grande epidemia de fome entre 1959 e 1962 na China, entre 1932 e 1933 na Ucrânia e, neste momento, na Coreia do Norte.
 
E qual é a origem da fome?

Está mais relacionada com o sistema de governo do que com os desastres naturais. Sobre essa questão, Amartya Sen comentou que “na história do mundo, nunca houve uma epidemia de fome numa democracia efetiva”. Entretanto o sistema democrático não é onipotente, alguns países possuem o sufrágio universal, o direito à opinião, mas, mesmo assim, não conseguem erradicar a pobreza. Nisso existem fatores muito complexos como culturais, tradições, mentalidade popular e opções de políticas públicas. A partir de 1940, ocorreu o milagre econômico na extinta URSS, mas hoje em dia sabemos que o seu desenvolvimento foi injusto e desequilibrado. Para o futuro próximo, a pergunta que fica é se a economia chinesa repetirá o erro soviético e, neste momento, ainda é cedo para se chegar a alguma conclusão. Em curto prazo, o sistema democrático não é muito eficiente, mas ele pode manter certa igualdade social, bem como pode evitar a ocorrência de grandes calamidades (como a epidemia da fome). Em longo prazo, a vantagem do sistema democrático é mais evidente, porque é inevitável o retrocesso e o declínio de países com sistemas totalitários.
 
Como artistas e escritores lidam com a
censura? O senhor se autocensura?
Qual o
limite da expressão individual nesse cenário?

Cada pessoa tem uma reação diferente perante a censura, há os que a desafiam e a enfrentam de maneira corajosa, cujo resultado é o banimento e a repressão, que vai além da proibição de publicação, mas que pode resultar na restrição da liberdade pessoal. Há os que testam os limites da censura, mas é uma atitude de alto risco. Ainda há os que seguem as regras piamente, não tratando de temas sensíveis. Durante muitos anos, eu mesmo monitorava a minha produção, caso percebesse que o enredo estaria a desenrolar para um assunto sensível (como do protesto da Paz Celestial), dava um jeito de contornar ou substituir por outra coisa. Caso alguma frase fosse tabu, eu a apagava antes mesmo do editor. Mas, nos últimos anos, me dei conta de que um bom escritor não deve se deter apenas ao presente, e sim ao futuro; não apenas ao leitor doméstico, e sim dirigir-se ao mundo.
 
E quais os temas mais censurados?

Na China, existem vários conteúdos censurados. O mais crítico é a questão do Tibet e de Xinjiang, seguido das críticas à cúpula do poder e depois das críticas ao sistema socialista e aos dirigentes do Partido Comunista. Existem assuntos que são proibidos de circular, como a calamidade da fome, a Revolução Cultural e os protestos de 1989 na Praça da Paz Celestial. “Falun gong” é um termo sensível em qualquer circunstância. Minha obra nunca tratou dessas questões, mas, no meu novo livro, Os Ladrões, não vou mais evitar esses assuntos.
 
O que te motiva a escrever? Qual sua
inspiração e que temas movem a
literatura contemporânea chinesa?

Meu foco é no cotidiano contemporâneo chinês, especialmente em fatos absurdos com certa pitada de humor negro como a denúncia de fraudadores torpes, mas efetivos. Todos os dias ocorre algum fato absurdo na sociedade caótica chinesa e esta é a minha fonte de inspiração. De fato, os escritores chineses não têm prestado atenção ao absurdo “agora” que vive a nossa sociedade. Óbvio que é devido à censura, pois descrever o que está a acontecer é muito arriscado; por isso, eles preferem dirigir o olhar para o passado e falar sobre as áreas rurais, de muito menos risco. Uma vez, eu disse, em tom jocoso, que os temas do romance chinês depois de 1949 tratam apenas da primeira república, da vida rural e da vida rural antes de 1949.
 
Você publicou o primeiro livro na internet.
Como a rede pode mudar a maneira
como acessamos livros?

A situação chinesa é sui generis. Muitas pessoas optam por publicar na internet devido ao direito autoral, pois o governo incentiva a pirataria e, por incrível que pareça, a censura é menos efetiva na internet do que em impressos. E justamente por causa desse ambiente um pouco mais livre é que muita gente prefere acreditar nas manifestações desse meio e ler obras que são publicadas na rede.
 
Como é sua situação hoje perante o governo chinês? O senhor viaja muito, já viveu em
várias cidades, escreve com um pseudônimo. Isso tem a ver com algum tipo de perseguição?

Muitos sabem da “lista negra” do governo chinês e imagino que eu também esteja incluído nela. Estou sob vigilância da polícia secreta, mas não tenho como provar. Eu sou divorciado, não tenho filhos e minha namorada é de Hong Kong. Costumo viajar ao exterior para participar de conferências e palestras como escritor. Desta vez, vim à Austrália a convite do Centro de Investigação da China da Universidade de Sidney. Farei uma pesquisa sobre a guerra de resistência à invasão japonesa (1937-1945). Neste momento, estou escrevendo o romance Os ladrões cujo protagonista é um editor de jornal e ladrão nas horas vagas. Ele rouba apenas os corruptos funcionários públicos, que não têm coragem de denunciá-lo à polícia. Mais tarde, ele se dá conta de que é um ladrãozinho insignificante em comparação às personalidades que aparecem na televisão, esses sim, os verdadeiros ladrões da nação. Utilizo pseudônimo por opção pessoal e não é devido à censura.
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